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#Notícias#Psicolinguística

Mudança linguística na Ucrânia não altera imediatamente a forma de pensar, aponta estudo

Por Pedro Simões

17/05/2026

Após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022, milhões de ucranianos passaram a usar mais o idioma ucraniano no cotidiano, abandonando parcialmente o russo. No entanto, um novo estudo sugere que mudar a língua falada não significa necessariamente mudar percepções profundas e inconscientes moldadas ao longo da vida.

De fato, a Ucrânia é um país bilíngue, com o leste tendendo a usar mais russo, e o oeste, ucraniano, enquanto o centro tendia a ser bilíngue. Mesmo assim, depois da guerra, por razões políticas uma parcela cada vez maior da população escolhe falar ucraniano, mesmo que o russo não tenha desaparecido completamente. Além disso, uma parcela da população fala o surzhik, que é uma mistura informal das duas línguas, como resultado do contato linguístico por gerações.

A pesquisa foi conduzida pela linguista Oleksandra Osypenko, da Lancaster University, e analisou como falantes bilíngues de ucraniano e russo percebem objetos associados a gêneros gramaticais diferentes nas duas línguas. Em russo, por exemplo, a palavra “meia” é masculina; em ucraniano, feminina.

Os pesquisadores descobriram que pessoas com maior domínio do russo continuavam apresentando padrões cognitivos ligados ao idioma russo, mesmo quando afirmavam usar mais o ucraniano no dia a dia. Segundo o estudo, isso sugere que a língua aprendida profundamente ao longo da vida continua influenciando a percepção do mundo de maneira inconsciente.

A mudança linguística na Ucrânia se intensificou desde o início da guerra. Ruas foram renomeadas, estátuas de figuras russas removidas e livros em russo perderam espaço em várias cidades do país. Pesquisas anteriores já haviam mostrado um aumento significativo do uso do ucraniano desde 2022.

O debate sobre idioma também possui forte dimensão política. O governo ucraniano aprovou, em 2019, uma lei que ampliou o uso obrigatório do ucraniano em setores públicos, educação, mídia e serviços. A medida foi defendida como parte da afirmação da identidade nacional, mas também gerou críticas e tensões em comunidades historicamente russófonas.

Segundo os autores, os resultados indicam que políticas linguísticas formais podem não ser suficientes para alterar percepções culturais profundamente enraizadas. As mudanças mais profundas parecem ocorrer em contextos íntimos e emocionais, como conversas em família e entre amigos

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