Estruturalismo
O Estruturalismo é um movimento intelectual e metodológico que emergiu no início do século XX, transformando profundamente as Ciências Humanas — com destaque para a Linguística, a Antropologia, a Crítica Literária, a Psicologia e a Sociologia. Em termos gerais, o estruturalismo define-se pela premissa de que os fenômenos humanos e sociais não podem ser compreendidos como elementos isolados ou substâncias autônomas; pelo contrário, eles só ganham sentido quando integrados em um sistema estruturado de relações mútuas.
Em uma estrutura, o todo é maior e logicamente anterior às partes. Cada componente de um sistema é definido não por suas propriedades intrínsecas ou físicas, mas pela posição relativa que ocupa e pelas oposições que estabelece com os demais componentes. Na virada do século XIX para o XX, essa abordagem representou uma ruptura radical com o atomismo, o positivismo e o historicismo predominantes, que buscavam explicar os fatos isoladamente ou apenas por sua evolução cronológica (linear). Ao focar nas redes subterrâneas de regras e convenções inconscientes que governam as práticas humanas, o estruturalismo fundou as bases da metodologia científica moderna no campo das humanidades.
Ferdinand de Saussure e o Curso de Linguística Geral[editar]
Ferdinand de Saussure (1857-1913), linguista suíço nascido em Genebra, é universalmente considerado o fundador da linguística moderna e o "pai" do estruturalismo linguístico. Antes de suas formulações, o estudo da linguagem estava fragmentado entre a filologia (focada na interpretação e crítica de textos antigos) e a gramática comparada ou neogramática (focada na reconstrução histórica e na evolução das famílias de línguas). Saussure opera uma "revolução copernicana" ao propor que a linguagem pode e deve ser estudada em si mesma e por si mesma, sob uma perspectiva sistemática e rigorosa.
Paradoxalmente, Saussure não deixou nenhuma obra sistemática escrita por ele próprio sobre a teoria linguística geral que o consagrou. O Curso de Linguística Geral (no original em francês, Cours de linguistique générale) foi publicado postumamente, em 1916, por seus discípulos e colegas Charles Bally e Albert Sechehaye. Para essa reconstrução, os organizadores valeram-se de anotações manuscritas detalhadas tiradas por alunos (como Albert Riedlinger e Georges Dégallier) que assistiram aos três cursos de Linguística Geral lecionados por Saussure na Universidade de Genebra entre os anos de 1907 e 1911.
Este caráter de reconstrução editorial é de suma importância filológica: o texto que moldou o estruturalismo do século XX é uma compilação interpretativa, uma colagem textual realizada por terceiros, e não um manuscrito polido pelo próprio autor. Ao longo das décadas seguintes, essa condição gerou calorosos debates acadêmicos sobre o grau de fidelidade das ideias publicadas em relação ao pensamento real de Saussure. O panorama mudou significativamente a partir da segunda metade do século XX, com a descoberta de manuscritos autógrafos originais de Saussure (encontrados inclusive na estufa de sua família), publicados posteriormente em edições críticas detalhadas, como a realizada por Rudolf Engler, e reunidos no volume Escritos de Linguística Geral (2002). Essas fontes primárias revelaram um pensador muito mais nuançado, dinâmico e por vezes hesitante do que o dogmatismo sistemático apresentado no livro de 1916.
A célebre passagem do Curso ilustra o problema epistemológico fundador que Saussure buscava resolver para conferir estatuto científico à disciplina:
"Tomada em seu todo, a linguagem é multiforme e heteróclita; a cavaleiro de diferentes domínios, ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica, ela pertence além disso ao domínio individual e ao domínio social; não se deixa classificar em nenhuma categoria dos fatos humanos, pois não se sabe como inferir sua unidade" (SAUSSURE, [1916] 2006, p. 17).
A linguagem (langage), portanto, apresenta-se como um emaranhado caótico onde se cruzam a biologia (aparelho fonador), a física (ondas sonoras), a psicologia (processos mentais) e a sociologia (interação comunitária). Por ser excessivamente heterogênea, ela não se presta a constituir, diretamente, o objeto de estudo unificado de uma ciência autônoma, pois cada uma de suas facetas poderia ser reivindicada por outra disciplina já existente. Para resolver esse impasse, Saussure propõe um corte metodológico crucial: separar a linguagem em duas subinstâncias, elegendo a língua (langue) como o objeto de estudo legítimo, delimitado e homogêneo da Linguística.
