Estruturalismo americano
O estruturalismo americano, também denominado estruturalismo norte-americano ou linguística estrutural americana, foi um conjunto heterogêneo de orientações teóricas e metodológicas desenvolvido sobretudo nos Estados Unidos entre o final do século XIX e a segunda metade do século XX. A tradição reuniu a linguística antropológica de Franz Boas e Edward Sapir, a linguística descritiva de Leonard Bloomfield, a fonêmica norte-americana, o distribucionalismo, a análise de constituintes imediatos, a tagmêmica de Kenneth Pike e as primeiras propostas transformacionais de Zellig Harris.
A expressão não designa uma doutrina única. Boas, Sapir, Bloomfield, Harris e Pike compartilhavam o interesse pela descrição sistemática das línguas, mas divergiam quanto à natureza do sistema linguístico, ao papel do significado, à realidade psicológica das categorias, às relações entre língua e cultura e aos objetivos da teoria linguística. A unidade histórica do estruturalismo americano resulta menos da adesão a um conjunto fixo de princípios do que de problemas comuns: como registrar línguas pouco documentadas; como identificar suas unidades sem impor categorias provenientes do latim ou das línguas europeias; como estabelecer procedimentos explícitos de análise; e como constituir a linguística como disciplina científica autônoma.
A formação dessa tradição esteve estreitamente ligada à antropologia e ao estudo das línguas indígenas das Américas. O trabalho de campo exigia que os pesquisadores transcrevessem sons, recolhessem narrativas, identificassem padrões morfológicos e sintáticos e elaborassem gramáticas e dicionários de línguas frequentemente desprovidas de tradição escrita padronizada. A diversidade encontrada favoreceu a rejeição de modelos gramaticais considerados universais apenas porque haviam sido construídos a partir das línguas clássicas e europeias.
Durante as décadas de 1930 a 1950, a orientação associada a Bloomfield e aos chamados pós-bloomfieldianos tornou-se dominante em grande parte da linguística acadêmica dos Estados Unidos. A partir do final da década de 1950, a ascensão da gramática gerativa modificou profundamente o campo. Apesar da oposição frequentemente estabelecida entre estruturalismo e gerativismo, houve também continuidades: a gramática gerativa herdou da tradição norte-americana o interesse pela formalização, pela estrutura hierárquica dos constituintes e pelas relações transformacionais entre sentenças.
Definição e delimitação[editar]
O estruturalismo americano integra o movimento mais amplo de renovação da linguística ocorrido na primeira metade do século XX. Seu princípio geral é que uma língua não deve ser tratada como simples lista de palavras acompanhada de regras normativas, mas como uma organização de unidades relacionadas entre si.
O termo estrutura, entretanto, recebeu sentidos diferentes. Para Sapir, a estrutura linguística constituía um padrão formal dotado de realidade psicológica e cultural. Para Bloomfield e muitos de seus continuadores, a descrição deveria concentrar-se nas formas observáveis e nas regularidades de sua combinação. Para Harris, a estrutura podia ser investigada por meio das restrições distribucionais existentes entre os elementos de uma língua. Para Pike, a análise precisava combinar forma, função e contexto comportamental.
Também é necessário distinguir o estruturalismo americano do distribucionalismo. O distribucionalismo foi uma orientação metodológica particularmente importante dentro da tradição, mas não abrange toda a produção estrutural norte-americana. Boas e Sapir, por exemplo, contribuíram decisivamente para a formação da linguística descritiva nos Estados Unidos, embora não tenham desenvolvido o método distribucional em sua formulação posterior.
A tradição norte-americana tampouco deve ser identificada integralmente com o behaviorismo. Bloomfield adotou uma posição mecanicista influenciada pelo behaviorismo de John B. Watson, e alguns pós-bloomfieldianos evitaram explicações mentalistas. Sapir, porém, atribuía importância à realidade psicológica dos padrões; Pike incorporou significado e contexto a suas análises; e Harris apresentou seu trabalho sobretudo como investigação formal das relações existentes nos dados linguísticos.
Contexto histórico[editar]
A linguística norte-americana no final do século XIX[editar]
No século XIX, grande parte da linguística acadêmica ocidental concentrava-se na história das línguas indo-europeias. O método histórico-comparativo permitia estabelecer correspondências fonéticas, reconstruir formas antigas e investigar o parentesco entre línguas. Nos Estados Unidos, essa tradição também esteve presente, especialmente nos estudos de línguas germânicas, clássicas e indo-europeias.
Ao mesmo tempo, a expansão territorial do Estado norte-americano, as políticas de remoção e assimilação dos povos indígenas e a formação de museus e instituições antropológicas estimularam o registro de línguas e culturas indígenas. A pesquisa linguística desenvolveu-se, assim, em circunstâncias diferentes das que predominavam em muitos centros europeus.
O trabalho com línguas indígenas não começou com os estruturalistas. Missionários, administradores, viajantes e estudiosos haviam produzido vocabulários, traduções e gramáticas desde o período colonial. A contribuição da linguística antropológica do final do século XIX e do início do século XX consistiu em tornar esse trabalho mais sistemático e em defender que cada língua fosse descrita segundo sua própria organização.
Esse empreendimento científico ocorreu em um contexto colonial. Muitas comunidades pesquisadas enfrentavam perda territorial, deslocamento, internatos compulsórios, proibição de suas línguas e ruptura de formas tradicionais de transmissão cultural. A documentação linguística preservou materiais de grande importância, mas também foi marcada por relações desiguais entre instituições acadêmicas e povos indígenas. A historiografia contemporânea procura reconhecer o papel de falantes, tradutores e colaboradores comunitários que muitas vezes não receberam crédito adequado nas publicações.
A relação com a antropologia[editar]
Nos Estados Unidos, a linguística desenvolveu-se inicialmente em estreita relação com a antropologia. O conhecimento da língua era considerado necessário para registrar narrativas, mitos, sistemas de parentesco, práticas cerimoniais e classificações culturais.
A linguagem constituía, ao mesmo tempo, objeto de investigação própria e instrumento de acesso à vida social. Essa dupla condição explica por que muitos dos principais linguistas norte-americanos da primeira metade do século XX também foram antropólogos ou trabalharam em departamentos de antropologia.
A associação entre língua e cultura não produziu uma teoria única. Boas insistiu na necessidade de estudar as categorias próprias de cada língua; Sapir investigou a relação entre formas linguísticas, personalidade e padrões culturais; Whorf desenvolveu propostas sobre os efeitos habituais da gramática sobre a interpretação da experiência. Bloomfield, embora tivesse realizado trabalho de campo com línguas indígenas, procurou delimitar a linguística por meio de procedimentos descritivos mais autônomos.
A institucionalização da disciplina[editar]
A linguística norte-americana adquiriu maior autonomia institucional durante as primeiras décadas do século XX. A Linguistic Society of America foi fundada em 1924, e o primeiro volume de sua revista, Language, foi publicado em 1925.
