Por Ronaldo Martins
16/06/2026
Uma pesquisa da Universidade Chinesa de Hong Kong, publicada na revista JNeurosci, revelou que a capacidade de adultos aprenderem uma nova língua está diretamente ligada a estruturas cerebrais externas à rede tradicional da linguagem. Ao monitorar 101 indivíduos, o cientista Gangyi Feng e sua equipe constataram que a eficiência e a velocidade do aprendizado são preditas, majoritariamente, pela organização prévia das redes de atenção e de controle cognitivo do cérebro.
A variabilidade na aptidão de adultos para dominar um segundo idioma sempre foi um tema de debate na ciência do comportamento e na educação. Enquanto algumas pessoas demonstram facilidade para assimilar regras gramaticais e fonemas inéditos tardiamente na vida, outras enfrentam barreiras severas de proficiência. Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Chinesa de Hong Kong (CUHK) oferece uma explicação neurobiológica para essa assimetria, comprovando que o segredo do sucesso linguístico em fases mais maduras do desenvolvimento pode residir em sistemas cerebrais voltados ao foco e à gestão cognitiva.
O trabalho, liderado pelo professor associado Gangyi Feng e publicado no periódico científico JNeurosci, investigou de forma minuciosa a arquitetura cerebral de um grupo composto por 101 participantes adultos. O objetivo principal do desenho experimental consistia em mapear as flutuações e diferenças individuais na organização das redes neurais e avaliar se essas características estruturais de base conseguiriam prever o desempenho dos voluntários durante o processo de aprendizagem de uma nova língua.
Para alcançar os resultados, a equipe de Hong Kong submeteu os participantes a exames de neuroimagem por ressonância magnética funcional (fMRI) antes do início das atividades pedagógicas. Essa etapa inicial serviu para fixar uma espécie de "impressão digital" da conectividade neural de cada indivíduo em seu estado basal. Posteriormente, os voluntários passaram por um programa de treinamento linguístico prático focado na absorção de um novo sistema de fala e vocabulário, com a aplicação sistemática de retornos corretivos para medir a evolução de cada estudante.
Ao cruzar os dados comportamentais obtidos após as sessões de treinamento com os escaneamentos cerebrais estruturais coletados no início do experimento, os cientistas conseguiram isolar marcadores específicos de conectividade. A análise estatística revelou que os indicadores mais robustos para mensurar tanto a rapidez quanto a qualidade do aprendizado não estavam confinados às áreas cerebrais historicamente associadas às funções de fala e compreensão linguística. Em vez disso, o sucesso dos estudantes apresentou correlação direta e estreita com a eficiência das conexões situadas nas redes de atenção e de controle cognitivo.
Os dados técnicos indicam que as estruturas responsáveis por gerenciar o foco, filtrar estímulos externos e alternar entre tarefas cognitivas complexas atuam como uma fundação necessária para que o cérebro adulto processe e consolide um código linguístico inteiramente novo. A pesquisa aponta que, embora a rede tradicional de linguagem seja acionada no uso cotidiano do idioma nativo, o esforço adaptativo demandado pela introdução de uma nova gramática e fonética na idade adulta exige o recrutamento massivo desses sistemas de suporte executivo.
Os autores do estudo destacam que as conclusões abrem caminhos para o desenvolvimento de estratégias pedagógicas personalizadas. Ao compreender as condições neurais subjacentes que favorecem a assimilação de conteúdo, torna-se viável delinear intervenções educacionais e metodologias de treinamento adaptadas ao perfil de conectividade de cada estudante, maximizando o aproveitamento do ensino de línguas estrangeiras para adultos.
De acordo com as considerações dos pesquisadores, as evidências coletadas não sugerem que a capacidade humana de aprender línguas seja predeterminada ou imutável. Feng ressalta em suas declarações que o mapeamento desses marcadores serve para esclarecer os motivos pelos quais certas metodologias de ensino geram resultados amplamente distintos a depender do indivíduo. A maleabilidade e a plasticidade das redes cerebrais indicam que tais conexões podem ser estimuladas e reorganizadas continuamente por meio de práticas direcionadas, reforçando o papel do treinamento cognitivo contínuo ao longo da vida.