A dicotomia língua/fala (langue/parole)[editar]
Para extrair uma unidade homogênea de um fenômeno originalmente heteróclito, Saussure propõe a sua dicotomia metodológica mais famosa, cindindo a linguagem em dois planos radicalmente distintos, porém correlacionados: a língua (langue) e a fala (parole).
A tabela abaixo detalha as propriedades contrastantes e as interações dessas duas dimensões através de suas diferentes faces analíticas:
| Face Analítica | Língua (langue) | Fala (parole) |
|---|---|---|
| Articulatória / Acústica | Acústica (focada no sistema abstrato de sons distintivos e imagens mentais). | Articulatória (focada na execução concreta, fonética e muscular do som físico). |
| Fisiológica / Mental | Mental (puramente psíquica, sediada na memória e no intelecto). | Fisiológica e Mecânica (envolve o processamento nervoso e a execução motora dos órgãos fonadores). |
| Individual / Social | Social (pertence à coletividade; patrimônio partilhado pelo grupo). | Individual (ato de vontade e inteligência do falante em um momento específico). |
| Dinâmica / Estática | Estática (sistema sincrônico virtualmente fixo num dado momento temporal). | Dinâmica (ato concreto, histórico, mutável e irrepetível no tempo). |
A língua é rigorosamente definida por Saussure nos seguintes termos:
"Ela é a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-la nem modificá-la; ela não existe senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade" (SAUSSURE, [1916] 2006, p. 22).
A língua é, por conseguinte, um produto social, um tesouro depositado pela prática da fala nos indivíduos de uma mesma comunidade, um sistema gramatical que existe virtualmente no cérebro de cada um ou, mais exatamente, no cérebro do conjunto de indivíduos. O sujeito passivo a armazena e não pode alterá-la por decreto pessoal.
Em contraposição absoluta, a fala é o ato individual de utilização da língua. Ela é executada por meio da vontade consciente do falante, englobando duas subcomponentes: as combinações sintáticas pelas quais o sujeito exprime seu pensamento e os mecanismos psicofísicos (fonação) que lhe permitem exteriorizar essas combinações. Enquanto a língua é homogênea (um sistema de signos psíquicos), a fala é essencialmente heterogênea, multifacetada e sujeita às contingências do momento enuncitivo.
A metáfora do jogo de xadrez e outras metaforizações[editar]
Para fins didáticos e com o intuito de sedimentar o caráter abstrato e relacional de suas dicotomias, Saussure e seus comentadores recorreram a célebres analogias ilustrativas:
- A moeda: A relação entre o som (plano da expressão) e o sentido (plano do conteúdo) na língua assemelha-se a uma moeda corrente. Uma moeda possui duas faces indissociáveis (cara e coroa). Não se pode conceber o valor econômico da moeda olhando apenas para uma de suas faces, da mesma forma que não há como separar o valor linguístico de sua contraparte material e conceitual. Ambas operam em uma relação de reciprocidade e dependência.
- O papel que se dobra: Saussure afirma que a língua é como uma folha de papel. O pensamento é a frente e o som é o verso. Não se pode cortar a frente da folha sem cortar simultaneamente o verso. Da mesma forma, na língua, não se pode isolar o som do pensamento, nem o pensamento do som. Eles são o resultado de uma articulação simultânea: a matéria fônica se subdivide em unidades distintas no exato momento em que o pensamento amorfo se corporifica através delas.
- O jogo de xadrez: Esta é a mais central e analítica das metáforas saussurianas. Ela elucida três pontos fundamentais:
- O estado do tabuleiro em um dado momento corresponde à perspectiva sincrônica da língua. Para um espectador que chega no meio de uma partida, basta observar a posição atual das peças para compreender perfeitamente as forças em jogo e a dinâmica do jogo; não importa saber quais jogadas históricas (perspectiva diacrônica) foram feitas duas horas antes.
- O valor de cada peça (o cavalo, a torre, o peão) não reside na matéria de que é feita (seja marfim de luxo, madeira rústica ou plástico barato), mas sim nas regras abstratas que determinam seus movimentos e nas posições que ocupa em oposição às outras peças no tabuleiro.
- A substituição de uma peça física por um objeto qualquer (um botão substituindo um peão perdido) mantém o jogo perfeitamente inalterado, desde que a comunidade de jogadores reconheça o valor sistêmico daquele botão como peão.
