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#Sátiras#Literatura Brasileira

Obrigados os ordenandos a cantar o canto-chão desafinaram perturbados à vista do prelado, e os obrigou a que estudassem os sete signos. Celebra o poeta este caso, e louva a prédica que fez sua ilustríssima

Por Gregório de Matos (1696)

Poema satírico-elogioso atribuído a Gregório de Matos, provavelmente composto na Bahia no fim do século XVII. Preservado apenas em manuscritos e publicado tardiamente em edições críticas, narra com humor o episódio em que ordenandos desafinam diante do prelado e recebem admoestação exemplar.

Senhor; os Padres daqui

por b quadro, e por b mol

cantam bem ré mi fá sol,

cantam mal lá sol fá mi:

a razão, que eu nisto ouvi,

e tenho para vos dar,

é, que como no ordenar

fazem tanto por luzir,

cantam bem para subir,

cantam mal para baixar.


Porém como cantariam

os pobres perante vós?

tão bem cantariam sós,

quão mal, onde vos ouviam:

quando o fabordão erguiam

cad'um parece, que berra,

e se um dissona, o outro erra,

mui justo me pareceu,

que sempre à vista do Céu

fique abatido, o que é terra.


Os Padres cantaram mal

como está já pressuposto,

e inda assim vos deram gosto,

que eu vi no riso o sinal.

foi-se logo cada qual

direito às suas pousadas

a estudar nas tabuadas

da música os sete signos,

não por cantar a Deus hinos,

mas por vos dar badaladas.


Vós com voz tão doce, e grata

enleastes meus sentidos,

que ficaram meus ouvidos,

engastados nessa prata:

tanto o povo se desata

ouvindo os vossos espíritos!

que com laudatórios gritos

dou eu fé, que uma Donzela

disse, qual outra Marcela,

o cântico Beneditos.

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