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#Sátiras#Literatura Brasileira

Ao vigário Antônio Marques de Pera da Encomendado na Igreja da vila de S. Francisco, ambicioso e desconhecido

Por Gregório de Matos (1696)

Poema satírico atribuído a Gregório de Matos, provavelmente composto na Bahia no final do século XVII. Transmitido por manuscritos coloniais e publicado apenas em edições críticas modernas, denuncia com ironia a ambição e a postura arrogante do vigário Antônio Marques de Pera.

Da tua Perada mica

não te espantes, que me enoje,

porque é força, que a entoje

sendo doce de botica:

o gosto não se me aplica

a uma conserva afamada,

e em botes tão redomada,

que sempre por ter que almoces,

achas para tão maus doces

a tutia preparada.


Se tua Tia arganaz

te fez essa alcomonia,

com colher não te faria,

com espátula te faz:

criaste-te de rapaz

co pingue dessas redomas,

e hoje tal asco lhe tomas,

que tendo uma herança rica

hás raízes da botica,

contudo não tens, que comas.


Teu juízo é tão confuso,

que quando a qualquer cristão

lhe entra o uso de rezão,

de então lhe perdeste o uso:

sempre foste tão obtuso,

que já desde estudante

te tinham por um doudete,

porque eras visto por alto,

na fala falso contralto,

na vista fino falsete.


Correndo os anos cresceste,

e se dizia em sussurro,

que era o teu crescer de burro,

pois cresceste, e aborreceste:

logo em tudo te meteste,

querendo ser eminente

nas artes, que estuda a gente,

mas deixou-te a tua asnia

Abel na filosofia,

na poesia inocente.


Deram-te as primeiras linhas

versos de tão baixa esfera,

que o seu menor erro era

serem feitos às Negrinhas:

com estas mesmas pretinhas,

por mais que te desbatizes,

gastaste os bens infelizes

do Marquês fino herbolário,

porque todo o Boticário

é mui rico de raízes.


Sendo um zote tão supino,

és tão confiado alvar,

que andas por i a pregar

geringonças ao divino:

pregas como um capuchino,

porque essa traça madura

um curado te assegura,

crendo Sua Senhoria,

que a botica te daria

as virtudes pare a cura.


Mas ele se acha enganado,

porque vê evidentemente,

que os botes para um doente

são, mas não pare um curado:

entraste tão esfaimado

a comer do sacrifício,

que todo o futuro ofício

cantaste sobre fiado,

pelo tirar de contado

ao dono do benefício.


Nenhuma outra cousa é

este andar dos teus alparques,

mais que ser Filho de Marques

vizinho da Santa Sé:

outro da mesma ralé

tão Marques, e tão bribante

te serve agora de Atlante,

porque para conjurer-se,

é facil de congregar-se

um com outro semelhante.


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