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#Sátiras#Literatura Brasileira

A outro clérigo amigo do Frizão, que se dizia estar amancebado de portas adentro com duas mulheres, uma negra e outra mulata

Por Gregório de Matos (1696)

Poema satírico atribuído a Gregório de Matos, provavelmente composto na Bahia no final do século XVII. Conhecido por manuscritos coloniais e publicado apenas em edições críticas, denuncia com mordacidade o escândalo envolvendo um clérigo acusado de viver amancebado com duas mulheres.

A vós, Padre Baltasar,

vão os meus versos direitos,

porque são vossos defeitos

mais que as areias do mar:

e bem que estais num lugar

tão remoto, e tão profundo

com concubinato imundo,

como sois Padre Miranda,

o vosso pobre tresanda

pelas conteiras do mundo.


Cá temos averiguado,

que os vossos concubinatos

são como um par de sapatos

um negro, outro apolvilhado:

de uma, e outra cor calçado

saís pela porta fora,

hora negra, e parda hora,

que um zote camaleão

toda a cor toma, senão

que a da vergonha o não cora.


Vossa luxúria indiscreta

é tão pesada, e violenta,

que em dous putões se sustenta

uma Mulata, e uma Preta:

c’uma puta se aquieta

o membro mais desonesto,

porém o vosso indigesto,

há mister na ocasião

a negra para trovão,

e a parda para cabresto.


Sem uma, e outra cadela

não se embarca o Polifemo,

porque a negra o leva a remo,

e a mulata o leva a vela:

ele vai por sentinela,

porque elas não dêem a bomba;

porém como qualquer zomba

do Padre, que maravilha,

que elas disponham da quilha,

e ele ao feder faça tromba.


Elas sem mágoa, nem dor

lhe põem os cornos em pinha,

porque a puta, e a galinha,

têm o ofício de pôr:

ovos a franga pior,

cornos a puta mais casta,

e quando a negra se agasta,

e c’o Padre se disputa,

lhe diz, que antes quer ser puta,

que fazer com ele casta.


A negrinha se pespega

c’um amigão de corona,

que sempre o Frisão se entona,

que ao maior amigo apega:

a mulatinha se esfrega

c’um mestiço requeimado

destes do pernil tostado,

que a cunha do mesmo pau

em obras de bacalhau

fecha como cadeado.


Com toda esta cornualha

diz ele cego do amor,

que as negras tudo é primor,

e as brancas tudo canalha:

isto faz a erva, e palha,

de que o burro se sustenta,

que um destes não se contenta

salvo se lhe dão por capa

para a rua numa gualdrapa,

para a cama uma jumenta.


Há bulhas minto renhidas

em havendo algum ciúme,

porque ele sempre presume

de as ver sempre presumidas:

mas elas de mui queridas

vendo, que o Padre de borra

em fogo de amor se torra,

andam por negar-lhe a graça

elas com ele de massa,

se ele com elas à porra.


Veio uma noite de fora,

e achando em seu vitupério

a mulata em adultério

tocou alarma por fora:

e por que pegou com mora

no raio do chumbo ardente,

foi-se o cão seguramente:

que como estava o coitado

tão leve, e descarregado

se pôde ir livremente.



Porque é grande demandão

o senhor zote Miranda,

que tudo, o que vê demanda,

seja de quem for o chão:

por isso o Padre cabrão

de continuo está a jurar

que os cães lhe hão de pagar,

e que as fadas, que tem dado,

lhas hão de dar de contado,

e ele as há de recadar.

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