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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

O Seminarista é um romance que narra a história de Eugênio, jovem destinado à vida religiosa por imposição familiar. Apaixonado por Margarida, ele vive o conflito entre o amor e a vocação forçada, enfrentando culpa, repressão e sofrimento. A obra critica o fanatismo e a rigidez moral da sociedade, destacando as consequências da falta de liberdade individual.

CAPÍTULO I

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via-se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente.

Um estreito caminho, partindo da porta da casa, cortava o vargedo e ia atravessar o capão e o córrego, por uma pontezinha de madeira, fechada do outro lado por uma tronqueira de varas. Junto à ponte, de um lado e outro do caminho, viam-se duas corpulentas paineiras, cujos galhos, entrelaçando-se no ar, formavam uma arcada de verdura, à entrada do campo onde pastava o gado.

Era uma bela tarde de janeiro. Dois meninos brincavam à sombra das paineiras: um rapazinho de doze a treze anos e uma menina, que parecia ser pouco mais nova do que ele.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da embaúba.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda.

A menina, sentada sobre a relva, despencava um molho de flores silvestres de que estava fabricando um ramalhete, enquanto seu companheiro, atracando-se como um macaco aos galhos das paineiras, balouçava-se no ar, fazia mil passes e piruetas para diverti-la.

Perto deles, espalhados no vargedo, umas três ou quatro vacas e mais algumas reses estavam tosando tranqüilamente o fresco e viçoso capim.

O sol, que já não se via no céu, tocava com uma luz de ouro os topes abaulados dos altos espigões; uma aragem quase imperceptível mal rumorejava pelas abas do capão e esvoaçava por aquelas baixadas cheias de sombra.

— Vamos, Eugênio. São horas... vamos apartar os bezerros e tocar as vacas para a outra banda.

Dizendo isto, a menina levanta-se da relva, e, atirando para trás dos ombros os negros e compridos cabelos, sacudiu do regaço uma nuvem de flores despencadas.

— Pois vamos lá com isso, Margarida, exclamou Eugênio, vindo ao chão de um salto, e ambos foram ajuntar as poucas vacas que ali andavam pastando.

— Arre! com mil diabos!... que bezerrada mofina! — exclamou o rapaz tangendo os bezerros. — Por que é que estes bezerros da tia Umbelina andam sempre assim tão magros?

Ora! pois, que é que você quer? mamãe tira quase todo o leite das vacas, e deixa um pinguinho só para os pobres bezerros. Por isso mesmo quase nenhuma cria pode vingar, e algum que escapa mamãe vende logo.

— E por que é que ela não te dá uma bezerrinha? aquela vermelhinha estava bem bonita para você...

— Qual!... não vê que ela me dá!... e eu que tenho tanta vontade de ter a minha vaquinha. Há que tempo Dindinha prometeu de me dar uma bezerra e até hoje estou esperando...

— Mamãe?... ora!... é porque ela se esqueceu... deixa estar, que eu hei de falar com ela... mas não, eu mesmo é que hei de te dar uma novilha pintada muito bonitinha que eu tenho. Assim como assim, eu tenho de me ir embora mesmo, que quero eu fazer com a criação?

— Como é isso?... — exclamou Margarida com surpresa. — Pois você vaise embora?...

— Vou, Margarida; pois você ainda não sabia?...

— Eu não; quem me havia de contar? para onde é que você vai, então?

— Vou para o estudo, Margarida; papai mais mamãe querem que eu vá estudar para padre.

— Deveras, Eugênio!... ah! meu Deus!... que idéia!... e é muito longe esse estudo?

— Eu sei lá; eles estão falando que eu vou para Congonhas...

— Congonhas?... ah! já ouvi falar nessa terra; não é onde moram os padres santos?... ah! meu Deus! isso é muito longe!

— Qual longe!... tanta gente já tem ido lá e vem outra vez. Mamãe já mandou fazer batina, sobrepeliz, barrete e tudo. Quando tudo ficar pronto, eu hei de vir cá vestido de padre para você ver que tal fico.

— Tomara eu ver já!... você há de ficar um padrinho bem bonitinho!

— E quando eu for padre, você há de ir por força ouvir a minha primeira missa, não há de, Margarida?...

— Se hei de!... e também mais uma coisa, que hei de fazer... adivinha o que é?...

— O que é?... fala.

— Mamãe costuma dizer, que eu já estou ficando grande, e que daqui a um ano bem posso me confessar, e para isso anda me ensinando doutrina; mas eu não tenho ânimo de me confessar a padre nenhum... Deus me livre! tenho um medo... uma vergonha! mas com você é outro caso estou pronta, e por isso não quero me confessar enquanto você não for padre...

— Está dito, Margarida; prometo que há de ser você a primeira pessoa que hei de confessar; antes disso, não confesso pessoa nenhuma, nenhuma desta vida; eu te juro, Margarida.

— Muito bem! muito bem! está dito. Agora me conta, Eugênio; quando é que você vai-se embora?

— É para o mês que vem...

— Ah! meu Deus! pois já tão depressa! e você não há de ficar com saudade de mim!...

— Se fico!... muita, muita saudade, Margarida: — quando penso nisso fico tão triste, que me dá vontade de chorar.

(continua...)

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