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#Notícias#Línguas índigenas

Jopará, a “terceira língua” do Paraguai

Por Pedro Simões

13/02/2026

No Paraguai, além do espanhol e do guarani — ambos oficiais — existe uma forma de falar do cotidiano conhecida como jopará, considerada por muitos a “terceira língua” do país.

O termo, que significa “mistura” em guarani, descreve a combinação espontânea entre os dois idiomas, presente na fala diária de milhões de paraguaios.

O jopará surgiu há mais de 200 anos, fruto do contato constante entre espanhol e guarani em uma sociedade historicamente bilíngue. Mais do que um idioma formal, trata-se de uma prática linguística flexível, na qual os falantes alternam entre as duas línguas — às vezes dentro da mesma frase — misturando vocabulário, gramática e até sufixos guaranis em palavras espanholas.

Pesquisas mostram que essa mistura é comum: cerca de 34% dos paraguaios combinam guarani e espanhol em casa, enquanto 32,6% usam apenas guarani. O fenômeno reflete a forte presença da língua indígena na identidade cultural do país e sua convivência natural com o espanhol.

Assim, a presença do guarani no Paraguai é um caso único na América Latina, um continente onde as línguas indígenas são faladas, em geral, por uma minoria. Desse modo, mesmo que apenas 2% dos paraguaios sejam indígenas, o guarani é entendido por mais de 70% da população, o que torna o país um caso raro de uma língua indígena falada por não indígenas. Vale lembrar que muitos paraguaios não são fluentes em espanhol.

De acordo com linguistas, o guarani foi um idioma discriminado por séculos, mas duas grandes guerras ajudaram a sobrevivência e expansão do guarani: a Guerra do Paraguai (1864-1870) e a Guerra do Chaco (1932-1935). A morte de homens fez com que as mulheres cuidassem dos filhos e falassem com eles em guarani.

No Paraguai, o espanhol costuma ser falado em situações formais e profissionais, enquanto o guarani é guardado para a comunicação familiar e íntima.

Para linguistas, o jopará não é uma língua independente, mas uma forma prática de comunicação em um país bilíngue, permitindo expressividade, proximidade e identidade cultural. Assim, ele permanece como marca central da vida cotidiana paraguaia e um exemplo dos mais inúmeros casos de contato linguístico que demonstra como tanto o espanhol como o guarani foram alterados ao entrar em contato um com o outro.

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