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#Contos#Literatura Brasileira

Sem olhos

Por Machado de Assis (1876)

Este conto de Machado de Assis (1839–1908), publicado no Jornal das Famílias em 1876, é uma narrativa sombria que explora a loucura, a culpa e a vingança. O enredo, estruturado em uma moldura de tertúlia social, mergulha no relato perturbador de Damasceno Rodrigues, um homem assombrado por um passado traumático no interior da Bahia. Machado exercita seu domínio da ambiguidade psicológica, desafiando o leitor a distinguir entre a alucinação e a realidade terrível. Um convite irrecusável à angústia machadiana.

O chá foi servido na saleta das palestras íntimas às quatro visitas do casal Vasconcelos. Eram estas o Sr. Bento Soares, sua esposa D. Maria do Céu, o bacharel Antunes e o desembargador Cruz. A conversa, antes do chá, versava sobre a última soirée do desembargador; quando o criado entrou, passaram a tratar da morte de um conhecido, depois das almas do outro mundo, de contos de bruxas, finalmente de lobisomem e das abusões dos índios.

— Pela minha parte, disse o Sr. Bento Soares, nunca pude compreender como o espírito humano pôde inventar tanta tolice e crer no invento. Vá que uma ou outra criança dê crédito às suas próprias ilusões; para isso mesmo é que são crianças. Mas, que um homem feito…

— Que tem isso? observou o desembargador apresentando a xícara ao criado para que lhe repetisse o chá; a vida do homem é uma série de infâncias, umas menos graciosas que as outras.

— Queres mais chá, Maria? perguntou a dona da casa à esposa de Bento Soares, que acabava de beber a última gota do seu.

— Aceito.

O bacharel Antunes apressou-se a receber a xícara de D. Maria do Céu, com uma cortesia e graça, que lhe rendeu o mais doce dos sorrisos.

— Eu acompanho o desembargador, disse Bento Soares.

Enquanto o bacharel Antunes ampliava ao marido de Maria do Céu o obséquio que acabava de prestar a esta, com a mesma solicitude, mas sem receber o mesmo nem outro sorriso, e passava ao criado a xícara vazia, Bento Soares prosseguia em suas idéias acerca das abusões humanas. Bento Soares estava profundamente convencido que o mundo todo tinha por limites os do distrito em que ele morava, e que a espécie humana aparecera na terra no primeiro dia de abril de 1832, data de seu nascimento. Esta convicção diminuía ou antes eliminava certos fenômenos psicológicos e reduzia a história do planeta e de seus habitantes a uma certidão de batismo e vários acontecimentos locais. Não havia para ele tempos pré-históricos, havia tempos pré-soáricos. Daí vinha que, não crendo ele em certas lendas e contos da carocha, mal podia compreender que houvesse homem no mundo capaz de ter crido neles uma vez ao menos.

A conversa, porém, bifurcou-se; enquanto o desembargador referia a Bento Soares e ao dono da casa algumas notícias relativas a crenças populares antigas e modernas, as duas senhoras conversavam com o bacharel, sobre um ponto de toilette... Maria do Céu era uma mulher bela, ainda que baixinha, ou talvez por isso mesmo, porquanto as feições eram consoantes à estatura: tinha uns olhos miúdos e redondos, uma boquinha que o bacharel comparava a um botão de rosa, e um nariz que o poeta bíblico só por hipérbole poderia comparar à torre de Galaad. A mão, que essa, sim, era um lírio dos vales — lilium convalium —, parecia arrancada a alguma estátua, não de Vênus, mas de seu filho; e eu peço perdão desta mistura de coisas sagradas com profanas, a que sou obrigado pela natureza mesma de Maria do Céu. Quieta, podiam pô-la num altar; mas, se movia os olhos, era pouco menos que um demônio. Tinha um jeito peculiar de usar deles que enfeitiçou alguns anos antes a gravidade de Bento Soares, fenômeno que o bacharel Antunes achava o mais natural do mundo. Vestia nessa noite um vestido cor de pérola, objeto da conversa entre o bacharel e as duas senhoras. Antunes, sem contestar que a cor de pérola ia perfeitamente à esposa de Bento Soares, opinava que era geral acontecer o mesmo às demais cores; donde se pode razoavelmente inferir que em seu parecer a porção mais bela de Maria não era o vestido, mas ela mesma.

Uma contestação, em voz mais alta, chamou a atenção deles para o grupo dos homens graves. Bento Soares dizia que o desembargador mofava da razão, afiançando acreditar em almas do outro mundo; e o desembargador insistia em que a existência dos fantasmas não era coisa que absolutamente se pudesse negar.

— Mas, desembargador, isto é querer supor que somos uns beócios. Pois fantasmas…

— Não me dirá nada de novo, interrompeu Cruz; sei o que se pode dizer contra os fantasmas; não obstante, existem.

— Como as bexigas; também se diz muita coisa contra elas.

— Fantasmas! exclamou Maria do Céu. Pois há quem tenha visto fantasmas?

— É o desembargador quem o diz, observou Vasconcelos.

— Deveras?

— Nada menos.

— Na imaginação, disse o bacharel.

— Na realidade.

Os ouvintes sorriram; Maria fez um gesto de desdém.

— Se a entrada na Relação dá em resultado visões dessa natureza, declaro que vou cortar as asas às minhas ambições, observou o bacharel olhando para a esposa de Bento Soares, como a pedir-lhe aprovação do dito.

— Os fantasmas são fruto do medo, disse esta, sentenciosamente. Quem não tem medo não vê fantasmas.

— Você não tem medo? perguntou a dona da casa.

— Tanto como deste leque.

— Sempre há de ter algum, opinou Vasconcelos.

(continua...)

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