Por Gregório de Matos (1850)
Gregório de Matos (1636–1696), poeta maior do Barroco brasileiro, celebrizou-se pela sátira mordaz e pelo duplo sentido erótico. Neste poema, contrapõe “flor” e “fruto” para ironizar o vigário e insinuar, com malícia, a posse simbólica do “fruto” enviado por Brites. O texto circulou manuscrito no século XVII e foi publicado em livro no Rio de Janeiro, em 1850.
Ao Padre Vigário a flor,
ao pobre Doutor o fruto,
há nisto, que dizer, muito,
e dirá muito o Doutor:
tenho por grande favor,
que a título de compadre
deis, Brites, a flor ao Padre:
mas dando-me o fruto a mim,
o que se me deu assim,
é força, que mais me quadre.
Quadra-me, que o fruto influa,
que uma flor, que eu não queria,
Se dê, a quem principia
e o fruto, a quem continua:
se o fruto faz, que se argua,
que eu sou o dono da planta,
a flor seja tanto, ou quanta,
sempre o dono a quer perdida,
porque pelo chão caída
faz, que o fruto se adianta.
Quem é do fruto Senhor
sabe as Leis d'agricultura,
que todo o fruto assegura,
e despreza toda a flor:
e inda que chamam favor
dar a sua flor a Dama
àquele, por quem se inflama
eu entendo de outro modo,
e ao fruto mais me acomodo,
que honra, e proveito se chama.
Porque na testa vos entre
o mistério, que isto encerra,
quem me dá o fruto da terra,
me pode dar do seu ventre:
e porque se reconcentre
este vaticínio imundo
no vosso peito fecundo,
digo qual bem augureiro,
que quem me deu o primeiro,
me pode dar o segundo.
O Padre andou muito tolo
em vos estimar a flor,
porque era folha o favor,
e o meu todo era miolo:
com meu favor me consolo
de sorte, e tão por inteiro,
que afirmou por derradeiro,
que um favor, e outro suposto,
eu levo de vós o gosto,
e o Padre vigário o cheiro.
Eu do Vigário zombei,
porque vejo, que levou
uma flor, que se murchou,
e eu o fruto vos papei:
este exemplo lhe gravei,
y este desengaño doy
dela dicha, em que me estoy
cantando a su flor ansi,
que ayer maravilla fui,
y oy sombra mia aun no soy.