A sociedade e a revista ofereceram espaços permanentes para a circulação de pesquisas, resenhas, descrições e debates teóricos. A institucionalização não eliminou a relação com a filologia e a antropologia, mas favoreceu a formação de uma comunidade profissional identificada especificamente com a linguística.
Bloomfield participou da fundação da Linguistic Society of America e exerceu forte influência sobre seus primeiros anos. Posteriormente, linguistas como Bernard Bloch, George Trager, Charles Hockett e Zellig Harris ocuparam posições importantes em universidades, associações e periódicos.
A Segunda Guerra Mundial ampliou a demanda por ensino intensivo de idiomas, tradução e produção de materiais pedagógicos. Linguistas participaram de programas de formação destinados a militares e agentes governamentais. Essa experiência reforçou o prestígio das técnicas descritivas e contribuiu para a expansão acadêmica da disciplina no pós-guerra.
Franz Boas e os fundamentos da linguística antropológica[editar]
Franz Boas (1858–1942) foi uma das figuras centrais da antropologia e da linguística norte-americanas. Nascido na Alemanha e formado inicialmente em física e geografia, desenvolveu pesquisas entre comunidades indígenas da costa noroeste da América do Norte e tornou-se professor da Universidade Columbia.
Boas combateu as teorias evolucionistas que organizavam povos e culturas em uma escala única, na qual sociedades europeias modernas representariam o estágio mais avançado. Em oposição a esse modelo, defendeu o estudo histórico e particularizado de cada cultura.
Na linguística, essa posição conduziu à rejeição de hierarquias entre línguas. Sistemas indígenas não deveriam ser classificados como primitivos ou deficientes por não apresentarem categorias familiares aos estudiosos europeus. Toda língua possui recursos suficientes para atender às necessidades comunicativas de seus falantes, embora distribua e organize esses recursos de maneiras diferentes.
O Handbook of American Indian Languages[editar]
A introdução de Boas ao primeiro volume do Handbook of American Indian Languages, publicado em 1911, tornou-se um documento fundamental da linguística antropológica. O volume reunia descrições extensas de línguas indígenas norte-americanas e procurava estabelecer critérios para seu estudo.
Boas argumentava que as categorias de uma língua não deveriam ser determinadas antecipadamente. Ao analisar um novo sistema, o pesquisador precisava identificar quais distinções eram formalmente expressas e como se relacionavam.
Uma gramática elaborada a partir do modelo latino poderia procurar, por exemplo, casos, gêneros ou tempos verbais que não constituíam categorias relevantes na língua investigada. Ao mesmo tempo, poderia deixar de reconhecer distinções obrigatórias para seus falantes, mas ausentes nas línguas europeias mais conhecidas.
Essa posição não significava que as línguas fossem incomparáveis. A comparação continuava possível, desde que não se confundisse a terminologia construída para uma tradição gramatical com a estrutura universal da linguagem.
Som, categoria e experiência[editar]
Boas dedicou atenção à percepção dos sons. Pesquisadores não treinados podiam registrar de maneiras diferentes uma mesma palavra indígena porque interpretavam os sons desconhecidos segundo as categorias fonéticas de sua própria língua. O problema demonstrava que a transcrição não era uma reprodução passiva do estímulo acústico: dependia de hábitos perceptivos e analíticos.
Também observou que as línguas selecionam diferentes aspectos da experiência para expressão obrigatória. Uma forma verbal pode exigir informações sobre a fonte do conhecimento, o formato do objeto, a localização ou outras propriedades que permanecem facultativas em outra língua.
Essas observações contribuíram para debates posteriores sobre relatividade linguística, mas Boas não sustentava que os falantes fossem incapazes de conceber uma ideia apenas porque sua língua não a codificava gramaticalmente.
Formação de pesquisadores[editar]
Boas formou uma geração decisiva de antropólogos e linguistas, entre os quais Edward Sapir, Ruth Benedict, Margaret Mead, Alfred Kroeber, Paul Radin e Melville Herskovits.
Seu programa combinava trabalho de campo, documentação textual e descrição gramatical. A influência boasiana ultrapassou as propostas específicas de seus alunos e ajudou a estabelecer o princípio de que a diversidade linguística constitui objeto central da ciência da linguagem.
Edward Sapir e a tradição sapiriana[editar]
Edward Sapir (1884–1939), aluno de Boas, foi linguista, antropólogo, crítico literário e estudioso da cultura. Realizou pesquisas sobre numerosas línguas indígenas, entre elas takelma, yana, paiute meridional, nootka e línguas atabascanas.
Sua produção combinava descrição, linguística histórica, tipologia, antropologia, psicologia e literatura. Essa amplitude distingue Sapir do formalismo metodológico mais restritivo que seria associado a parte do pós-bloomfieldianismo.
Language de 1921[editar]
Em Language: An Introduction to the Study of Speech, publicado em 1921, Sapir apresentou uma visão geral da linguagem como fenômeno humano, social e formal. O livro trata da estrutura gramatical, da mudança, das relações entre língua, raça e cultura, da literatura e da classificação tipológica.
Sapir definia a linguagem como método exclusivamente humano e não instintivo de comunicar ideias, emoções e desejos por meio de símbolos voluntariamente produzidos. Essa formulação precisa ser situada no vocabulário psicológico de sua época: não implica que a capacidade humana para adquirir linguagem fosse considerada independente de bases biológicas.
A língua era concebida como sistema formal. Os falantes não se limitariam a acumular expressões aprendidas; dominariam padrões que lhes permitem produzir e compreender novas formas. Sapir atribuía a esses padrões uma realidade psicológica, ainda que eles nem sempre fossem acessíveis à consciência reflexiva.
Padrão e intuição do falante[editar]
Sapir interessava-se pela maneira como os falantes percebem a organização de sua língua. Em seus estudos fonológicos, observou que as representações relevantes para os membros de uma comunidade não coincidiam necessariamente com todos os detalhes fonéticos registrados pelo pesquisador.
Essa atenção à intuição e à organização psicológica afastou a tradição sapiriana das versões mais rigorosamente operacionalistas da linguística pós-bloomfieldiana. Para Sapir, uma análise formal adequada deveria corresponder, em alguma medida, aos padrões interiorizados pelos falantes.
Tipologia linguística[editar]
Sapir propôs uma tipologia multidimensional das línguas. Criticou classificações baseadas apenas em rótulos como isolante, aglutinante e flexional, pois línguas concretas podem combinar diferentes tendências.
Sua classificação considerava os tipos de conceitos expressos, as técnicas de combinação de morfemas e o grau de síntese. Uma língua poderia, por exemplo, empregar afixação, composição, modificação interna ou alteração da ordem para representar relações gramaticais.
A tipologia não estabelecia uma hierarquia evolutiva. Diferentes estruturas representavam soluções distintas para a organização formal da experiência.
