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#Sátiras#Literatura Brasileira

O deão André Gomes Caveira se introduziu de tal modo com este prelado em desabono do poeta, que estimulado o dito fez o seguinte

Por Gregório de Matos (1696)

Poema satírico atribuído a Gregório de Matos, provavelmente composto na Bahia no final do século XVII. Transmitido por manuscritos coloniais e editado apenas em compilações modernas, reage à influência do deão André Gomes Caveira, que teria provocado o prelado contra o poeta.

MOTE

O mundo vai-se acabando,

cada qual olhe por si,

porque dizem, que anda aqui

uma Caveira falando.


Chegou o nosso Prelado

tão galhardo, e tão luzido,

tão douro, e esclarecido,

tão nobre, e tão ilustrado,

e não houve Prebendado,

que para o ir enganando

se lhe não fosse chegando;

mas só Caveira asnaval

é, quem co Prelado val:

O mundo vai-se acabando.


Como não há de acabar-se,

se uma Caveira tão feia

ao Prelado galanteia

a risco de enamorar-se!

onde se viu galantear-se

o roxete carmesi

pela caveira de Heli?

não é mentira, é verdade;

pois para seguridade

cada qual olhe por si.


Olhe por si cada qual,

e não se dêem por seguros,

sabendo, que anda extramuros

esta Caveira infernal:

ela anda pelo arrebal,

e dacolá para aqui,

eu por mil partes a vi:

o leigo, o frade, e o monge

não a imaginem de longe,

Porque dizem, que anda aqui.


Aqui anda, e aqui está

rosnando sempre entre nós,

Deão com cara de algoz,

e pertensões de Bispá:

ele é, o que os pontos dá,

e os vícios vai acusando

com zelo torpe, e nefando,

com que nos bota a perder:

porque quem não há de crer

Uma Caveira falando.

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