O signo linguístico[editar]
A língua não é uma nomenclatura, isto é, uma lista de termos que correspondem a uma lista de coisas no mundo real. Conceber a língua como nomenclatura pressupõe que as ideias e os objetos preexistem às palavras, bastando colar etiquetas sobre as coisas. Contrapondo-se a essa visão ingênua, Saussure assevera que a língua "constitui-se num sistema de signos" (SAUSSURE, [1916] 2006, p. 23). O signo linguístico é concebido como uma entidade psíquica de duas faces indissociáveis, unindo não uma coisa e um nome, mas um conceito e uma imagem acústica.
No texto original, essa correlação é representada graficamente por um círculo dividido horizontalmente:
+-----------------------+ | CONCEITO | <- Significado (Ex: a ideia mental de "árvore") +-----------------------+ | IMAGEM ACÚSTICA | <- Significante (Ex: a pegada psíquica dos sons /a/r/v/o/r/e/) +-----------------------+
As duas setas laterais que frequentemente circundam esse esquema na tradição estruturalista denotam a íntima união e a mútua implicação das duas faces:
- O significante constitui a face perceptível do signo. Ele não é o som puramente físico ou a onda acústica que vibra no ar (objeto de estudo da física ou da fonética acústica), mas sim a imagem acústica, que é a representação psíquica do som na mente do falante. É a "impressão mental" desse som, arquivada na memória gramatical da comunidade.
- O significado constitui a face inteligível do signo. Ele não é o objeto empírico e biológico "árvore" (a planta real com raízes e folhas enraizada na terra), mas sim o conceito, a representação mental abstrata e categorial que a língua constrói para designar essa classe de seres.
É absolutamente crucial frisar a natureza psicológica e mental do signo saussuriano. Tanto o significante quanto o significado habitam o mesmo território psíquico do cérebro humano. A confusão comum cometida por leitores iniciantes consiste em projetar o referencial (o mundo real exterior) para dentro do signo, reduzindo o significante à palavra falada física e o significado à coisa material concreta. Para Saussure, a língua opera em um nível de abstração puramente formal e ideal, independente da realidade tangível exterior aos sujeitos.
Propriedades do signo linguístico[editar]
O signo linguístico é regido por duas propriedades fundamentais e inalienáveis que determinam seu funcionamento no sistema da língua: a arbitrariedade e a linearidade.
Arbitrariedade[editar]
"O laço que une o significante ao significado é arbitrário" (SAUSSURE, [1916] 2006, p. 81-82).
A arbitrariedade do signo significa que o vínculo que une uma determinada imagem acústica a um determinado conceito é radicalmente imotivado. Não existe nenhuma razão natural, lógica, intrínseca ou biológica para que o conceito de "árvore" seja representado no português pela sequência fonológica /á/r/v/o/r/e/. Prova inequívoca disso é a própria diversidade idiomática do planeta: o mesmo conceito é evocado por significantes completamente distintos em diferentes sistemas linguísticos, tais como tree (inglês), Baum (alemão), arbre (francês), дерево /derevo/ (russo), δέντρο /déntro/ (grego), شجرة /shajara/ (árabe), 木 /ki/ (japonês) ou 나무 /namu/ (coreano). Nenhuma dessas combinações é intrinsecamente superior ou mais "verdadeira" que a outra; cada língua fatia a realidade e associa som e sentido de forma autônoma.
No entanto, é imperativo que os estudantes de Letras não confundam o termo "arbitrário" com a ideia de escolha livre, caprichosa ou caótica por parte do indivíduo. Arbitrário significa convencional: o signo é imotivado em sua origem em relação ao conceito, mas é rigidamente imposto pela coletividade histórica ao falante. O falante não possui o poder de alterar deliberadamente um signo uma vez estabelecido pelo pacto social da comunidade linguística.
Ademais, convém delimitar nitidamente a arbitrariedade em relação a dois fenômenos que aparentam contradizê-la:
- As Onomatopeias: Argumenta-se por vezes que palavras como "cacarejar", "tique-taque" ou "zunir" seriam signos motivados, que imitam os sons da natureza. Saussure demonstra que as onomatopeias nunca são elementos orgânicos majoritários de um sistema linguístico e que, mesmo nelas, a imitação é parcial, aproximada e severamente filtrada pelo sistema fonológico de cada idioma. O latido de um cão, por exemplo, é convencionalizado como "au au" em português, "woof woof" em inglês, "wan wan" em japonês, "guau guau" em espanhol e "ouaf ouaf" em francês. A iconicidade sonora capitula, portanto, diante da convenção social da língua.
