Por Bernardo Guimarães (1872)
O Garimpeiro é um romance regionalista que retrata a vida nas áreas de mineração do interior brasileiro. A narrativa acompanha personagens movidos pela ambição e pela esperança de riqueza, explorando conflitos amorosos, disputas e desafios sociais. Ao descrever costumes, paisagens e tensões humanas, a obra constrói um panorama crítico da sociedade ligada ao garimpo.
I - A FAZENDA
As regiões que formam os municípios de Araxá, Patrocínio e Bagagem, na província de Minas, encerram paisagens as mais risonhas e encantadoras que se podem imaginar, e quem uma vez tem percorrido esses férteis e pitorescos sertões nunca mais os perde da lembrança.
É impossível dar uma idéia do aspecto geral desse país. A cada eminência que se transpõe, uma nova perspectiva nos surpreende, um novo panorama se desenrola aos olhos do viandante. Aqui o solo ondula graciosamente em colinas de suave declive, separadas uma das outras por cristalinos córregos, orlados de capões, cujo tope escuro se destaca vivamente em meio do brilhante e verde claro matiz das Campinas. Além se achata em vastos chapadões, que cansam a vista e impacientam o viandante que os percorre. Acolá os espigões se abaúlam, como leivas gigantescas divididas pelos buritizais que se estendem como filas de guerreiros ao longo dos brejais. Aqui o horizonte é limitado ao longe por uma linha de serras, cujos topes, longe de serem coroados de ásperos alcantis, são lisos e risonhos tabuleiros cobertos de viçosas e suculentas pastagens. Acolá uma linha escura forma o fundo do painel; é a selva profunda e imensa, que lá se vai perder pelo coração dos desertos sem fim. De todas essas encostas, por todos esses vales, à sombra de todos esses selváticos vergéis, jorram e murmuram perenemente com pasmosa abundância as mais límpidas e frescas águas. O humilde regato que aqui transpondes de um salto, algumas léguas além ainda ao alcance de vossas vistas já é largo e caudaloso rio.
Tudo é belo e grandioso, é risonho e enlevador por aquelas imensas solidões.
Inúmeras manadas de gado e de éguas, mugindo e relinchando pelos vargedos de viço perenal, bandos de emas e siriemas vagando pelos camegais, alegram a solidão daqueles sertões abençoados.
De três em três , de quatro em quatro léguas lá alveja no fundo do valado, entre moitas de laranjais, coqueiros e bananeiras, a casa do abastado lavrador, que o viandante fatigado saúda sempre com indizível prazer, pois sabe que à sua porta o espera a mais franca e cordial hospitalidade.
Posto que ali ainda não tenham penetrado os benefícios do progresso material, todavia a condição moral e intelectual da população é e sempre foi excelente. Os habitantes dessas regiões são notáveis pela amenidade dos costumes e pela amabilidade do trato.
Nessas paragens os homens são robustos, ativos e inteligentes, as moças são bem feitas, meigas e formosas.
Todas essas vantagens são devidas talvez em grande parte à doce e sempre igual temperatura do clima, à inexcedível uberdade do solo, à beleza e magnificência de seus horizontes incomparáveis.
Entre a Bagagem e a vila do Patrocínio, no meio de espigões separados por um pequeno córrego situado num vale delicioso, que ia morrer nas faldas de um serrote vizinho, era a fazenda do major. No sertão não há fazendeiro algum tanto abastado que não tenha um posto elevado na guarda nacional. Portanto, para não declinar o nome de nosso personagem, o designaremos sempre pelo do seu posto.
A casa do Major era baixa mas espaçosa, circundada pelas suas faces, que olhavam para o lançante do espigão, de uma larga varanda aberta, e pelos fundos reunida entre moitas de laranjeiras, coqueiros, jambeiros e outras árvores frutíferas, que em pitoresca desordem a sombreavam em torno.
Na frente havia um vasto curral em um canto do qual erguia-se uma velha e truculenta gameleira, dessas que estendem seus galhos gigantescos dez braços em derredor, e que servia de sombra e aprisco para o gado, para os carros e outros utensílios de roça.
No fundo do quintal que era um vasto vergel de árvores frutíferas plantadas promiscuamente e sem simetria alguma, corria o córrego, que descia das alturas vizinhas sempre fresco e cristalino, à sombra de espessos e viçosos capões. Do outro lado, pela beira do córrego, corria uma orla de capoeira inculta e emaranhada.
Em certo lugar o riacho, como que fatigado de correr e retouçar por entre as pedras, vinha espreguiçar-se e adormecer em um largo e cristalino tanque, em cujas bordas havia uma linda vargenzinha toda alcatifada de rasteiro e mimoso capim. Era ali a fonte e o coradouro em que as escravas da casa costumavam lavar a roupa. Ali também a filha do Major, a formosa e interessante Lúcia, costumava trazer, nas horas de sesta, a sua cestinha de costura, e junto com Júlia, sua irmãzinha de nove anos, assentada no gramal à sombra de uma moita de arbustos, trabalhava cantarolando alguma singela copla, ou conversando com as escravas.
- Joana, tu não queres ir à vila agora pelas festas do dia 7 de setembro?
- Sinhazinha vai?
- Eu hei de ir por força; há parada, papai é Major, não pode deixar de ir, e bem vês que não pode deixar- nos aqui sozinhas.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.