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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

O conto “14 de julho na roça”, de Raul Pompeia, retrata com ironia e crítica social a tentativa de reproduzir, no ambiente rural brasileiro, a celebração da Revolução Francesa. A narrativa evidencia o contraste entre ideias europeias e a realidade local, expondo costumes, ingenuidades e contradições da sociedade da época.

14 de julho é a grande data. Ecoa na história com as mesmas vibrações que deve proferir sobre o mundo a trombeta de Josafá, em plena consumação dos séculos.

A Marselhesa é o gemido humano chamado às armas.

A queda da Bastilha é o pavoroso esboroamento do passado, batido pelo futuro.

A pirâmide da opressão tinha por base o grande cárcere e por vértice a coroa do rei; o povo devasta a pirâmide de alto a baixo; arrasa o alicerce, aniquila o píncaro.

Cai a Bastilha, morre Luís XVI.

Do cataclisma ergueu-se sangrenta a grande mão do direito humano saciado, e abriu os dedos sobre aquele caos, como as irradiações de uma estrela grandiosa e serena.

À luz deste sol, começou a desfilar a procissão dos séculos...

Curvado um dia sobre essas páginas épicas da lenda das gerações, inclinado à beira vertiginosa do báratro onde revoluteiam os fantasmas indistintos e medonhos daquele terremoto social, refletindo na humanidade e nos seus destinos, foi assim que o Dr. Salustiano da Cunha descobriu que era republicano.

Muito republicano; republicano de coração. De coração e de cérebro.

Um homem da época.

Na qualidade de Campineiro abastado e farto, tinha por si a força do ouro: o elemento moderno do poderio. No século XIX, mais do que nunca, o ouro é o metal dos cetros e das alavancas: só existe para o mando e para a força...

Ia-lhe próspera a fazenda. As suas vastíssimas terras sumiam-se, sob as ramas escuras dos cafezais, plantados em linha, através de infinitas colinas.

As canas formavam-se por milheiros ao longo das várzeas, imitando tudo respeitáveis fileiras de incógnita milícia. As folhas do canavial refletiam o sol, como se fosse o aço de cem mil baionetas; as plantações de milho sacudiam belicosamente os penachos roxos, como as insígnias gloriosas de um imenso estado-maior

Tudo ali estava perfilado e firme, como se faltasse apenas o grito de marcha, para os batalhões precipitarem-se...

O Dr. Salustiano, com as mãos nas cadeiras, por baixo do pala de brim, contemplava, ufano, aquele exército fantástico que tinha sob o seu comando absoluto e despótico.

O próprio céu parecia fugir para cima, com o seu azul e com as suas estrelas, amedrontado por aquelas hostes, mais arrogantes, sem dúvida, que as dos bárbaros do norte, que tinham lanças para escorar o próprio firmamento.

Era um homem forte, portanto, o nosso doutor.

Podia soltar gargalhadas às barbas da prepotência corruptora do rei; podia rebelar-se, como Lúcifer, e rir do paraíso perdido; podia gritar que viesse abaixo a tirania, e recusar um arqueamento da espinha à majestade sagrada do direito divino.

Viva a República!

A santa causa encontrava nele um pulso valente para o combate.

Cada golpe da sua durindana democrática e demolátrica seria uma vitória para o grande partido dos direitos do homem canonizados!

O Dr. Salustiano era entusiasta. Estava disposto a declarar guerra a tudo que não fosse democracia republicana. Só curvaria a fronte ante a aristocracia do talento.

Para isso verdejavam-lhe os cafezais pingues; para isso, o canavial afiava as folhas umas nas outras, como espadas, e o milho cabeceava empenachado como um marechal.

Daí vinha-lhe a força.

Não havia pois motivo para espanto, quando, por uma bela manhã, saindo o doutor a passeio, montado, como um príncipe, no soberbo alazão, foi impressionado por um fenômeno estranho.

Lembrava-se que a aurora fora mais rubra naquela madrugada; o sol nascera vitorioso no meio de uma explosão de sangue e de fogo; as nuvens se lhe haviam figurado momentos desmoronando-se. Todo o oriente parecera vibrar, abalado por uma tragédia titânica...

Agora, fato interessante, prescrutando os cantares do bosque, parecia-lhe que, das folhas frementes, choviam as notas aclarinadas da Marselhesa.

Ora o sabiá entoava heroicamente o solo do Allons enfants...

ora o coro da passarinhada replicava em tom de guerra:

Aux armes citoyens!...

Recomeçava o solo pungente do sabiá.

As árvores estremeciam.

As nuvens paravam para escutar.

Recomeçava o coro imponente. Parece que então a natureza inteira abria a boca para cantar. As notas graves vinham do horizonte, nascidas nas grotas ao longe, e vazadas sonoramente através de gargantas de pedra.

Que solenidade naquele conjunto! O alazão marchava como se cadenciasse o passo pela vasta orquestração da natureza.

O doutor extasiava-se.

Caminhava para diante, sorrindo e surpreso. A grande música seguia-o como um préstito invisível de sons guerreiros e formidáveis.

O Dr. Salustiano quase erguia-se sobre os estribos, para descobrir-se e urrar:

- Viva a República!

O coração pulava-lhe! O homem sentia que uma força, esquisita levantava-o acima da cavalgadura...

Vinte vezes quis soltar o brado; mas tinha medo.

Podia não ser entendido pela natureza e ficar sem resposta.

Quis entrar no coro. Já não se continha mais.

No primeiro aux armes citoyens!... ele meteu-se, e fez coro com os estranhos cantores daquela maravilhosa manhã.

(continua...)

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