Por Ronaldo Martins
05/08/2025
Pesquisadores do Brasil e da Alemanha estão desenvolvendo um aplicativo inspirado no Duolingo para promover o ensino e a revitalização de línguas indígenas ameaçadas de extinção. Testado em comunidades de Rondônia e Mato Grosso, o projeto une tecnologia, participação indígena e inteligência artificial, com lançamento previsto para o próximo ano.
Um projeto inovador está ganhando forma entre pesquisadores brasileiros e alemães com o objetivo de revitalizar línguas indígenas em risco de extinção. Inspirado em aplicativos de ensino de idiomas como o Duolingo, o BILingo — nome provisório que faz referência às Línguas Indígenas Brasileiras (Brazilian Indigenous Languages) — está sendo desenvolvido em parceria com comunidades indígenas de Rondônia e Mato Grosso e com o uso de inteligência artificial.
Sem fins lucrativos, o projeto é conduzido por Fabrício Gerardi, da Universidade de Tübingen (Alemanha), e Gustavo Polleti, da Universidade de São Paulo (USP). A proposta é criar uma ferramenta gratuita, gamificada e culturalmente sensível que ajude na preservação de idiomas nativos, a começar pelas línguas bororo e makurap.
"O layout é nosso, mas o conteúdo vem das comunidades", explica Gerardi. "Acreditamos que seja uma iniciativa inédita em termos de volume de dados e intensidade de colaboração com povos indígenas."
O Brasil já teve cerca de 1.200 línguas indígenas antes da colonização europeia. Hoje, segundo o IBGE, restam 274. A Unesco contabiliza 190 sob risco de extinção. Parte da perda linguística se deve a políticas de assimilação, como as promovidas por missões religiosas e pelo próprio Estado brasileiro, que proibiram o uso de línguas nativas nas escolas.
Na Terra Indígena Rio Branco, em Rondônia, a jovem Jéssica Makurap, de 24 anos, é uma das muitas pessoas que não dominam a língua ancestral de seu povo. "Meus pais e avós falavam em português comigo por medo de discriminação. Agora quero aprender, e o aplicativo vai ajudar muito", diz.
Para criar uma base linguística sólida, o projeto utiliza diversas fontes: relatos de anciãos, livros, pesquisas acadêmicas, gravações de áudio, e até leituras bíblicas feitas por missionários no passado.
O BILingo se baseia em tarefas curtas e lúdicas — como traduções, associação de imagens e áudios — para ensinar o idioma. Os dados são organizados com o auxílio de IA, que preenche lacunas em registros incompletos. “A IA permite que os falantes nativos se concentrem em revisar materiais, em vez de criá-los do zero”, explica Polleti.
Para os bororo, por exemplo, já foram geradas cerca de 60 mil frases a partir de recursos linguísticos e etnográficos. Também estão sendo digitalizados cantos, mitos, vídeos de festas, nomes de plantas e animais. Todo o conteúdo é validado por membros das comunidades antes de ser disponibilizado.
Na Terra Indígena Meruri, no Mato Grosso, o professor indígena Mariel Kujiboekureu lidera os esforços de alimentação da base de dados bororo. "A maioria da comunidade não fala mais a língua. Estamos lutando por ela e precisamos de parceiros", afirma.
A iniciativa é acompanhada por pesquisadores como Fernando O. de Carvalho, do Museu Nacional, e Carolina Aragon, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que ressaltam a importância de respeitar as decisões das comunidades envolvidas e garantir que o projeto não reproduza práticas extrativistas.
Eventos de formação pedagógica já foram realizados em Cuiabá com professores bororo. O objetivo é tornar viável a criação de materiais didáticos mesmo na ausência de linguistas especializados — um problema frequente no ensino de línguas indígenas.
A versão offline do app está em desenvolvimento para atender comunidades com pouca ou nenhuma conexão à internet. Além disso, está em discussão a expansão para novas línguas e regiões, de acordo com o interesse e disponibilidade das comunidades.
Em julho, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) passou a integrar a Coalizão para a Diversidade Linguística em Inteligência Artificial, iniciativa da Unesco que propõe diretrizes para que tecnologias de IA respeitem e promovam línguas indígenas.
"Essa inclusão precisa ser decidida pelas próprias comunidades, de forma informada e autônoma", afirmou o servidor da Funai Cleuber Amaro em painel na Tailândia. "Sem isso, corremos o risco de repetir lógicas extrativistas sob nova roupagem."
Segundo a Unesco, 40% das 7 mil línguas faladas no mundo estão ameaçadas, e a maioria delas é indígena. Uma língua desaparece a cada duas semanas.
"A língua é a identidade de um povo", resume Carolina Aragon. "Ouvir uma história em sua língua ancestral é uma experiência completamente diferente de ouvir em português. É uma forma de reconexão com as raízes."