Língua, cultura e personalidade[editar]
Sapir recusava tanto a identificação completa entre língua e cultura quanto a ideia de que não houvesse relação entre elas. Uma mesma língua pode ser compartilhada por comunidades culturalmente diferentes; uma cultura pode circular por meio de línguas diversas. Ainda assim, os hábitos linguísticos participam da experiência social e influenciam formas habituais de atenção e expressão.
Seus trabalhos posteriores aproximaram linguagem, personalidade e padrões culturais. Sapir interessou-se pela criatividade individual, pelos estilos de fala e pela maneira como os sujeitos se posicionam dentro das convenções coletivas.
A tradição sapiriana[editar]
Entre os pesquisadores associados à tradição de Sapir encontram-se Benjamin Lee Whorf, Mary Haas, Morris Swadesh, Harry Hoijer e Stanley Newman. O grupo não constituiu uma escola perfeitamente unificada, mas preservou interesses por linguística histórica, antropologia, significado e realidade psicológica.
Sapir e Bloomfield são frequentemente apresentados como representantes de correntes antagônicas. A oposição deve ser relativizada. Ambos valorizavam a descrição rigorosa, o trabalho com línguas indígenas e a identificação de padrões estruturais. Divergiam, entretanto, quanto à legitimidade de explicações psicológicas e ao grau de autonomia atribuído à análise formal.
Benjamin Lee Whorf e a relatividade linguística[editar]
Benjamin Lee Whorf (1897–1941) estudou línguas mesoamericanas e indígenas norte-americanas e tornou-se conhecido por seus trabalhos sobre as relações entre linguagem, pensamento e cultura.
Whorf não ocupou uma posição institucional comparável à de Boas, Sapir ou Bloomfield. Formado em engenharia química, trabalhou profissionalmente no setor de seguros e desenvolveu paralelamente sua produção linguística. Estudou com Sapir em Yale e publicou análises de línguas como o hopi.
Sua obra sustenta que as línguas favorecem modos habituais de analisar situações. Categorias de número, tempo, espaço, evidencialidade ou classificação podem orientar a atenção para diferentes aspectos da experiência.
A expressão hipótese Sapir–Whorf foi difundida depois da morte dos dois autores. Nenhum deles formulou conjuntamente uma hipótese experimental única, dividida em versões “forte” e “fraca”. O chamado determinismo linguístico — segundo o qual a língua impediria seus falantes de conceber realidades não codificadas por ela — constitui sobretudo uma interpretação radical posteriormente atribuída à tradição.
O relativismo linguístico deve ser tratado como tema próprio. No estruturalismo americano, sua importância decorre de sua ligação com a tradição antropológica e com o reconhecimento da diversidade das categorias gramaticais.
Leonard Bloomfield e a linguística descritiva[editar]
Leonard Bloomfield (1887–1949) foi o principal responsável pela consolidação da linguística descritiva como programa dominante nos Estados Unidos durante as décadas de 1930 e 1940.
Sua formação inicial ocorreu na linguística germânica e indo-europeia. Bloomfield conhecia a tradição neogramática, a linguística histórica e a gramática sânscrita. Também realizou trabalhos descritivos sobre tagalo e sobre línguas algonquinas, como menomini, cree e fox.
Da psicologia mentalista ao mecanicismo[editar]
Em An Introduction to the Study of Language, publicado em 1914, Bloomfield utilizou conceitos influenciados pela psicologia de Wilhelm Wundt. Nas décadas seguintes, afastou-se do mentalismo e aproximou-se de uma orientação mecanicista influenciada especialmente pelo behaviorismo de John B. Watson.
Bloomfield considerava problemáticas as explicações que recorriam a ideias, imagens, intenções ou outros estados interiores sem procedimentos independentes de observação. A linguística deveria descrever formas de fala e as circunstâncias observáveis em que eram produzidas.
Essa posição não significava que Bloomfield negasse a existência de processos mentais. Seu argumento era metodológico: a ciência ainda não disporia de meios suficientemente rigorosos para utilizá-los como fundamento da descrição linguística.
Bloomfield não foi influenciado pela teoria madura de B. F. Skinner sobre comportamento verbal. Verbal Behavior foi publicado somente em 1957, depois da morte do linguista. A associação entre os dois autores decorre de sua vinculação geral ao behaviorismo, mas suas formulações pertencem a momentos e programas diferentes.
Language de 1933[editar]
A publicação de Language, em 1933, tornou-se um marco da linguística norte-americana. A obra apresenta uma síntese abrangente de fonética, gramática, semântica, mudança linguística, dialetologia, aquisição da linguagem, escrita e história da linguística.
O livro não é um manual de distribucionalismo em sentido estrito. Seus conceitos e sua orientação metodológica, contudo, forneceram o ponto de partida para a geração pós-bloomfieldiana.
Bloomfield concebia a comunidade linguística como grupo de pessoas que interagem por meio da fala. As regularidades dos enunciados constituem os hábitos linguísticos da comunidade. O pesquisador procura identificar formas recorrentes e descrever suas possibilidades de combinação.
Forma e significado[editar]
É frequente afirmar que Bloomfield excluiu o significado da linguística. A afirmação é imprecisa. Bloomfield definia a forma linguística pela associação entre configuração vocal e significado. A diferença de significado também era utilizada para reconhecer contrastes entre formas.
Sua restrição dizia respeito à possibilidade de desenvolver uma semântica cientificamente exata. O significado de uma expressão dependeria das situações em que é empregada e dos conhecimentos sobre o mundo a que se refere. Como a descrição completa dessas situações exigiria o desenvolvimento das demais ciências, a análise semântica não alcançaria, naquele momento, a precisão da fonologia e de setores da gramática.
Essa dificuldade levou os pós-bloomfieldianos a concentrar-se nas propriedades formais e distribucionais. O significado continuou presente, mas seu emprego como critério analítico foi reduzido ou controlado.
Forma livre, forma presa e constituinte[editar]
Bloomfield chamou de forma livre a forma linguística capaz de ocorrer isoladamente como enunciado. Uma forma presa não ocorre sozinha e aparece ligada a outras formas.
Em livros, por exemplo, livro pode ocorrer como palavra independente, enquanto a marca de plural -s é uma forma presa.
Uma forma complexa é constituída por formas menores. A análise das relações entre esses componentes contribuiu para o desenvolvimento da morfologia estrutural e da análise de constituintes imediatos.
Influência institucional[editar]
A influência de Bloomfield não decorreu apenas de seus conceitos. Sua atuação na Linguistic Society of America, sua produção descritiva e o prestígio de Language contribuíram para estabelecer padrões de formação e pesquisa.
Depois de sua morte, diferentes linguistas apresentaram-se como continuadores, revisores ou críticos de seu programa. O chamado bloomfieldianismo foi, portanto, construção coletiva e parcialmente posterior à própria obra de Bloomfield.