- A Liberdade Individual e a Imutabilidade: Como o signo é arbitrário, a sociedade não possui uma base racional ou lógica para alterá-lo. Não há debate lógico possível para preferir a palavra "cadeira" à palavra "silla". Por consequência, por estar amarrada à tradição e ao uso coletivo, a língua apresenta uma imutabilidade relativa: o indivíduo recebe a língua como uma herança histórica imutável à qual ele deve se submeter para ser compreendido.
Linearidade[editar]
"O significante, porque se desenvolve no tempo, é linear."
Diferentemente dos signos visuais (como as cores de um semáforo, placas de trânsito ou pinturas, que se espalham espacialmente em múltiplas dimensões simultâneas), o significante linguístico é de natureza essencialmente auditiva e temporal. Ele se desenvolve necessariamente ao longo de uma linha de tempo unidimensional. Os fonemas e as palavras não podem ser emitidos simultaneamente, empilhados uns sobre os outros; eles precisam ser proferidos sucessivamente, um após o outro, formando uma cadeia contínua.
Essa propriedade, aparentemente simples, engendra consequências profundas: ela obriga a língua a organizar-se por meio de regras de ordenação, sucessão e posicionamento. É a linearidade que torna mandatória a existência da sintaxe e que fundamenta o conceito saussuriano de sintagma, visto que os elementos precisam se dispor consecutivamente na linha de enunciação.
Dois tipos de relação: sintagmática e paradigmática[editar]
A atividade linguística e o arranjo dos signos no interior do sistema operam ao longo de dois eixos e modos de associação complementares e irredutíveis.
Relação sintagmática (in praesentia)[editar]
Trata-se do eixo das sucessividades e das combinações. A relação sintagmática ocorre in praesentia (na presença), pois vincula elementos que estão concretamente co-presentes na cadeia da fala, dispostos consecutivamente uns em relação aos outros, em virtude do princípio da linearidade. O valor de cada termo resulta da sua oposição com o que o precede e/ou com o que o sucede na linha temporal.
É um erro crasso supor que o sintagma se restringe exclusivamente ao nível macro estrutural da frase ou da oração. A noção saussuriana de sintagma é fractal e espelha-se em todos os níveis estruturais da análise linguística:
- Nível Fonológico: A combinação sucessiva dos fonemas /l/ + /u/ + /a/ para constituir o sintagma fonético da palavra "lua".
- Nível Morfológico: A combinação linear de morfemas, como o radical "infeliz" + o sufixo "mente" para formar o sintagma derivacional "infelizmente".
- Nível Sintático (Frase): A articulação em cadeia de termos como [Artigo] + [Substantivo] + [Verbo] + [Adjetivo] na frase estruturada "A lua é bela".
Relação paradigmática (in absentia)[editar]
Trata-se do eixo das simultaneidades, das seleções e das substituições. A relação paradigmática ocorre in absentia (na ausência), unindo termos que compartilham alguma propriedade comum na memória virtual do falante, mas que se excluem mutuamente em uma posição específica da cadeia da fala. Quando um falante seleciona uma determinada palavra para figurar em uma frase, ele descarta tacitamente todo um conjunto de outras palavras que poderiam ter ocupado aquele mesmíssimo lugar.
No Curso de Linguística Geral de 1916, Saussure utilizava originalmente a designação relações associativas. O termo "paradigmático" foi consagrado e introduzido de forma definitiva na história da linguística pelos trabalhos posteriores de Louis Hjelmslev e do Círculo Linguístico de Copenhague, além da tradição funcionalista europeia. A mudança terminológica acentuou o caráter formal de um paradigma (uma planilha ou arquivo mental de formas que pertencem à mesma categoria e que realizam comutação entre si).
Aplicação às relações entre os signos do português[editar]
Para mapear e consolidar esses dois eixos estruturais na Língua Portuguesa, observemos o seguinte esquema matricial de funcionamento gramatical:
EIXO PARADIGMÁTICO (Seleção / In absentia)
|
| [Aquela] [estrela] [parece] [distante]
| [Esta] [rua] [está] [deserta]
v [A] [LUA]------[É]---------[BELA] <-- EIXO SINTAGMÁTICO (Combinação / In praesentia)
[O] [sol] [permanece][radiante]
| | |
v v v
(rua) (foi) (feia)
(nua) (será) (clara)
As restrições e possibilidades desses eixos no português manifestam-se da seguinte maneira:
Relações Sintagmáticas (O que possui autorização combinatória em sequência):
- No domínio fonotático, o português autoriza a sequência sintagmática entre as consoantes /b/ e /l/ (como em "bala", "bla-bla-bla"), porém proscreve terminantemente o sintagma consonantal inicial /b/ + /f/ (a sequência /bf/ inicial viola as regras de silabação sistêmica da língua).
