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#Sátiras#Literatura Brasileira

Ao vigário da vila de S. Francisco por uma pendência que teve com um ourives a respeito de uma mulata, que se dizia correr por sua conta

Por Gregório de Matos (1696)

Poema satírico atribuído a Gregório de Matos, provavelmente composto na Bahia no final do século XVII. Conhecido por manuscritos coloniais e publicado apenas em edições críticas modernas, expõe com ironia um escândalo envolvendo um vigário, um ourives e uma mulata.

Naquele grande motim,

onde acudiu tanta gente,

a título de valente

também veio valentim:

puxou pelo seu afim,

e tirando-lhe a barriga,

você se quer, que lho diga,

disse ao Ourives da prata,

na obra desta Mulata

mete muita falsa liga:

Briga, briga.


É homem tão desalmado,

que por lhe a prata faltar,

a estar sempre a trabalhar

bate no vaso sagrado:

não vê que está excomungado,

porque com tanta fadiga

a peça da igreja obriga

numa casa excomungada

com censura reservada,

pela qual Deus o castiga:

Briga, briga.


Porque com modos violentos

a um vigário tão capaz

sobre quatro, que já traz,

cornos, lhe põe quatrocentos!

deixe-se desses intentos,

e reponha a rapariga,

pois a repô-la se obriga,

quando afirma, que a possui,

e se a razão não conclui,

vai esta ponta à barriga:

Briga, briga.


Senhor Ourives, você

não é ourives da prata?

pois que quer dessa Mulata,

que cobre, ou tambaca é?

Restitua a Moça, que

é peça da Igreja antiga:

restitua a rapariga,

que se vingará o Vigário

talvez no confessionário,

e talvez na desobriga:

Briga, briga.


A Mulata já lhe pesa

de trocar odre por odre,

pois o leigo é membro podre,

e o Padre membro da igreja:

sempre esta telha goteja,

sempre dá grão esta espiga,

e a bola da rapariga

quer desfazer esta troca,

e deixando a sua toca

quer fazer co Padre liga

Briga, briga.


Largai a Mulata, e seja

logo a bom partido,

que como tem delinqüido

se quer acolher à igreja:

porque todo o mundo veja,

que quando a carne inimiga

tenta a uma rapariga,

quer no cabo, quer no rabo

a Igreja vence ao diabo

com outra qualquer cantiga.

Briga, briga.

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