Por Machado de Assis (1872)
Este conto de Machado de Assis (1839–1908) narra a trajetória de um fidalgo português que, no Brasil do século XVII, torna-se imortal após receber uma poção indígena. A obra é um precursor da ficção científica brasileira, utilizando o fantástico para refletir sobre a condição humana, o tempo e a melancolia da existência eterna. Machado mais tarde retomaria o tema no conto "O Imortal" (1882), oferecendo uma nova perspectiva sobre a mesma história.
Capítulo primeiro
Consta de crônicas inéditas e secretas que, ali pelos anos de 1630, vivia no interior do Brasil um fidalgo chamado Rui de Leão, varão de boas prendas, extremado na língua do país e aparentado com uma família tamaia, por ter casado com uma das suas mais belas filhas.
Rui de Leão contava nesse tempo cerca de quarenta anos. Era robusto, corado, ativo, tão enérgico na alma como no corpo. Tinha no rosto uns longes de melancolia que se dissipavam muita vez sem que de todo se extinguissem. Parece que a causa dessa desconhecida tristeza prendia com os infortúnios que sofrera em Portugal, e que o trouxeram ao Brasil em um dos régios galeões. O certo é que o nosso fidalgo, esquecendo totalmente a grandeza da sua raça, não duvidou em unir-se pelos laços do matrimônio à filha de um velho pajé. Matrimônio, digo eu, unicamente para usar de um termo corrente; mas a verdade é que não se deve ligar a esta palavra a ideia cristã que lhe damos. O matrimônio do fidalgo consistiu nas cerimônias indígenas.
Debalde o padre Pires tentou converter a esposa do fidalgo e santificar a união. Rui de Leão respondia que, de ora em diante, era tamaio, pois que sua mulher o era, e mandou embora o padre.
Tamaio ficou o nosso fidalgo, menos no traje, que o conservou civilizado e português. Mas até isso veio a perder daí a poucos anos, por conselho do pajé, que um dia lhe disse:
- Carão branco, tu és a nossa lua, tu és o nosso irmão, mas só uma cousa te falta. O caju é igual ao caju; o coco é igual ao coco; só tu, carão branco, em vez de seres igual a todos nós, usas de umas roupas semelhantes às dos nossos inimigos. Por que recusas vestir como nós as plumas da arara e as cores do jenipapo?
- Pajé - respondeu Rui de Leão -, a pele do carão branco não está afeita ao clima do teu país.
O pajé sorriu, contemplou o céu, inseriu o dedo mínimo no canto do olho esquerdo e ejaculou resposta filosófica:
- A água bate na pedra e fura a pedra: o costume reforma a natureza.
Rui de Leão estremeceu ouvindo estas palavras na boca do pajé; não lhe parecia que ele as tirasse do seu cérebro. O sogro entristeceu, insistiu no pedido, e Rui de Leão depois de meia hora de conferência cedeu, e despediu-se dos calções, do gibão e dos sapatos. Grande foi a festa que seguiu à encarnação do fidalgo no vestuário do deserto.
Nanavi, sua esposa, fez um esplêndido cocar de plumas com que ele se adornou garridamente. Entre Rui de Leão e Júlio César nenhum ponto de contato havia; mas uma circunstância ligava estes dous grandes homens: eram ambos calvos como a ocasião. Imaginem o prazer com que o fidalgo recebeu o cocar; foi por assim dizer a sua coroa de louros cesariana. Na tarde desse famoso dia houve reunião na cabana do pajé.
Peitos de papagaio, costeletas de tatu, e outras viandas saborosas serviram de pasto aos convivas. Quando o sol começou a ficar triste, todos os convivas entraram a bailar, e bailaram até que o cansaço e o vinho os prostraram no mais profundo sono. Extrema era a confiança da tribo no fidalgo, que logo se habituou aos mais duros exercícios. Não havia guerra em que não colhesse imarcescíveis louros, nem matança de vítima a que não levasse um par de famintos queixos. A primeira vez que figurou numa destas festas, era a vítima um galhardo mancebo indígena, que, segundo o uso, fora engordado previamente por uma velha de seus oitenta janeiros bem puxados. Convocou-se toda a gente da vizinhança, e Rui de Leão teve a glória de ser escolhido para dar o golpe mortal no rapaz.
Não se pode descrever a alegria do fidalgo, quando lhe foi conferida essa honra suprema. Quando ele apareceu à porta da cabana com a maça mortífera em punho, e o colar de dentes humanos ao pescoço (ordem honorífica daqueles povos bárbaros), houve um geral murmúrio de admiração. A única cousa com que os filhos do deserto embirraram foi com o nariz de Rui de Leão, nariz cristianíssimo, verdadeiro contraste com os narizes da gentilidade. Rezam as crônicas que esta diferença nasal esteve a ponto de provocar um levantamento no povo; mas a influência do pajé e a presença da graciosa Nanavi mataram em flor todo o projeto de insurreição. Bizarro entrou na praça o nosso Rui de Leão, e logo se encaminhou para a espécie de palanque onde a vítima devia ser imolada.
Imediatamente apareceu o condenado tirado por dois robustos rapazes, e rodeado por uma meia dúzia de velhos tocando nos seus alguidares, ao passo que uma orquestra executava em tíbias humanas ásperas variações dos Rossinis do tempo.
Rui de Leão levantou a maça e começou a atordoar a vítima levemente, no meio dos aplausos da multidão, até que, com um golpe em cheio, lhe reduziu o crânio a migalhas. Houve então a repartição da carne da vítima. Rui de Leão obteve larga parte e é fama que lhe achou melhor gosto do que outrora nos guisados da civilização.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Rui de Leão. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, jan./mar. 1872.