Por Euclides da Cunha (1907)
Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.
Entre os enredos prováveis que em breve embaralharão a luta do Extremo Oriente avulta, a ressaltar em destaque sobre todas as conjecturas, uma ação interventiva da Inglaterra.
Tudo a sugere. A parte um sem número de outras circunstâncias, mostramna, com toda a clareza de um traçado geométrico, os itinerários seguidos pelas duas grandes nacionalidades no velho mundo.
A princípio marcharam paralelamente: o inglês pelo Egito, pelo Afeganistão, pela Índia; o russo pelo norte do Turquestão e pela Sibéria em forma a defrontar o Pacífico; e, certo, teriam no Tibete e na China propriamente dita uma larga superfície isolante, que devia garantir a imiscibilidade de suas poderosas vagas invasoras, se uma delas, a russa, não houvesse de inflectir forçadamente para o sul, tendendo para um encontro, que será um conflito.
De feito, a rota do eslavo para o Oriente — a mais lenta e a maior de todas as invasões — não denuncia, como a do saxônio, um excesso de vida, porem a mesma necessidade inflexível de viver. Não obedece a um traçado sistemático e seco; não vai num percurso de gentes disciplinadas avançando adstritas à retitude de programas prefixos - e um espraiamento largo a assoberbar fronteiras, o refluxo desordenado e em massa de um povo rudemente repelido num final espantoso de batalhas.
Realmente, a guerra de Criméia fechou o ocidente da Europa à Rússia e despenhou-a sobre a Ásia. A típica bonomia política de Napoleão III, com servir tão complacentemente aos interesses da Inglaterra, em 1853, afigura-se hoje um lance aquilino de estadista maquiavélico, porque toda aquela campanha recorda um reconhecimento armado preparando meio século mais tarde uma luta titânica a' adversária secular da França.
Era fácil prevê-la. O colosso moscovita, vencido, ficara inteiramente bloqueado: o Bósforo interdito seqüestrava-o nos seus estepes, sem saída; e a indústria triunfante das raças vitoriosas malsinava-lhe, suplantando-lho, o desenvolvimento econômico incipiente. A Rússia, com a sua estrutura social variadíssima e imperfeita e a sua atividade ainda tateante entre a servidão e a liberdade, seria para sempre vencida pelo trabalho organizado e pelas riquezas estáveis de todo o resto da Europa.
Mas dominou a situação gravíssima. Contornou-a; transmudou todo aquele recuo num avançamento; e abalou para o levante num movimento de flanco admirável entre ameaçador e pacífico, porque não lho estimulava ou inspirava apenas o velho sonho guerreiro de Pedro, o Grande, a conquista do mar, senão também o anelo de deparar em outras terras novos centros produtivos, de cultura. Ao revés da expansão britânica na Índia, não buscava mercados para o desafogo de indústrias que não tinha, mas novas áreas de produção industrial e agrícola, onde as caravanas anuais dos mujiques das Terras Negras — dois milhões de homens periodicamente postos fora dos lares pela miséria - encontrassem o abrigo salvador dos territórios ferozes que demoram além dos plainos estéreis do Turquestão ou da Sibéria.
Para a sua grande vida vacilante e distensa procurou a base econômica da China — uma Canaã vastíssima...
E assim se traçou a "estrada do império" o transiberiano, menos um caminho comercial do que um dreno desmedido canalizando para a Rússia européia toda a força vital da Ásia conquistada.
Para isso se demasiou em esforços em que as empresas militares mal se destacam entre os prodígios de uma diplomacia incomparável.
Não há resumi-los. Diante dos hábeis diplomatas, de Mouravieff a Cassini, abria-se o desconhecido: o Império do Meio, com a sua contextura política indecifrável, onde a autoridade periclitante de uma dinastia intrusa mal se equilibra entre os Kanatos anárquicos da Mongólia — e a força religiosa dos lamas do Tibete. Neste sistema desfalecido, em que divergem os poderes mal unidos pela identidade das crenças difundidas na amplitude do budismo, penetrou a componente dominante da política russa, que os equilibrou ou os dirigiu, ou os anulou pelo contraste dos interesses em jogo; de sorte que a breve trecho a nacionalidade, que se perdia na grandeza inútil da Sibéria, tendo no Pacifico, em Petropavlosky, uma saída única obstruída pelos gelos, se dilatou para o sul até Vladivostock; firmou-se depois, mais avantajada, em Porto Arthur - de onde assoberbando todo o vale do Amur, abrangeu a Manchúria, e conquistou o protetorado franco da Mongólia, onde se estréia a suserania do Tibete...
Em cinqüenta anos expandiu-se em superfície capaz de cobrir a de toda a Europa ocidental de onde refluíra em 1853.
Foi um triunfo e um revide.
Completa-os — fato sugestivo, ainda que desvalioso — uma destas minúcias pinturescas tão em destaque as vezes entre os maiores acontecimentos.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.