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#Ensaios#Literatura Brasileira

A Esfinge

Por Euclides da Cunha (1907)

Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.

8 de fevereiro de 1894

...Determinação inesperada destacou-me para erigir urna fortificação ligeira ao lado do edifício das Docas Nacionais.

Ainda bem. Deixei, afinal, aquele tristonho morro da Saúde, que há dois meses retalho, e mino, e terrapleno, rasgando-lhe em degraus as encostas, taludando-o e artilhando-o, numa azáfama guerreira de que sou o primeiro a me surpreender. Lucro com a mudança. É uma variante ao menos. Livra-me do quadro demasiado visto daquele recanto comercial que a Revolta paralisou — circulado de trapiches desertos, atulhado pelo ciscalho bruto da ferragem velha da Mortona, e banhado pelas águas mortas de uma reentrância da baia, onde bóiam, apodrecendo, velhos pontões demastreados e inúteis.

Dei, por isto, para logo, rápidas ordens de partida, e os sapadores abalaram em turmas - incorretos pelotões armados de picaretas e enxadas.

Acompanhei-os; e não esqueci um adorável companheiro e mestre, Thomaz Carlyle, em cujas páginas nobremente revolucionárias me penitencio do uso desta espada inútil, deste heroísmo à força e desta engenharia malestreada...

Cheguei, em pouco, ao local indicado, encontrando novos trabalhadores. Um apontador da diretoria de obras militares, armado de ordem terminante do comandante da linha, e seguido de meia dúzia de praças, já havia percorrido as tavernas e vivendas pobres das cercanias, à cata de operários como quem busca criminosos. Avezado àquelas caçadas, não se demorara Em breve, algumas dezenas de estivadores, de varias nacionalidades — patriotas sob a sugestão irresistível dos rifles desembainhados e pranchadas iminentes — reforçaram as turmas desfalcadas.

Havia braços de sobra. Podia-se abordar a empresa da construção de mais uma Humaitá de sacos de areia, idêntica às que vêm hoje, debruando todo o litoral, desde o Flamengo à Gamboa.

A que se projetava, porém, requeria avantajadas proporções. Destinava-se a um Withworth 70, desentranhado da Armação (onde jazia desde a questão Christie) e vindo por terra, em longo rodeio, até aqui.

Pesado e desgracioso, alongando por sobre o reparo sólido, à maneira de um animal fantástico, o pescoço denegrido e áspero, ele parecia aguardar, ao lado, que lhe preparassem o estrado onde pudesse ser conteirado à vontade, rugindo, temeroso, sobre a rebeldia impenitente...

É o que sucederia, talvez, dentro de poucas horas.

Surdo boato, dos que por aí irrompem e se alastram, sem que se saiba de onde partem, lançara nas. fileiras legais, comovidas, a nova de próximo embarque — toda a maruja revoltosa em terra, desencadeada. em lances de desespero e ousadias.

Urgia por mãos à tarefa. Certo não desfaleceria da minha banda a defesa da Legalidade — belo eufemismo destes tempos sem leis.

Foi atacado o trabalho. Cento e tantos homens, agitantes sobre as ordens ríspidas, arcados sob os sacos cheios de areia ou arrastando-os, arrumando-os, superpostos, como grandes adobes de um muramento ciclópico, bracejavam durante o dia todo...

De sorte que ao chegar a noite, brusca e varada de chuvisqueiros intermitentes e frios, pude contemplar o meu prodígio de baluarte chinês, uma duna ensacada, erguida em poucas horas sobre a crista do cais, dominante e desafiando assaltos.

Protegidos por ela, e apagados, para maior resguardo, os lampiões de gás, da vizinhança, os carpinteiros principiaram a ajeitar os pranchões aparelhados, madeirando a plataforma.

Era a fase mais perigosa da empresa. Aquela agitação, que se realizara até ali sem ruídos, ia transmudar-se, pela ação estrepitosa dos martelos, precisamente na hora das surpresas, das repentinas visitas das torpedeiras traidoras.

Sustive-a, por isto, um momento, indeciso.

Considerei em torno...

Aquele trecho da Prainha espécie de White-Cheapel em miniatura, enredado de bitesgas tortuosas e estreitas, onde mourejava população ativa, parecia abandonado. Nem uma voz. Nem uma luz.

Em frente, no mar inteiramente calmo, avultavam, mal percebidos, os navios de guerra estrangeiros, destacando-se melhor os couraçados brancos da esquadra americana. Ao fundo, um cordão de pontos luminosos — Niterói. Adivinhavam-se ainda uns perfis de ilhas, as da Conceição e Mocanguê, vagos, numa difusão de sombras; e a silhueta apagada do Tamandaré junto à última, imóvel, calada a artilharia formidável, mudo na solidão das águas... Depois, para a direita, algumas lanternas bruxoleantes, asfixiadas nas brumas: a do forte de Gragoatá, a de Santa Cruz, mais longe, e a da fortaleza da Lage, intermitindo em cintilações longínquas, chofradas pelas ventanias ríspidas da barra.

Nada mais na tela obscurecida...

O cenário quadrava bem a um episódio habitual e dramático, que embora diuturnamente reproduzido não perde o traço emocionante e bárbaro.

(continua...)

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