O pós-bloomfieldianismo[editar]
A expressão pós-bloomfieldianismo designa as orientações desenvolvidas por linguistas que, nas décadas de 1940 e 1950, sistematizaram ou reformularam aspectos da linguística descritiva associada a Bloomfield.
Entre seus principais representantes encontram-se Bernard Bloch, George L. Trager, Charles F. Hockett, Rulon S. Wells, Eugene Nida, Charles C. Fries, Archibald A. Hill, Henry Lee Smith e Zellig Harris.
O grupo não possuía posição única sobre todos os problemas. Havia divergências quanto ao estatuto do fonema, à relação entre fonologia e gramática, à análise do morfema, ao papel do significado e à organização da sintaxe.
Em comum, muitos desses pesquisadores procuravam formular critérios explícitos para:
- segmentar enunciados;
- identificar contrastes;
- agrupar variantes;
- reconhecer morfemas;
- construir classes de formas;
- representar a organização hierárquica das construções.
A fonologia e a morfologia receberam inicialmente mais atenção porque pareciam permitir segmentação e classificação relativamente controladas. A sintaxe ganhou centralidade com a análise de constituintes imediatos e com os trabalhos de Harris.
Fonêmica norte-americana[editar]
A fonêmica norte-americana foi um dos setores mais desenvolvidos do estruturalismo americano. Seu objetivo era identificar as unidades sonoras funcionalmente distintas de cada língua e estabelecer as relações entre fonemas e suas realizações fonéticas.
Fonema e alofone[editar]
O fonema era geralmente descrito como uma classe de sons foneticamente semelhantes e distribucionalmente relacionados. As realizações pertencentes à classe eram denominadas alofones.
Se dois sons podiam ocorrer no mesmo ambiente e distinguiam formas, eram interpretados como fonemas diferentes. Se apareciam em contextos mutuamente exclusivos, de maneira previsível, podiam ser analisados como alofones de um mesmo fonema.
A distribuição complementar, entretanto, não constituía critério suficiente. Sons sem qualquer semelhança também podem aparecer em ambientes distintos. Os analistas consideravam ainda a semelhança fonética, o paralelismo do sistema e a economia da descrição.
Pares mínimos[editar]
A identificação de pares mínimos tornou-se procedimento importante. Duas formas constituem um par mínimo quando diferem em apenas um segmento na mesma posição e apresentam significados diferentes.
Em português, pato e bato oferecem evidência de contraste entre /p/ e /b/. O método ajuda a demonstrar que a substituição de um som por outro pode diferenciar unidades lexicais.
Nem todos os contrastes aparecem em pares mínimos perfeitos. Os linguistas também empregavam pares análogos, distribuições gerais e informações morfofonêmicas.
Bloch, Trager e Hockett[editar]
Bernard Bloch e George Trager publicaram, em 1942, Outline of Linguistic Analysis, exposição influente de procedimentos fonêmicos e gramaticais.
Charles Hockett desenvolveu diferentes modelos de descrição e examinou problemas como estrutura fonológica, morfologia, constituintes e comunicação. Sua obra mostra que o pós-bloomfieldianismo não se limitava a uma aplicação mecânica de regras de segmentação.
Controvérsias fonêmicas[editar]
Os fonemicistas divergiam sobre a natureza da unidade. Para alguns, o fonema correspondia a uma realidade psicológica; para outros, deveria ser definido apenas por relações formais.
Também havia controvérsias sobre:
- a representação da entoação;
- a análise de acento e duração;
- o tratamento de fronteiras;
- a admissibilidade de fonemas abstratos;
- a relação entre estrutura fonêmica e morfologia;
- a utilização de informações gramaticais na análise sonora.
O princípio de separação dos níveis pretendia impedir que a fonêmica dependesse de uma morfologia ainda não estabelecida. A separação rígida, entretanto, mostrou-se difícil quando alternâncias fonológicas eram condicionadas por fronteiras ou categorias gramaticais.
Morfêmica e morfofonêmica[editar]
A morfêmica estruturalista procurava identificar as menores unidades significativas de uma língua, determinar suas variantes e descrever suas combinações.
O morfema era normalmente definido como a menor forma dotada de significado lexical ou função gramatical. Em livros, seria possível reconhecer o morfema lexical livro e o morfema de plural -s.
Alomorfia[editar]
Um morfema pode apresentar diferentes formas, denominadas alomorfes. As variantes podem ser condicionadas pelos sons vizinhos, pela estrutura gramatical ou pela identidade lexical da palavra.
A análise precisava demonstrar que as formas possuíam função relacionada e que suas distribuições eram previsíveis ou estruturalmente justificáveis.
Morfema zero[editar]
Alguns linguistas admitiram morfemas sem realização fonética, chamados morfemas zero. O recurso permitia representar posições de um paradigma nas quais determinada categoria se opunha a formas expressamente marcadas.
A análise por zero foi criticada quando utilizada indiscriminadamente. A ausência de som não constitui, por si só, um morfema; é necessário demonstrar sua participação em uma oposição gramatical sistemática.
Morfofonêmica[editar]
A morfofonêmica investigava as alternâncias sonoras associadas aos morfemas. O campo procurava explicar por que uma unidade gramatical assume formas fonológicas diferentes em contextos distintos.
Esses estudos prepararam problemas posteriormente retomados pela fonologia gerativa, embora os modelos de representação tenham mudado.
Análise de constituintes imediatos[editar]
A análise de constituintes imediatos descreve uma construção por meio de divisões hierárquicas sucessivas. Uma frase não é tratada apenas como sequência linear de palavras, mas como estrutura formada por grupos intermediários.
A noção possui antecedentes em Bloomfield e foi desenvolvida especialmente por Rulon S. Wells, Charles Hockett e outros pós-bloomfieldianos.
Considere-se:
A pesquisadora examinou os documentos antigos.
Uma primeira divisão pode separar:
[ A pesquisadora ] [ examinou os documentos antigos ]
O segundo grupo pode ser subdividido em:
[ examinou ] [ os documentos antigos ]
e o grupo nominal em:
[ os ] [ documentos antigos ]
A análise mostra que antigos se relaciona diretamente com documentos e que o conjunto os documentos antigos forma uma unidade em relação ao verbo.
Critérios de constituência[editar]
Entre os indícios utilizados para reconhecer constituintes estavam:
- substituição por formas simples;
- ocorrência do grupo em outras posições;
- possibilidade de coordenação;
- padrões de expansão;
- paralelismo com outras construções;
- entoação e pausas;
- capacidade de ocorrer como resposta.
Nenhum teste é inteiramente seguro. Diferentes critérios podem produzir resultados divergentes, especialmente em casos de descontinuidade ou ambiguidade.
Endocentrismo e exocentrismo[editar]
Bloomfield distinguia construções endocêntricas e exocêntricas.
Uma construção é endocêntrica quando o conjunto possui distribuição semelhante à de um de seus constituintes. Em documentos antigos, o grupo completo pode aparecer em muitos ambientes nos quais ocorre documentos.
