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#Biografias#Literatura Brasileira

Mano

Por Coelho Neto (1924)

“Mano” apresenta um relato marcado pela dor e pela saudade, no qual o autor relembra a vida de seu filho Emmanuel. A obra combina elementos biográficos e emocionais, destacando sua trajetória, virtudes e morte precoce, transformando a escrita em um gesto de luto e homenagem, profundamente sensível e pessoal.

A INSPIRAÇÃO DO LIVRO

Tendo perdido os primeiros filhos, que foram tantos quantos os que sobreviveram, “como se a Vida apostasse com a Morte em lhe não ceder uma só vitória, tirando de cada túmulo uma ressurreição”, Coelho Netto desistiu do aperreado sistema, tão mal sucedido, de encerrar e atabafar em lãs os pequeninos, decidindo-se pelo da liberdade e dos exercícios físicos. E os outros sete medraram. Emmanuel, o Mano, era o mais velho. Robusto, culto, modesto e bom, ele simbolizava o tipo de atleta perfeito que Coelho Netto, sempre eqüidistante das competições partidárias, idealizou na sua campanha pelo aprimoramento da juventude brasileira.

No Fluminense Football Club, Mano integrou o mais famoso conjunto de amadores da história do football carioca, conquistando o tri-campeonato da cidade em 1917-1918-1919. Sua morte, em conseqüência de séria contusão que sofreu num jogo do Fluminense, ocorreu a 30 de Setembro de 1922, quando contava 24 anos de idade.

Depois da maior desgraça da sua vida, Coelho Netto, como forçado das letras, tendo de escrever sem cessar para manter a subsistência da família, quando tomava lugar à mesa, para começar o trabalho diário, só trazia um pensamento:

“Falando ou escrevendo esquecem-me as expressões, faltam-me os termos. Só tu ficaste, tu só, tudo mais se esvaiu”.

E, procurando derivativo sua imensa desventura, fez da pena um rosário e desfiou em lágrimas, dia a dia, o Livro da Saudade – “Mano”.

Paulo Coelho Netto

Setembro de 1956

CAPELAS

Ele era bom. Tinha a serenidade dos fortes. A juventude do seu corpo de atleta guardava uma alma antiga, de orgulhosa origem, mas sempre alegre por perdoar e esquecer. Nunca lhe saiu da boca uma queixa. Acostumara os lábios ao ritmo do louvor.

Sabia admirar. Sabia amar.

Mano!

Quem o apelidou assim, de pequenino, adivinhou que, depois de grande, quando olhasse, de olhos abertos, a vida, havia de ser o que foi: o irmão... o Mano, mais moço ou mais velho, dos outros homens que o conheceram, os amigos da sua intimidade e aqueles que, junto de Coelho Netto e da companheira admirável desse nobre artista, aprenderam o culto da beleza e da bondade.

Álvaro Moreyra.

ÚLTIMA VITÓRIA

Era uma forte e meiga criatura,

Alma infantil em corpo de gigante;

E n'arena o julgáreis sempre ovante,

Da Grécia antiga olímpica figura.

Mas como cá na terra a desventura

Apunhala o valor a cada instante,

Chega-se a Morte ao moço triunfante

P'ra tocá-lo co'a ponta d'asa escura.

Preces da aflita mãe, que a dor crucia,

Prantos do pobre pai, que era um poeta,

Tudo o supremo transe lhe angustia.

Mas tinha o lutador crenças de asceta,

Rompe-se em luz o nimbo da agonia...

Sorri... Mais uma vez vencera o atleta.

Carlos de Laet

A MORTE DO SOL

A Coelho Netto

Rubro clarão no poente...

Desce abrasado o Sol... Por um momento,

Dir-se-ia

Que em sua marcha lenta se detém...

Contempla, a última vez, no firmamento

A estrada percorrida, desde o Oriente,

Numa larga passagem triunfal.

Vai mergulhar no Além,

Penetrar na Agonia,

Perder-se no seu próprio sangue - a Luz...

Sabe que vai morrer... Olha o declive

Que ao túmulo conduz;

Lança depois o último olhar

De saudade final

Sobre a terra distante, sobre o mar,

E rola no horizonte... - É a noite que se eleva...

É a Treva.

Parece que na terra nada vive,

Nada existe

Tudo se esvaiu: a forma, a cor,

Que são a alma das coisas no Universo...

Tudo agora é diverso

No cenário do mundo

Que vai viver sem luz e sem calor.

O sol partiu e o céu, pálido e triste,

Tornou-se mais profundo.

Para que serve a treva? Que razão

A faz surgir assim, tão bruscamente,

Após a fulgurante luz do dia?

Por que a noite, senão para melhor

Destacar o fulgor

Longínquo das estrelas?

Por que a noite, senão

Para aos homens dizer que todas elas

São outros tantos sóis, iguais ao Sol

Que vemos apagar-se no ocidente

Para se erguer de novo no arrebol?

Sóis que não morrem, que desaparecem

Somente ao nosso olhar e, quando descem

No horizonte, à mesma hora da descida,

Que é apenas ilusória,

Estão surgindo em plena glória

E em plena vida

Para outras regiões do espaço infindo...

Porque tudo que é lindo,

Perfeito e forte

Não pode aniquilar-se pela morte.

A existência nos mostra cada dia

Que o fluido da Beleza ou da Energia

Jamais se exala

Para perder-se; apenas se transforma,

Se aperfeiçoa e sobe numa escala

Em que se purifica a essência ou a forma

Das coisas... Vida é apenas harmonia.

Só na aparência alguma coisa ofusca

Esta ascensão contínua. Nada existe

Que, em verdade, a perturbe e a morte não seria

A única exceção

Para a parada brusca

Na evolução fatal da Natureza.

O espírito da Força e da Beleza

Não se dilui: persiste,

Segue em demanda de outra perfeição,

E, se escapa a visão dos nossos olhos,

Deixa d'alma nos íntimos refolhos

Tênues fios de viva claridade

Que, pelo pensamento, e elas nos unem

Por todo o sempre e que, talvez, um dia

Nos servirão de guia

No mistério que envolve a Eternidade,

E onde, vestindo novas existências

As parcelas das coisas, nas essências

De um mesmo todo extinto, se reúnem...

- Por isto quando o Sol desaparece

E o clarão do seu rastro empalidece

(continua...)

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