Por Ronaldo Martins
08/04/2026
Pesquisadores da Universidade de Tel Aviv e da Universidade de Ariel desenvolveram um modelo de inteligência artificial capaz de traduzir instantaneamente textos em acadiano antigo para o inglês. O avanço permite que milhares de registros históricos, antes inacessíveis por falta de especialistas, revelem agora detalhes da vida administrativa e pessoal na antiga Mesopotâmia.
A tecnologia foca na escrita cuneiforme gravada em tabletes de argila datados de até 2.500 a.C., funcionando de maneira semelhante ao Google Tradutor. O projeto utiliza redes neurais de tradução automática para processar símbolos cuneiformes que foram digitalizados a partir de relíquias encontradas em sítios arqueológicos no atual Iraque. Diferente das traduções manuais, que exigem décadas de estudo e são extremamente morosas, a inteligência artificial consegue identificar padrões em caracteres fragmentados ou desgastados pelo tempo. Os resultados iniciais demonstram uma precisão surpreendente em textos burocráticos, como registros de impostos, inventários reais e o que os arqueólogos chamam de e-mails da antiguidade: correspondências rápidas entre mercadores e governantes sobre o cotidiano da região.
A importância desta ferramenta reside na vasta quantidade de material não traduzido armazenado em museus ao redor do mundo. Estima-se que existam centenas de milhares de tabletes de argila aguardando análise, superando em muito o número de assiriólogos qualificados para o trabalho. Ao automatizar a transcrição e a tradução, a IA retira o véu de silêncio sobre registros que tratam de disputas legais, receitas culinárias e até queixas de consumidores, proporcionando uma visão sem precedentes sobre a estrutura social das primeiras civilizações complexas da humanidade.
Apesar da eficiência nos textos administrativos, os pesquisadores observam que a tecnologia ainda enfrenta desafios com gêneros literários e poéticos, onde a nuance e a metáfora exigem uma interpretação humana mais profunda. No entanto, a capacidade de converter sinais visuais em texto compreensível em larga escala está mudando o paradigma da arqueologia digital. A próxima fase do estudo pretende expandir o vocabulário do modelo para incluir outros dialetos da região, consolidando a inteligência artificial como o principal elo de comunicação entre a modernidade e os registros perdidos dos povos sumérios e babilônios.