- No domínio sintático e morfológico, a escolha do artigo feminino "A" engendra uma exigência sintagmática de concordância de gênero com o substantivo "lua". A sequência "O lua" quebra a harmonia sintagmática do sistema.
- Na predicação, o sintagma nominal sujeito "A lua" exige concordância de número com o verbo "é", inviabilizando sequências agramaticais como "A lua são". Da mesma forma, o adjetivo predicativo deve flexionar-se em sintonia de gênero ("bela", e não "belo"). A inserção de uma categoria inadequada como um advérbio de tempo isolado no lugar do predicativo ("A lua é ontem") invalida a coerência do sintagma por incompatibilidade de natureza categorial.
Relações Paradigmáticas (O que se encontra arquivado virtualmente e permite comutação):
- No plano dos fonemas, as unidades /l/ e /r/ pertencem ao mesmo paradigma fonológico distintivo do português. A substituição (comutação) de uma pela outra altera integralmente o signo resultante no inventário da língua (lua / rua, calo / caro).
- No plano das classes de palavras, os itens "lua", "sol", "estrela", "rua" e "vida" integram o paradigma dos substantivos e disputam a mesmíssima vaga sintática na frase.
- No plano da morfologia verbal, as formas "é", "está", "foi", "será" e "estava" coabitam o paradigma de substituição dos verbos de ligação, alternando o tempo, o aspecto e o modo da enunciação.
A noção de valor linguístico[editar]
A formulação teórica mais profunda, abstrata e revolucionária engendrada pelo estruturalismo saussuriano reside na noção de valor linguístico. Saussure enuncia axiomaticamente:
"Na língua só existem diferenças. [...] o que distingue um signo é tudo o que o constitui."
Isto implica que, no tecido da língua, não existem identidades positivas, absolutas ou substanciais que preexistem ao próprio sistema. Um signo não é nada por si mesmo; ele é definido puramente de forma negativa e diferencial em relação aos seus vizinhos de paradigma. A identidade de um signo é o resultado puramente relacional de um contraste: "um signo é aquilo que os outros signos não são, e ele não é aquilo que os outros signos são".
Para apreender a complexidade do valor, analisemos duas ilustrações fundamentais:
- "Pequeno" e "Grande" (A relatividade dos termos relacionais): As palavras "pequeno" e "grande" não carregam uma substância métrica ou um tamanho fixo em centímetros congelado em seus significados. O valor linguístico de "pequeno" só adquire sentido por oposição a "grande" dentro de uma moldura categorial específica de referência. Um "elefante pequeno" é, se medido em escala física absoluta, um animal gigantesco se comparado a outros seres vivos; paralelamente, uma "formiga grande" continua sendo um fragmento biológico minúsculo em termos físicos. O valor dos adjetivos é puramente relacional e diferencial: ele é delimitado pela vizinhança de significados do sistema e pelo paradigma acionado.
- "Proibido entrar de biquíni" (O valor determinado pelo sistema de oposições): Imagine-se uma placa com a inscrição "Proibido entrar de biquíni" afixada na entrada de dois recintos distintos. O sentido profundo e o valor desse enunciado mudam drasticamente de acordo com o paradigma de regras do local:
- Se a placa estiver colocada na entrada de uma praia de nudismo ou estância naturista, o valor do signo "biquíni" insere-se em um paradigma onde a oposição se faz com a "nudez total". Logo, a proibição do biquíni significa obrigatoriamente: "neste espaço é mandatório estar completamente despido".
- Se a mesma placa estiver afixada na entrada de um restaurante urbano ou repartição pública, o valor do signo insere-se em um paradigma onde a oposição se faz com o "traje social ou roupa completa". Logo, a proibição significa: "neste espaço é mandatório estar vestido com roupas convencionais".
O sentido do signo não emana de suas letras ou de sua substância isolada, mas sim do sistema de alternativas que o falante ou ouvinte evoca mentalmente para contrastá-lo. Este é o coração do pensamento estruturalista: as unidades materiais são secundárias; as relações diferenciadoras são absolutamente primordiais.