Uma construção é exocêntrica quando o conjunto não pertence à mesma classe distribucional de nenhum de seus componentes. Algumas análises bloomfieldianas tratavam a combinação entre sujeito e predicado como exocêntrica.
Importância e limites[editar]
A análise de constituintes estabeleceu que a sintaxe precisa representar hierarquia. Essa contribuição foi incorporada por teorias posteriores, inclusive pela gramática gerativa.
A técnica apresentava dificuldades diante de:
- dependências de longa distância;
- constituintes descontínuos;
- relações entre voz ativa e passiva;
- interrogativas;
- orações relativas;
- elipse;
- correspondências entre construções diferentes.
Esses problemas contribuíram para o desenvolvimento de análises transformacionais.
Distribucionalismo[editar]
O distribucionalismo procurava identificar unidades e classes linguísticas com base nos ambientes em que as formas ocorrem. A distribuição de uma unidade corresponde ao conjunto de posições e construções em que ela pode aparecer.
Formas capazes de ocupar os mesmos ambientes podem ser agrupadas em uma classe distribucional. Formas que ocorrem em ambientes mutuamente exclusivos podem ser interpretadas como variantes, desde que outros critérios também sustentem a análise.
Embora seus antecedentes estejam presentes em Bloomfield e em outros pesquisadores, a formulação mais sistemática do método foi realizada por Zellig Harris em Methods in Structural Linguistics, publicado em 1951.
O distribucionalismo foi uma vertente central do estruturalismo americano, mas não seu equivalente. A linguística antropológica de Boas e Sapir, a tagmêmica e outros programas não podem ser reduzidos aos procedimentos distribucionais.
Zellig Harris[editar]
Zellig Harris (1909–1992) levou a análise formal e distribucional a um elevado grau de sistematização. Sua produção abrangeu fonologia, morfologia, sintaxe, transformações, discurso, sublinguagens, linguagem científica e métodos matemáticos.
Methods in Structural Linguistics[editar]
Publicado em 1951, Methods in Structural Linguistics apresenta procedimentos para organizar os elementos de um corpus segundo relações de ocorrência.
O livro descreve operações de:
- segmentação;
- identificação de recorrências;
- comparação de ambientes;
- agrupamento de variantes;
- construção de classes;
- análise de sequências;
- expansão de formas.
A obra foi frequentemente interpretada como tentativa de criar um algoritmo automático de descoberta. Essa leitura precisa ser qualificada. Harris afirmava que os procedimentos também serviam para verificar e apresentar análises, e não necessariamente como cronograma rígido que todo pesquisador deveria seguir desde a coleta inicial dos dados.
Distribuição e equivalência[editar]
Para Harris, a investigação linguística concentra-se nas relações entre os elementos presentes nos enunciados. Duas formas podem ser consideradas equivalentes relativamente a determinado conjunto de ambientes quando ocupam posições comparáveis.
A equivalência não precisa ser absoluta. Elementos podem compartilhar parte de sua distribuição e diferir em contextos específicos. A descrição procura estabelecer classes úteis para representar essas regularidades e restrições.
Expansões[editar]
Harris examinou como construções maiores podem ser relacionadas a sequências menores por meio de expansões.
Em:
A criança dormiu.
A criança cansada dormiu.
A criança muito cansada dormiu.
as sequências adicionais ampliam um constituinte sem alterar completamente sua posição na construção. O conceito permite relacionar sentenças de diferentes extensões e identificar padrões de composição.
Transformações[editar]
A partir da década de 1950, Harris desenvolveu a noção de transformação para descrever correspondências sistemáticas entre conjuntos de sentenças.
Frases ativas e passivas, por exemplo, podem conter itens lexicais relacionados e apresentar regularidades de ordem e morfologia:
A pesquisadora examinou o documento.
O documento foi examinado pela pesquisadora.
As transformações harrisianas foram inicialmente formuladas como relações entre classes de sentenças, não como operações mentais que convertessem uma representação profunda em uma frase superficial.
A proposta exerceu influência sobre Noam Chomsky, aluno de Harris. Chomsky reinterpretou as transformações no interior de uma gramática gerativa destinada a caracterizar o conhecimento linguístico do falante.
Análise do discurso[editar]
No artigo “Discourse Analysis”, publicado em 1952, Harris procurou estender a análise formal para além da frase. Investigou a distribuição de formas em sequências textuais e sua relação com situações recorrentes.
Sua análise do discurso difere das abordagens sociopolíticas, enunciativas e interacionais posteriormente associadas à mesma expressão. O objetivo de Harris era identificar regularidades formais em unidades textuais mais extensas.
Sublinguagens[editar]
Nos trabalhos posteriores, Harris investigou sublinguagens empregadas em domínios científicos e técnicos. Uma sublinguagem apresenta vocabulário especializado e restrições combinatórias próprias.
O estudo de textos científicos buscava mostrar como determinadas estruturas linguísticas correspondem à organização da informação de um campo. Esse programa influenciou pesquisas em linguística computacional e extração de informação.
Charles C. Fries e a descrição do inglês[editar]
Charles C. Fries (1887–1967) aplicou critérios estruturais ao estudo do inglês e ao ensino de línguas.
Em The Structure of English, publicado em 1952, procurou estabelecer classes de palavras por meio das posições que elas ocupavam em molduras sintáticas. Em vez de partir de definições nocionais como “substantivo é a palavra que nomeia um ser”, Fries examinava quais formas podiam ocorrer depois de determinados artigos, antes de verbos ou em posições predicativas.
O método revelava que as classes tradicionais reuniam elementos com comportamentos diferentes e que formas semanticamente distintas podiam compartilhar propriedades gramaticais.
Fries também contribuiu para a linguística aplicada e para o desenvolvimento de métodos de ensino de línguas estrangeiras. A comparação entre a língua materna e a língua-alvo foi utilizada para identificar áreas prováveis de dificuldade.
A análise contrastiva posterior ampliou essa proposta, embora versões rígidas segundo as quais todos os erros seriam previsíveis pelas diferenças entre línguas tenham sido criticadas pela pesquisa sobre aquisição.
Kenneth Pike e a tagmêmica[editar]
Kenneth Lee Pike (1912–2000) desenvolveu uma orientação própria dentro da linguística norte-americana. Sua trajetória esteve ligada ao trabalho de campo, à fonética, à análise de línguas pouco documentadas e ao Summer Institute of Linguistics.
Fonêmica e fonética[editar]
Pike distinguiu perspectivas éticas e êmicas. A perspectiva ética utiliza categorias comparativas formuladas pelo observador; a perspectiva êmica investiga unidades funcionalmente relevantes dentro de um sistema particular.
Os termos foram construídos por analogia com phonetics e phonemics. Posteriormente, a oposição foi adotada pela antropologia e por outras ciências humanas, embora nem sempre com o sentido técnico original.
