Por Martins Pena (1844)
A história acompanha uma sátira bem-humorada ambientada durante a tradicional celebração do Sábado de Aleluia, quando o boneco de Judas é exposto ao ridículo. A trama usa situações cômicas e personagens caricatos para criticar costumes sociais, esperteza e relações de interesse. Com linguagem simples e dinâmica, o texto provoca riso ao mesmo tempo em que revela aspectos do cotidiano popular brasileiro do século XIX.
Comédia em 1 ato
Personagens
José Pimenta, cabo-de-esquadra da Guarda Nacional.
Suas filhas Chiquinha e Maricota.
Lulu (10 anos).
Faustino, empregado público.
Ambrósio, capitão da Guarda Nacional.
Antônio Domingos, velho, negociante.
Meninos e moleques.
A cena passa-se no Rio de Janeiro, no ano de 1844.
ATO ÚNICO
Sala em casa de José Pimenta. Porta no fundo, à direita, e à esquerda uma janela; além da porta da direita uma cômoda de jacarandá, sobre a qual estará uma manga de vidro e dous castiçais de casquinha. Cadeiras e mesa. Ao levantar do pano, a cena estará distribuída da seguinte maneira: Chiquinha sentada junto à mesa, cosendo; Maricota à janela; e no fundo da sala, à direita da porta, um grupo de quatro meninos e dous moleques acabam de aprontar um judas, o qual estará apoiado à parede. Serão os seus trajes casaca de corte, de veludo, colete idem, botas de montar, chapéu armado com penacho escarlate (tudo muito usado), longos bigodes, etc. Os meninos e moleques saltam de contentes ao redor do judas e fazem grande algazarra.
CENA I
Chiquinha, Maricota e meninos.
Chiquinha — Meninos, não façam tanta bulha...
Lulu (saindo do grupo) — Mana, veja o judas como está bonito! Logo quando aparecer a Aleluia, havemos de puxá-lo para a rua.
Chiquinha — Está bom; vão para dentro e logo venham.
Lulu (para os meninos e moleques) — Vamos pra dentro; logo viremos, quando aparecer a Aleluia. (Vão todos para dentro em confusão)
Chiquinha (para Maricota) — Maricota, ainda te não cansou essa janela?
Maricota (voltando a cabeça) — Não é de tua conta.
Chiquinha — Bem o sei. Mas, olha, o meu vestido está quase pronto; e o teu, não sei quando estará.
Maricota — Hei-de aprontá-lo quando quiser e muito bem me parecer. Basta de seca - cose, e deixa-me.
Chiquinha — Fazes bem. (Aqui Maricota faz uma mesura para ai rua, como a pessoa que a cumprimenta, e continua depois a fazer acenos com o lenço) Lá está ela no seu fadário! Que viva esta minha irmã só para namorar! É forte mania! A todos faz festa, a todos namora... E o pior é que a todos engana... até o dia em que também seja enganada.
Maricota (retirando-se da janela) — O que estás tu a dizer, Chiquinha?
Chiquinha — Eu? Nada.
Maricota — Sim! Agarra-te bem à costura; vive sempre como vives, que hás-de morrer solteira.
Chiquinha — Paciência.
Maricota — Minha cara, nós não temos dote, e não é pregada à cadeira que acharemos noivo.
Chiquinha — Tu já o achaste pregada à janela?
Maricota — Até esperar não é tarde. Sabes tu quantos passaram hoje por esta rua, só para me verem?
Chiquinha — Não.
Maricota — O primeiro que vi, quando cheguei à janela, parado no canto, foi aquele tenente dos Permanentes, que tu bem sabes.
Chiquinha — Casa-te com ele.
Maricota — E por que não, se ele quiser? Os oficiais dos Permanentes têm bom soldo. Podes te rir.
Chiquinha — E depois do tenente, quem mais passou?
Maricota — O cavalo rabão.
Chiquinha — Ah!
Maricota — Já te não mostrei aquele moço que anda sempre muito à moda, montado em um cavalo rabão, e que todas as vezes que passa cumprimenta com ar risonho e esporeia o cavalo?
Chiquinha — Sei quem é — isto é, conheço-a de vista. Quem é ele?
Maricota — Sei tanto como tu.
Chiquinha — E o namoras sem o conheceres?
Maricota — Oh, que tola! Pois é preciso conhecer-se a pessoa a quem se namora?
Chiquinha — Penso que sim.
Maricota — Estás muita atrasada. Queres ver a carta que ele me mandou esta manhã pela moleque? (Tira do seio uma cartinha) Ouve: (lendo:) "Minha adorada e crepitante estrela!" (Deixando de ler:) Hem? Então?...
Chiquinha — Continua.
Maricota (continuando a ler) — "Os astros que brilham nas chamejantes esferas de teus sedutores olhos ofuscaram em tão subido ponto o meu discernimento, que me enlouqueceram. Sim, meu bem, um general quando vence uma batalha não é mais feliz da que eu sou! Se receberes os meus sinceros sofrimentos serei ditoso, e se não me corresponderes, serei infeliz, irei viver com as feras desumanas da Hircânia, do Japão e dos sertões de Minas - feras mais compassivas do que tu. Sim, meu bem, esta será a minha sorte, e lá morrerei... Adeus. Deste que jura ser teu, apesar da negra e fria morte. - O mesmo". (Acabando de ler:) Então, tem que dizer a isto? Que estilo! que paixão!...
Chiquinha (rindo-se) — É pena que a menina vá viver por essas brenhas com as feras da Hircânia, com os tatus e tamanduás. E tu acreditas em todo este palanfrório?
Maricota — E por que não? Têm-se visto muitas paixões violentas. Ouve agora esta outra. (Tira outra carta do seio)
Chiquinha — Do mesmo?
Maricota — Não, é daquele mocinho que está estudando latim no Seminário de S. José.
Chiquinha — Namoras também a um estudante de latim?! O que esperas deste menina?
Maricota — O que espero? Não tens ouvida dizer que as primeiras paixões são eternas? Pais bem, este menino pode ir para S. Paulo, voltar de lá formado e arranjar eu alguma cousa no caso de estar ainda solteira.
Chiquinha — Que cálculo! É pena teres de esperar tanto tempo...
(continua...)
PENA, Martins. O Judas em Sábado de Aleluia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17002 . Acesso em: 28 jan. 2026.