Por Ronaldo Martins
06/03/2026
Morreu aos 83 anos o escritor português António Lobo Antunes, um dos romancistas mais importantes da literatura de língua portuguesa nas últimas décadas. Autor de obras como Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno, Lobo Antunes construiu carreira marcada por inovação narrativa e por retratos intensos da sociedade portuguesa.
Nascido em Lisboa em 1942, António Lobo Antunes formou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa e especializou-se em psiquiatria. Entre 1971 e 1973 serviu como médico militar na Guerra Colonial em Angola, experiência que marcaria profundamente sua obra literária. A vivência no conflito e o impacto psicológico da guerra tornaram-se temas centrais de seus primeiros romances.
Seu livro de estreia, Memória de Elefante (1979), chamou atenção da crítica pela intensidade autobiográfica e pelo estilo narrativo inovador. No mesmo ano publicou Os Cus de Judas, romance que consolidou seu nome na literatura portuguesa ao abordar de forma contundente a experiência traumática da guerra em Angola.
Ao longo das décadas seguintes, Lobo Antunes desenvolveu uma obra extensa e singular, caracterizada por narrativas fragmentadas, múltiplas vozes e forte experimentação formal. Entre seus títulos mais conhecidos estão Conhecimento do Inferno, Fado Alexandrino, Manual dos Inquisidores, O Esplendor de Portugal e Comissão das Lágrimas.
Sua escrita tornou-se reconhecida pela complexidade estilística e pela construção de monólogos interiores que exploram memória, violência, história e identidade. Muitos críticos o consideram um dos grandes renovadores do romance contemporâneo em língua portuguesa.
A obra de Lobo Antunes foi traduzida para dezenas de idiomas e recebeu diversos prêmios literários internacionais ao longo de sua carreira. Apesar de frequentemente apontado como candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, o reconhecimento maior veio sobretudo do prestígio crítico e da influência exercida sobre gerações de escritores.
Paralelamente à carreira literária, manteve durante anos atividade como cronista em jornais portugueses, reunindo textos posteriormente publicados em livros. Nessas crônicas, combinava observação do cotidiano com reflexões pessoais e comentários sobre literatura e política.