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#Notícias#Sociolinguística#Políticas Linguísticas e Planejamento Linguístico#Russo

Cazaquistão adota alfabeto latino em movimento histórico para reforçar identidade nacional

Por Pedro Simões

29/06/2025

O governo do Cazaquistão oficializou a adoção do alfabeto latino para a escrita do cazaque, medida que busca reforçar a identidade nacional e se distanciar do legado soviético. A transição, estimada em cerca de R$ 2,5 bilhões, ocorre após anos de planejamento iniciado em 2017 e levanta preocupações quanto ao verdadeiro custo econômico do processo.

O Cazaquistão, país multilíngue onde o cazaque e o russo são línguas oficiais, vive atualmente um momento histórico com a decisão de abandonar o alfabeto cirílico — utilizado desde a era soviética — em favor do latino. A mudança é vista não apenas como uma reforma linguística, mas como um símbolo político de independência e de retomada de laços culturais anteriores à influência soviética.

Historicamente, a língua cazaque já foi escrita em alfabetos árabe e latino, antes da imposição do cirílico durante o período soviético. Hoje, cerca de dois terços da população são etnicamente cazaques, enquanto os russos representam 20%. Apesar disso, o russo segue sendo amplamente usado: quase 94% dos mais de 18 milhões de habitantes falam a língua, enquanto 74% declaram fluência em cazaque. O uso cotidiano dos idiomas varia conforme a região, sendo o russo predominante no Norte e nas grandes cidades como Almaty e Astana, enquanto o cazaque é mais falado no Sul e Oeste do país.

A adoção do alfabeto latino já foi realizada em décadas passadas por outras ex-repúblicas soviéticas. O Azerbaijão, por exemplo, introduziu livros didáticos no novo alfabeto logo após a dissolução da União Soviética, em 1991, e o Turcomenistão seguiu pelo mesmo caminho a partir de 1993. Ainda no início do século XX, a Turquia também substituiu o alfabeto árabe pelo latino, numa estratégia de modernização e aproximação cultural com o Ocidente.

No caso cazaque, especialistas afirmam que a mudança tem claras motivações políticas, representando uma tentativa de consolidar a identidade nacional e reduzir a influência russa no país. Economistas, porém, alertam que os custos podem ultrapassar os R$ 2,5 bilhões estimados pelo governo, considerando as adaptações necessárias em livros didáticos, documentos oficiais, sinalização pública e comunicação institucional.

Enquanto isso, a sociedade cazaque se prepara para um período de transição que promete impactar a vida cotidiana, a educação e a cultura, em mais um capítulo da busca do país por afirmar sua autonomia e identidade própria no cenário pós-soviético.

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