Descrever uma língua: o programa estrutural[editar]
Fundada sobre esses pilares dicotômicos, a linguística estrutural estabeleceu um programa metodológico rigoroso, empiricamente testável e descritivo para as ciências da linguagem. Descrever cientificamente uma dada língua natural humana não consiste em ditar regras prescritivas ou julgar o que é "certo" ou "errado" segundo preceitos puristas. Descrever uma língua exige o cumprimento sistemático de três etapas fundamentais:
- Inventariar e determinar os signos: Mapear exaustivamente quais são as unidades mínimas distintivas (fonemas, morfemas, palavras) operadas por aquela comunidade linguística específica.
- Mapear as relações sintagmáticas: Descrever minuciosamente quais são as regras de combinação e as restrições lineares que governam a concatenação dessas unidades em sequências legítimas e aceitáveis.
- Mapear as relações paradigmáticas: Agrupar as unidades em classes e paradigmas de substituição mutualmente exclusivos, demonstrando como o valor de cada termo se apoia nas suas oposições com os demais.
Este programa metodológico concebe a língua como uma arquitetura hierárquica escalonada de unidades, estruturada na seguinte progressão linear:
FONEMA (Som) -> MORFEMA / PALAVRA -> FRASE -> TEXTO
Cada nível superior da escala é constituído pela combinação sintagmática de unidades extraídas do nível imediatamente inferior. Ao mesmo tempo, cada ranhura ou posição nessa cadeia abre espaço para a escolha e substituição paradigmática de elementos.
No cenário específico da Língua Portuguesa, os números e ordens de grandeza são profundamente reveladores dessa engrenagem combinatorial:
- O sistema fonológico do português fundamenta-se em um inventário econômico e finito de aproximadamente 27 fonemas (variando ligeiramente a depender do dialeto considerado).
- Através da combinação sintagmática desses 27 fonemas elementares, a língua constrói e viabiliza as mais de 288.000 entradas e verbetes catalogados nos dicionários de grande porte da nossa língua (como o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).
- Por sua vez, essas milhares de palavras, ao combinarem-se obedecendo às regras sintáticas da língua, pavimentam a criação de uma quantidade virtualmente infinita de frases e textos.
Essa transição fantástica de um conjunto rigidamente fechado e finito de signos mínimos (os fonemas) para uma produtividade semântica e discursiva ilimitada e infinita constitui uma das propriedades biológicas e sociológicas mais fascinantes da linguagem humana. Décadas mais tarde, essa mesma característica estrutural seria retomada e rebatizada no seio da Linguística Gerativa, sob a batuta de Noam Chomsky, recebendo as nomenclaturas de criatividade linguística ou recursividade. O estruturalismo saussuriano legou à posteridade a certeza de que, por trás da aparente fluidez caótica da fala cotidiana, ruge um sistema formal de uma precisão matemática irretocável.
Desdobramentos do Estruturalismo[editar]
Bibliografia comentada — Estruturalismo saussuriano[editar]
- SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. Organização de Charles Bally e Albert Sechehaye; tradução de Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix, [1916] 2006.
- Comentário: Trata-se da edição de referência absoluta e obrigatória em língua portuguesa. É a tradução direta do texto francês de 1916 que moldou o estruturalismo europeu, fixando a terminologia técnica padrão utilizada nos cursos de graduação em Letras no Brasil.
- SAUSSURE, Ferdinand de. Escritos de Linguística Geral. Organização de Simon Bouquet e Rudolf Engler; tradução de Carlos Augusto Leuba Salum e Alvaro Lorencini. São Paulo: Cultrix, 2002.
- Comentário: Este volume reúne os manuscritos autógrafos do próprio Saussure que foram encontrados tardiamente em 1996. É uma leitura indispensável para pesquisadores e alunos avançados, pois permite confrontar o texto "oficial" editado por Bally e Sechehaye com as reflexões originais, fragmentárias e complexas escritas de próprio punho pelo mestre suíço.
- NORMAND, Claudine. Saussure. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.
- Comentário: Uma excelente obra de introdução e comentário crítico que contextualiza o surgimento do pensamento saussuriano, desfazendo mal-entendidos comuns e explicando a recepção de suas dicotomias no cenário da teoria da linguagem contemporânea.
- DE MAURO, Tullio. Notas ao Curso de Linguística Geral. (Presentes nas edições críticas anotadas da editora Payot em francês e de edições italianas).
- Comentário: Os aparatos críticos e as notas históricas produzidas por Tullio De Mauro são fundamentais e reverenciados mundialmente pela erudição, sendo indispensáveis para quem deseja situar historicamente as fontes filosóficas, sociológicas e psicológicas que influenciaram Saussure na virada do século.