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#Contos#Literatura Brasileira

Um quarto de século

Por Machado de Assis (1893)

Machado de Assis (1839–1908), maior nome do Realismo brasileiro, explora em “Um quarto de século” os desencontros entre ideal amoroso e vida conjugal. O conto narra o reencontro de Tomás e Raquel após vinte e cinco anos de separação, examinando memória, ilusões afetivas e a passagem do tempo com a fina ironia característica do autor. Publicado originalmente na revista A Estação, em 15 de agosto de 1893, no Rio de Janeiro.

I

Eram quatro horas da tarde. Oliveira e Tomás conversavam à porta da casa do Desmarais, Rua do Ouvidor, ano de 1868, quando passou do lado oposto uma senhora, vestida de preto. Oliveira disse a Tomás:

— É a viúva Sales; espera.

E atravessando a rua, foi falar à viúva Sales, cinco a seis minutos apenas. As últimas palavras foram estas:

— Mas não posso contar com a senhora?

— Mana Rita está constipada; se ela ficar boa, vamos.

— Vou rezar para que fique boa.

— Os hereges não rezam, replicou a viúva sorrindo e despedindo-se. Oliveira tornou à porta do Desmarais. Tomás seguiu com os olhos a viúva, até que ela dobrou a primeira esquina.

— Não é possível, disse ele.

— Que é que não possível?

— Essa viúva... É viúva de um médico, um doutor João Sales.

— Isso.

— D. Raquel?

— Exatamente.

— Filha de um conselheiro de guerra?

— Xavier de Matos. Conheces?

— Sim, conheço, isto é, conheci. Foi há muitos anos. Está mudada.

— Um pouco mais gorda.

— Conhecia-a magrinha.

— Mas não está mais velha. Queres vê-la, queres jantar com ela, lá em casa, sábado?

— Ela vai?

— Prometeu que iria, se a mana ficasse boa.

— Sim, Mariana, mais velha que ela.

— Não, Rita, mais moça. A mais velha morreu há anos; era casada com um deputado do Norte. A moça não casou. Vivem juntas.

— Vou.

— Seis em ponto.

— Em ponto.

— Bem, agora que a viste, que tens algumas notícias, que vais jantar com ela e conosco, sábado, às seis horas em ponto, quero que me digas tudo ou só metade, o que puder ser contado.

— Tudo é nada, respondeu Tomás. Que diabo de idéia é essa?

— Meu caro, quando eu me despedi dela, tu não me viste chegar ao pé de ti; ias atrás dela com os olhos, com os ouvidos, com tudo. O coração batia-te que se ouvia cá fora como o meu relógio de parede bate as horas, nos primeiros dias da semana, por estar de corda nova. Relojoeiro, desfaz o teu relógio.

Tomas sorriu, mas não sorriu bem; parecia acanhado. Oliveira não soube ser discreto. Íntimos desde a Faculdade de Direito de S. Paulo, onde se formaram, foram confidentes um do outro, até o dia em que a vida os separou; novamente ligados, Oliveira cuidava estar no mesmo ponto em que a vida os deixara antes. Tomás, pela tua parte, vacilava. Evidentemente, havia alguma coisa que dizer.

— Tudo é pouco.

— Esse pouco.

— Gostei dela em solteira, mas foi coisa que passou, como outras. Sabes que nós, por esse tempo, namorávamos a todas.

— Mas nunca me falaste desta.

— Provavelmente, falei; mas eram tantas! Bom tempo, Oliveira! Era melhor que isto de hoje com os nossos bigodes grisalhos, tu pai de filhos, eu solteirão desamparado, quarenta e quatro anos no lombo; tu tens mais três.

— Mais dois.

— Creio que já foram quatro, mas o tempo diminui tudo, começando por si mesmo.

— Vai para o diabo. Quarenta e seis, feitos em março.

Trocaram ainda algumas palavras, e despediram-se. Oliveira meteu-se no carro que estava no largo de S. Francisco de Paulo e foi para Andaraí. Tomás meteu-se na gôndola e guiou para o Catete.

II

Tomás de Castro Rodrigues tinha realmente alguns fios de prata nos bigodes e nos cabelos; vieram-lhe cedo e tendiam a multiplicar-se. Bonita figura, bem posta sobre uns pés pequenos, elegante com certa graça do outono, dava ainda um noivo decente. Não casara por não achar noiva que o quisesse, dizia ele; mas, realmente, por causa de uma paixão da mocidade, esta mesma viúva Sales que passou agora na Rua do Ouvidor, então Raquel, simples Raquel.

Não tomes isto ao pé da letra, para me não acusares de romantismo. É certo que ele prometeu não casar nunca, depois da paixão de Raquel; mas, não foi precisamente a paixão que o deixou solteiro. Esta doeu-lhe por muito tempo, fê-lo empreender uma viagem à Europa, onde se demorou quatro anos. Os quatro anos, porém, não foram gastos em suspirar. O tempo e a distância depressa o fizeram sarar; a própria vida é que o confinou na solidão. Solidão fácil, aliás, composta de prazeres, viagens, distrações amorosas e outras. Quando se afastou da Europa, tornou para o Rio de Janeiro, onde assistiu à morte do pai, que lhe deixou todos os seus bens. Tomás era filho único. Já então Raquel, tendo casado com um negociante de Pelotas, havia partido para o Sul. Tomás começou a advogar; parece que defendeu algumas causas, perdeu-as todas, ou quase todas. Não fechou a banca; mas achava meio de não se meter em muito trabalho; este foi naturalmente fugindo, de maneira que, em pouco tempo, acabaram os clientes. A banca era pretexto para ter um lugar de descanso e conversação, e dar emprego a um servente.

(continua...)

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