Tagmema[editar]
A tagmêmica foi desenvolvida como modelo de análise gramatical no qual uma unidade é definida pela relação entre uma posição estrutural e a classe de elementos capazes de preenchê-la.
Em uma oração, por exemplo, a posição de sujeito pode ser ocupada por diferentes tipos de grupos nominais. O tagmema relaciona essa função ao conjunto de formas que podem realizá-la.
A abordagem procurava integrar:
- posição;
- função;
- classe de preenchimento;
- nível hierárquico;
- contexto.
Diferentemente de versões mais formalistas do distribucionalismo, Pike atribuía importância explícita ao significado, à função e ao comportamento comunicativo.
Linguagem e comportamento humano[editar]
Pike concebia a linguagem como parte de uma teoria mais ampla do comportamento humano. Sua análise incluía unidades, variantes e distribuições, mas também hierarquias e contextos culturais.
A tagmêmica alcançou influência especialmente na descrição de línguas e no treinamento de pesquisadores de campo. Perdeu espaço institucional com a expansão da gramática gerativa, mas continuou presente em trabalhos descritivos e missionários.
Trabalho de campo e descrição linguística[editar]
O estruturalismo americano estabeleceu procedimentos de trabalho de campo que influenciaram gerações de linguistas.
A pesquisa geralmente envolvia:
- identificação de falantes e colaboradores;
- registro de palavras e enunciados;
- transcrição fonética;
- repetição e comparação de formas;
- coleta de paradigmas;
- tradução;
- elicitação de construções;
- registro de narrativas;
- elaboração de gramáticas e dicionários.
O termo informante foi amplamente usado para designar o falante que fornecia dados linguísticos. Na pesquisa contemporânea, expressões como consultor linguístico, colaborador ou especialista da comunidade são frequentemente preferidas, pois reconhecem a participação intelectual do falante.
Elicitação[editar]
A elicitação consiste na produção orientada de dados. O pesquisador pode solicitar traduções, perguntar como determinada situação seria expressa, testar substituições ou verificar se duas formas possuem interpretações diferentes.
Os dados elicitados permitem investigar construções raras ou ausentes de um corpus espontâneo. Ao mesmo tempo, podem sofrer influência da língua utilizada na entrevista, das expectativas do pesquisador e da artificialidade da situação.
Por isso, descrições abrangentes combinam elicitação, observação, gravação de interações e análise de textos.
Textos e narrativas[editar]
Boas, Sapir e outros pesquisadores atribuíram grande importância à coleta de narrativas. Os textos permitiam registrar vocabulário, morfologia, sintaxe e práticas culturais em contextos mais amplos do que listas de palavras.
Muitas coleções, contudo, foram publicadas sem reconhecimento suficiente dos narradores, tradutores e intérpretes. A pesquisa atual procura recuperar sua autoria e devolver materiais às comunidades.
Salvaguarda e revitalização[editar]
O antigo ideal de “salvar” uma língua por meio de sua documentação é hoje criticado quando sugere que o pesquisador externo é o único agente capaz de preservá-la. Uma língua continua viva por meio de seus falantes e das condições sociais que permitem sua transmissão.
Registros estruturalistas podem ser utilizados em programas de ensino e revitalização, mas sua utilidade depende da qualidade dos materiais, da acessibilidade e da colaboração com as comunidades.
Estruturalismo americano e estruturalismo europeu[editar]
O estruturalismo norte-americano desenvolveu-se quase contemporaneamente a correntes europeias, mas não foi simples aplicação das ideias de Ferdinand de Saussure.
Saussure[editar]
Bloomfield conhecia a obra de Saussure e publicou uma resenha favorável do Curso de Linguística Geral. Ambas as tradições compartilhavam o interesse pela língua como organização de relações.
As diferenças, entretanto, são importantes. O estruturalismo norte-americano foi profundamente marcado pelo trabalho de campo, pela antropologia, pela tradição neogramática e pela busca de procedimentos descritivos. A oposição saussuriana entre langue e parole não organizou de maneira uniforme os programas americanos.
Escola de Praga[editar]
O Círculo Linguístico de Praga desenvolveu uma concepção estrutural e funcional. Seus pesquisadores investigaram oposições fonológicas, funções comunicativas, língua literária, sintaxe, poética e estética.
Os fonólogos de Praga, especialmente Nikolai Trubetzkoy e Roman Jakobson, concebiam o fonema por sua posição em um sistema de oposições. Os fonemicistas norte-americanos concentravam-se frequentemente nos procedimentos de identificação de contrastes e variantes em corpora.
A diferença não deve ser exagerada. Houve circulação de conceitos, contatos pessoais e problemas comuns. Jakobson estabeleceu-se nos Estados Unidos e influenciou a fonologia e a teoria dos traços distintivos.
Glossemática[editar]
A glossemática de Louis Hjelmslev procurava construir uma teoria altamente abstrata da linguagem. Seu formalismo partia de distinções entre expressão e conteúdo e buscava definir relações internas com grande generalidade.
Os estruturalistas norte-americanos também valorizavam a forma, mas seu programa típico era mais diretamente vinculado à descrição de línguas particulares e aos dados de campo.
Escola de Londres[editar]
A tradição britânica associada a J. R. Firth compartilhava o interesse por distribuição e contexto, mas atribuía maior importância à situação comunicativa, à colocação lexical e à análise prosódica.
Firth e Harris são frequentemente mencionados como antecedentes da semântica distribucional contemporânea, embora suas teorias do contexto e do significado fossem diferentes.
Relativismo linguístico dentro da tradição americana[editar]
O relativismo linguístico foi um desenvolvimento importante da tradição boasiana e sapiriana, mas não constitui o princípio definidor de todo o estruturalismo americano.
Bloomfield e muitos pós-bloomfieldianos não organizaram seus programas em torno da relação entre língua e pensamento. Harris procurou descrever as relações formais entre elementos. Pike desenvolveu uma teoria do comportamento comunicativo, mas não adotou necessariamente as formulações atribuídas a Whorf.
O tema deve, portanto, aparecer como uma vertente entre outras. Questões como terminologia de cores, vocabulário relacionado à neve, orientação espacial, gênero gramatical e representação do tempo pertencem a um artigo específico sobre relatividade linguística e não precisam dominar a história do estruturalismo norte-americano.
A transição para a gramática gerativa[editar]
A gramática gerativa surgiu no interior do ambiente acadêmico formado pelo estruturalismo americano, mas modificou seus objetivos teóricos.
Noam Chomsky estudou com Zellig Harris na Universidade da Pensilvânia. Seus primeiros trabalhos relacionavam-se à morfofonêmica, à análise formal e às transformações.
Continuidade[editar]
Entre as continuidades encontram-se:
- interesse pela descrição explícita;
- representação formal;
- análise de constituintes;
- investigação das relações entre sentenças;
- busca de generalizações;
- autonomia relativa da sintaxe.
