Por Ronaldo Martins
05/08/2026
A diversidade linguística mundial atingiu seu ponto máximo entre 3 mil e 1 mil anos atrás, quando a humanidade pode ter falado dezenas de milhares de línguas, segundo estudo publicado na revista Science. A pesquisa indica que a redução do número de idiomas começou antes da expansão colonial europeia e esteve associada ao surgimento de grandes Estados e impérios.
A humanidade pode ter vivido uma "idade de ouro" da diversidade linguística entre 3 mil e 1 mil anos atrás, período em que eram faladas dezenas de milhares de línguas em todo o mundo. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Science por uma equipe internacional liderada por Damián E. Blasi, da Instituição Catalã de Pesquisa e Estudos Avançados (ICREA), com a participação de pesquisadores da Universidade Yale, da Universidade do Texas em San Antonio e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva.
Como não existem registros diretos sobre o número de línguas faladas antes do surgimento da escrita, os pesquisadores combinaram dados etnográficos, estimativas da população humana ao longo dos últimos 12 mil anos e modelos estatísticos para reconstruir a evolução da diversidade linguística durante o Holoceno. O modelo utilizou informações de 171 sociedades contemporâneas de caçadores-coletores e pescadores como referência para estimar a distribuição das comunidades linguísticas no início desse período.
Segundo o estudo, havia aproximadamente entre 4.500 e 6.200 línguas há cerca de 12 mil anos. Com o crescimento populacional e a expansão da agricultura, a diversidade linguística aumentou gradualmente e alcançou um pico entre 3 mil e 1 mil anos atrás, quando o número de línguas pode ter variado entre cerca de 30 mil e mais de 75 mil.
Os pesquisadores afirmam que esse período foi seguido por uma redução acelerada da diversidade linguística. A análise indica que o processo começou com a expansão de grandes Estados e impérios da Antiguidade, que difundiram suas línguas e incorporaram ou substituíram comunidades menores. A colonização europeia, nos últimos cinco séculos, intensificou essa tendência, mas não teria sido sua causa inicial.
Para a professora Claire Bowern, da Universidade Yale e uma das autoras do estudo, as línguas preservam informações sobre a história das populações humanas, seus deslocamentos e suas formas de organização social. Segundo os pesquisadores, compreender a perda histórica da diversidade linguística também contribui para avaliar os riscos enfrentados pelas línguas ameaçadas de extinção na atualidade.
Atualmente, são faladas ou sinalizadas cerca de 7.500 línguas no mundo. De acordo com os autores, esse conjunto representa apenas uma pequena parcela da diversidade linguística que existiu ao longo da história humana e constitui uma amostra moldada por processos históricos de expansão, substituição e desaparecimento de línguas.