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#Sátiras#Literatura Brasileira

Ao vigário da Madre de Deos Manuel Rodrigues queixa o poeta de ter clérigos que lhe foram a casa pela festa do Natal, onde também ele estava e com galantaria o persuade, a que sacuda os hospedes fora de casa pelo gasto, que faziam

Por Gregório de Matos (1850)

Gregório de Matos (1636–1696), poeta maior do Barroco luso-brasileiro, tornou-se célebre pela sátira mordaz aos costumes e ao clero colonial. No poema “Ao vigário da Madre de Deos Manuel Rodrigues…”, com humor e ironia, critica os excessos e despesas provocados por clérigos em visita natalina. O texto circulou manuscrito no século XVII e foi publicado em livro no Rio de Janeiro, em 1850.

Padre, a casa está abrasada,
porque é mais danosa empresa
pôr três bocas numa mesa,
que trezentas numa espada:
esta trindade sagrada,
com que toda a case abafa
a tomara ver já safa,
porque à casa não convém
trindade, que em si contém
três Pessoas, e uma estafa.

Vós não podeis sem dar pena
pôr à mesa três Pessoas,
nem sustentar três coroas
em cabeça tão pequena:
se a fortuna vos condena,
que vejais a casa rasa
com gente, que tudo abrasa,
não sofro, que desta vez
vos venham coroas três
fazer princípio de casa.

Se estamos na Epifania,
e os três coroas são Magos,
hão de fazer mil estragos
no caju, na valancia:
mágica é feitiçaria,
e a terra é tão pouco esperta,
e a gentinha tão incerta,
que os três a vosso pesar
não vos hão de oferta dar,
e hão de mamar-vos a oferta.

O incenso, o ouro, a mirra
que eles vos hão de deixar,
é, que vos hão de mirrar,
se vos não defende um irra:
o Crasto por pouco espirra,
porque é dado a valentão,
e se lhe formos à mão
no comer, e no engolir,
aqui nos há de frigir
como postas de cação.

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