A própria noção de transformação possuía antecedentes diretos em Harris. A gramática gerativa, entretanto, atribuiu-lhe nova função dentro de um sistema destinado a gerar as sentenças de uma língua.
Mudança de objeto[editar]
Para parte da tradição pós-bloomfieldiana, o objetivo principal era construir uma descrição controlável dos dados linguísticos. A gramática gerativa passou a definir como objeto central o conhecimento que permite aos falantes produzir e compreender sentenças.
Uma língua não seria simplesmente o corpus de enunciados registrados. O corpus fornece evidências parciais de uma capacidade que permite criar um número potencialmente ilimitado de expressões.
Chomsky distinguiu competência, o conhecimento linguístico do falante-ouvinte idealizado, e desempenho, o uso efetivo sujeito a limitações de memória, atenção e contexto.
Crítica aos procedimentos de descoberta[editar]
Chomsky argumentou que uma teoria científica não precisa fornecer um algoritmo mecânico para descobrir a gramática diretamente dos dados. O pesquisador formula hipóteses e compara análises possíveis.
Em lugar de procedimentos de descoberta, a teoria deveria estabelecer:
- o formato das gramáticas;
- os tipos de regras permitidos;
- os critérios de avaliação;
- as representações estruturais possíveis.
A crítica foi frequentemente dirigida ao estruturalismo americano como um todo. A historiografia posterior observou, contudo, que nem Harris nem todos os pós-bloomfieldianos afirmavam possuir um algoritmo automático e completo.
Gramaticalidade e corpus[editar]
Uma sentença pode ser gramatical sem ocorrer no corpus disponível. A ausência pode resultar de raridade, tamanho da amostra ou circunstâncias discursivas.
Inversamente, corpora de fala contêm hesitações, interrupções e construções incompletas. A simples ocorrência não determina que uma sequência pertença à gramática idealizada.
A crítica gerativista ressaltou a diferença entre frequência e gramaticalidade, embora estudos contemporâneos mostrem que frequência, probabilidade e gradação também desempenham papel importante no conhecimento e no processamento linguísticos.
Criatividade[editar]
Os falantes compreendem e produzem expressões nunca ouvidas. Para o gerativismo, essa criatividade exige um sistema finito de princípios e regras capaz de gerar conjuntos potencialmente ilimitados de estruturas.
O distribucionalismo poderia descrever regularidades e restrições dos dados, mas, segundo a crítica gerativista, não explicaria por si só a produtividade da competência humana.
A força dessa objeção depende dos objetivos atribuídos às teorias. Uma descrição distribucional pode ser útil sem pretender constituir modelo psicológico da linguagem.
Estruturalismo americano e ensino de línguas[editar]
O estruturalismo influenciou profundamente o ensino de línguas estrangeiras durante meados do século XX.
A descrição sistemática dos sons e das construções fornecia materiais para a elaboração de cursos. A aproximação com teorias behavioristas da aprendizagem favoreceu métodos baseados em repetição, imitação, memorização de padrões e correção imediata.
Método audiolingual[editar]
O método audiolingual enfatizava a língua falada e a formação de hábitos. Os estudantes ouviam diálogos, repetiam estruturas e realizavam exercícios de substituição e transformação.
A gramática era frequentemente apresentada por meio de padrões, e não de explicações metalinguísticas extensas. A pronúncia recebia atenção desde os níveis iniciais.
O método não deriva exclusivamente da linguística estrutural. Sua formação envolveu programas militares, psicologia behaviorista, tecnologias de gravação e necessidades institucionais de ensino rápido.
Análise contrastiva[editar]
A análise contrastiva comparava a estrutura da língua materna com a da língua-alvo. Diferenças entre os sistemas eram consideradas fontes prováveis de dificuldade e interferência.
Versões fortes, segundo as quais seria possível prever todos os erros por comparação estrutural, não se confirmaram. Aprendizes também produzem erros de desenvolvimento que não derivam diretamente da primeira língua.
Apesar disso, a comparação continua útil para identificar contrastes fonológicos, morfológicos e sintáticos relevantes.
Influência sobre a linguística brasileira[editar]
O estruturalismo americano teve repercussão importante no desenvolvimento da linguística no Brasil, especialmente entre as décadas de 1940 e 1970.
Joaquim Mattoso Câmara Júnior manteve contato com diferentes tradições estruturais, entre elas a Escola de Praga e a linguística norte-americana. Sua obra sobre a fonologia e a morfologia do português brasileiro combinou conceitos de diferentes origens e foi decisiva para a institucionalização da linguística no país.
A tradição descritiva norte-americana também influenciou pesquisas sobre línguas indígenas brasileiras, programas de documentação e formação de linguistas de campo.
A presença do Summer Institute of Linguistics no Brasil teve impacto na produção de descrições, traduções e materiais sobre línguas indígenas. Essa atuação é objeto de avaliações divergentes, devido à associação entre pesquisa linguística, missão religiosa e políticas indigenistas.
Com a expansão dos programas de pós-graduação, a partir da segunda metade do século XX, a gramática gerativa, a sociolinguística, o funcionalismo e outras correntes passaram a disputar espaço com os modelos estruturais. Técnicas de segmentação, análise fonêmica e descrição morfológica, entretanto, permaneceram incorporadas à formação linguística.
Contribuições permanentes[editar]
A importância do estruturalismo americano não se limita ao período em que constituiu orientação dominante.
Descrição de línguas[editar]
A tradição produziu gramáticas, dicionários e coleções textuais de numerosas línguas. Embora alguns materiais precisem ser revistos, eles continuam fundamentais para pesquisa histórica, comparação e revitalização.
Autonomia das categorias[editar]
Boas e seus continuadores consolidaram a ideia de que uma língua deve ser descrita a partir das distinções que efetivamente apresenta. Categorias herdadas da gramática clássica precisam ser tratadas como hipóteses, não como moldes universais.
Fonologia e morfologia[editar]
A distinção entre fonemas e alofones, o emprego de pares mínimos, a análise de distribuição complementar, a identificação de morfemas e alomorfes e o estudo de alternâncias tornaram-se partes da prática linguística geral.
Hierarquia sintática[editar]
A análise de constituintes demonstrou que sentenças não são simples cadeias de palavras. Seus elementos formam grupos e níveis hierárquicos.
Explicitação metodológica[editar]
Os estruturalistas procuraram justificar suas análises por critérios observáveis. Mesmo quando suas soluções são rejeitadas, a exigência de explicitude permanece fundamental.
Trabalho de campo[editar]
As técnicas de elicitação, transcrição e construção de corpora tiveram grande impacto sobre a linguística descritiva contemporânea.
Formalização[editar]
Os trabalhos de Harris contribuíram para aproximar linguística, matemática e computação. As relações entre distribuição, transformação, discurso e sublinguagens anteciparam problemas retomados por outras áreas.
