Por José de Alencar (1875)
A cigana, porém, tinha desaparecido; e as falas que já se ouviam dos cavaleiros advertiram a Arnaldo que para salvar D. Flor não havia um instante a perder.
— Venha! disse êle para a donzela.
— Para onde?
— Para a casa.
— Quem é esta mulher? Que me queria ela?
— Entregá-la ao Marcos Fragoso.
O sertanejo abria a folhagem para que a donzela passasse mais facilmente; porém ainda assim era demorada a sua marcha. As vozes dos cavaleiros aproximavam-se e já entre elas distinguira o mancebo a de Fragoso. Entretanto ainda soavam longe os brados do capitão-mór e o tropel da gente da fazenda.
A poucos passos encontraram Jó, que os buscava:
— Estamos cercados, disse o velho.
Nova dificuldade surgia, e talvez que insuperável. O sítio onde crescia a gameleira fôra bem escolhido pela astuta cigana para a cilada que armara. Era uma coroa de mato, que ligava-se à floresta por estreito cordão, como istmo de ilha.
Distante da casa um quarto de légua, e encoberto por um largo bojo da mata, era fácil à escolta do Onofre cercar o caapoão, apoderar-se da donzela ainda quando a acompanhassem outras pessoas e executar a emprêsa, sem darem rebate à fazenda.
Arnaldo, conhecia melhor que ninguém o sítio, e julgou da posição de D. Flor. Não desesperou contudo. Êle e Jó levantariam com seu corpo uma muralha diante de D. Flor e a defenderiam até a chegada do capitão-mór.
Quando já indicava o grosso tronco de um jacarandá para que Flor nele se abrigasse, ressoaram perto daí os gritos abafados que soltava uma voz de mulher, simulando-se de D. Flor, e que iludiram o capitão-mór.
Sucederam-se por momentos êstes clamores, fugindo rapidamente para o lado da várzea, e acompanhados do tropel dos cavalos a galope. Foram, porém, abafados pelo grito do Campelo, ao que se seguiu um tiro.
Ao estrondo que estremecera a terra, o sertanejo reconheceu o bacamarte do capitão-mór, como lhe tinha reconhecido a voz, e adivinhou o que se passara.
Águeda escapando a Arnaldo correu direito ao encontro da escolta, guiada pelo tropel. Avistando Fragoso que vinha na frente com o Onofre, atirou-se a êles:
— O maldito vaqueiro chegou quandoeu ia arrastá-la, e o capitão-mór aí vem! disse precipitadamente, apontando para a fazenda.
Onofre calculou o lance; era nos transes apertados que mostrava o coriboca seus recursos. Já êle tinha chamado o Corrimboque e dava-lhe suas ordens; depois voltou-se para a rapariga e em poucas palavras a pôs ao corrente do novo trama.
Águeda despiu a saia preta, envolvendo o corpo na capade D. Flor, e saltou no arção da sela do Corrimboque. Êste a tomou nos braços e partiu a galope, seguido de três bandeiristas que lhe serviam de escolta.
Foi então que a astuta cigana, debatendo-se nos braços do cabra, conseguiu iludir com seus gritos ao capitão-mór levando-o após si, e deixando assim o Fragoso livre de estorvos.
Ouvindo esvaecer com a distância o estrépito das patas dos animais, Arnaldo que tinha adivinhado o ardil, convencera-se de que já não podia esperar o socorro do fazendeiro e só devia contar consigo.
Mas que podia êle só com um velho inerme contra tantos inimigos que os cercavam naquele instante, para colhê-los como nas malhas de uma rede?
O Onofre não se abalou com as impaciências do Fragoso. Deixando-o andar às tontas, estendeu a sua gente em roda do caapoão e com os melhores vaqueanos começou a bater o mato em regra, como sabem fazer os sertanejos, a quem não escapa um quatí entre as fôlhas.
Nestas circunstâncias, se Arnaldo tentasse sair do mato, cairia nas mãos dos que faziam o cêrco, ou mostrar-se-ia no limpo aos inimigos, que imediatamente se lançariam sôbre êle.
Ficando dentro do mato, como livrar-se da batida do Onofre e seus companheiros, cuja marcha convergente sentia-se no atrito das fôlhas que rumorejavam em todas as direções?
Estas circunstâncias tinham ocorrido simultaneamente e com tamanha rapidez, que entre o primeiro grito da Justa e aquele instante não mediara mais de um quarto de hora.
D. Flor impaciente quisera correr ao encontro do pai, quando lhe ouviu a voz. Jó a reteve explicando-lhe a causa do tiro, bem como da partida precipitada do capitão-mór. A donzela teve então um momento de desânimo.
— Estou perdida! murmurou.
— Ainda não! respondeu Arnaldo de manso. Mas suas mãos não podem romper o mato; é preciso que eu a carregue, Flor.
— Não; prefiro ficar, disse a donzela secamente.
— Outros braços a levarão, mas para arracá-la à sua casa, e não para restituí-la a seu pai, que lá vai em sua procura. Que responderei ao sr. capitão-mór, quando êle pedir-me contas de sua filha?
Flor hesitou um momento: depois velou-se de uma fria impassibilidade, fez-se estátua, e caminhou para o sertanejo.
— Leve-me a meu pai.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.