Limitações e críticas[editar]
Restrição da semântica[editar]
A tentativa de reduzir o uso do significado permitiu tornar certos procedimentos mais controláveis, mas dificultou a análise de fenômenos em que forma, interpretação e contexto são inseparáveis.
Homonímia, polissemia, sinonímia e relações argumentais não podem ser plenamente descritas apenas pela distribuição superficial.
Corpus finito[editar]
Um corpus contém amostra limitada dos usos possíveis. A ausência de uma construção não demonstra impossibilidade, e sua ocorrência não determina automaticamente seu estatuto estrutural.
Separação rígida dos níveis[editar]
A análise sucessiva da fonêmica, morfêmica e sintaxe pretendia evitar circularidade, mas muitos fenômenos atravessam os níveis. Processos fonológicos podem depender da morfologia, e a segmentação morfológica pode exigir informações sintáticas e semânticas.
Homogeneidade do sistema[editar]
Muitas descrições privilegiavam uma variedade relativamente homogênea. A sociolinguística demonstrou que a variação é sistemática e pode depender de fatores sociais, estilísticos, regionais e interacionais.
Psicologia da linguagem[editar]
O antimentalismo restringiu a possibilidade de investigar representação, aquisição e processamento. A revolução cognitiva recolocou os processos mentais no centro das ciências humanas.
Isso não significa que toda descrição linguística precise ser teoria psicológica. A crítica mostra, porém, que uma ciência abrangente da linguagem não pode limitar-se às relações entre formas observadas.
Relações coloniais[editar]
A documentação de línguas indígenas ocorreu frequentemente sem participação igualitária das comunidades. Pesquisadores podiam controlar os registros, retirar materiais de seus contextos e apresentar como produção individual conhecimentos obtidos de numerosos colaboradores.
A crítica contemporânea enfatiza:
- autoria comunitária;
- consentimento;
- acesso aos arquivos;
- soberania sobre os dados;
- formação de pesquisadores indígenas;
- objetivos definidos pelas comunidades;
- relação entre documentação e revitalização.
Fortuna crítica[editar]
A narrativa da superação gerativista[editar]
Durante muito tempo, a história da linguística norte-americana foi narrada como passagem de um estruturalismo empirista e taxonômico para uma gramática gerativa explicativa e mentalista.
Essa narrativa contém elementos verdadeiros: o gerativismo modificou o objeto da teoria, criticou o corpus como limite da análise e desenvolveu novos modelos de sintaxe. Entretanto, a representação do estruturalismo como programa inteiramente mecânico e sem teoria simplifica sua diversidade.
“Estruturalismo taxonômico”[editar]
A expressão estruturalismo taxonômico foi utilizada para sugerir que os pós-bloomfieldianos apenas segmentavam e classificavam dados.
A crítica se aplica a certas tendências descritivas, mas não descreve toda a produção da época. Harris desenvolveu transformações e análise do discurso; Hockett discutiu modelos gramaticais e propriedades da comunicação; Pike integrou função e contexto; Sapir tratou de psicologia, cultura e mudança.
Continuidade entre Harris e Chomsky[editar]
A historiografia contemporânea destacou a relação entre os projetos de Harris e Chomsky. O gerativismo não surgiu fora da linguística estrutural norte-americana; desenvolveu-se em contato direto com seus problemas e instrumentos.
Ao mesmo tempo, não se deve reduzir Chomsky a continuador de Harris. A interpretação mentalista da gramática, a centralidade da competência e a busca de princípios universais alteraram profundamente o programa.
Reavaliação de Bloomfield[editar]
Bloomfield também foi reavaliado. A afirmação de que teria eliminado o significado ignora a presença da semântica em suas definições e a cautela metodológica que orientava sua posição.
Seu mecanicismo precisa ser distinguido de todas as formas posteriores de behaviorismo. Além disso, sua formação histórico-comparativa e seu trabalho descritivo mostram uma obra mais ampla do que a caricatura de um analista exclusivamente taxonômico.
Retorno dos dados distribucionais[editar]
A linguística de corpus, a semântica distribucional e a aprendizagem de máquina renovaram o interesse pelas regularidades de ocorrência.
Modelos contemporâneos diferem dos procedimentos pós-bloomfieldianos em escala, aparato estatístico e finalidade. Ainda assim, preservam a ideia de que a distribuição fornece informações importantes sobre categorias e relações.
Esse retorno demonstra que a crítica ao distribucionalismo como teoria completa não elimina o valor da distribuição como evidência.
Reavaliação da linguística antropológica[editar]
Boas e Sapir continuam reconhecidos por sua defesa da diversidade e pela rejeição das hierarquias evolucionistas. Ao mesmo tempo, a história da linguística antropológica passou a incluir as condições coloniais do trabalho de campo e o papel dos colaboradores indígenas.
A fortuna crítica atual procura evitar dois extremos: celebrar a documentação sem examinar suas relações de poder ou rejeitar integralmente materiais que podem possuir grande valor histórico e comunitário.
Avaliação geral[editar]
O estruturalismo americano foi decisivo para transformar a linguística dos Estados Unidos em disciplina autônoma, empiricamente orientada e metodologicamente explícita.
Sua história não pode ser reduzida a uma sequência simples que conduziria de Boas a Sapir, de Sapir a Bloomfield e de Bloomfield a Chomsky. Diferentes programas coexistiram, disputaram objetivos e produziram legados próprios.
A tradição antropológica enfatizou a diversidade das categorias e a relação entre linguagem e cultura. A orientação bloomfieldiana procurou construir uma ciência descritiva rigorosa. A fonêmica e a morfêmica desenvolveram técnicas de análise. A análise de constituintes introduziu representações hierárquicas. Harris ampliou a formalização para transformações e discurso. Pike propôs uma abordagem em que forma, função e comportamento se articulavam.
Muitas limitações posteriormente identificadas — restrição da semântica, corpus finito, separação dos níveis, pouca atenção à variação e antimentalismo — resultam tanto de escolhas teóricas quanto dos problemas históricos que os pesquisadores procuravam resolver.
Seu legado permanece na descrição de línguas, na fonologia, na morfologia, na sintaxe de constituintes, no trabalho de campo, na linguística de corpus e na computação linguística. Mesmo teorias que rejeitam seus pressupostos continuam utilizando contrastes, distribuições, segmentações e critérios de substituição desenvolvidos ou sistematizados por essa tradição.
Ver também[editar]
- Análise de constituintes imediatos
- Antropologia linguística
- Behaviorismo
- Benjamin Lee Whorf
- Distribucionalismo
- Edward Sapir
- Estruturalismo
- Fonema
- Fonologia
- Franz Boas
- Gramática gerativa
- Hipótese Sapir–Whorf
- Joaquim Mattoso Câmara Júnior
- Kenneth Pike
- Leonard Bloomfield
- Linguística de corpus
- Linguística descritiva
- Morfema
- Relativismo linguístico
- Tagmêmica
- Zellig Harris
Referências[editar]
Bibliografia[editar]
Fontes primárias[editar]
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