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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

A êsse tempo chegava D. Genoveva montada a-cavalo, e acompanhada de pagens que traziam o ruço, assim como de toda a gente que pôde armar às pressas para correr em socorro da filha. Nesse momento ela não gritava; as lágrimas saltavam-lhe dos olhos, os lábios moviam-se rezando, mas sua atenção acudia a tudo com ânimo varonil. 

Campelo montou no ruço, e partiram êle, a mulher e a escolta como um turbilhão. 

O raptor de sua filha levava grande avanço; mas o capitão-mór não refletia nesse momento. Era impossível que êsse homem lhe escapasse; êle o perseguiria até o inferno, e lá mesmo o deixaria estraçalhado por suas mãos depois de ter-lhe arrancado Flor. 

Os possantes cavalos do fazendeiro ganhavam sôbre os fugitivos, embora, êstes montassem excelentes poldros dos sertões de Inhamuns, tão afamados entre todos os do Ceará. Mas estavam êstes ainda fatigados da jornada, enquanto que os de Quixeramobim andavam repousados. 

Já era noite, quando o capitão-mór avistou afinal o vulto negro do cavaleiro: e ferrando as esporas no ruço, atroou os ares com um grito medonho. 

Respondeu-lhe uma voz de mulher cujas palavras se ouviram distintamente. 

— Salve-me, sr. capitão-mór, pelo bem que quer à sua filha! Salve-me, e a D. Flor também, que lá ficou nas mãos do Fragoso! 

— Esta voz não é de Flor, disse o capitão-mór. 

— É da Águeda! exclamou D. Genoveva. Então nossa filha?… Nós a desamparámos, sr. Campelo!… 

A voz era efectivamente de Águeda, ou antes, da Rosinha, que temendo cair nas mãos do capitão-mór, usara daquele novo ardil para sustar a perseguição. 

Campelo tinha estacado o cavalo, e não sabia que resolvesse. Foi D. Genoveva que tomou o alvitre de retroceder; o marido acompanhou-a sem hesitação. 

Onde, pois, estava Flor, àquela hora, quando seu pai, julgando correr em sua defesa, ao contrário a abandonava? 

É preciso tomar a narração de mais alto. 

D. Flor conversava mui tranquilamente com Águeda à sombra da gameleira, onde as deixámos sentadas, quando ouviram-se os gritos da Justa. 

Embora pela distância não pudesse distinguir as palavras, conhecera a voz que pareceu-lhe alterada e aflita. Ergueu-se inquieta: 

— Vamos, D. Águeda! 

— Já? Podíamos esperar um instante. Sinto-me tão fatigada! 

— Estou ouvindo a voz de mamãe Justa! Não sei o que terá acontecido em casa. 

— Que pode ser?… A voz, eu ouço; mas é de uma pessoa que está cantando. 

Flor aplicou o ouvido para ver se enganara-se; e desta vez escutou não só os gritos da ama, como o alarido que se levantava na fazenda, e as vozes que chamavam pelo capitão-mór. Então realmente assustada, fez um gesto à viúva e lançou-se na direção da casa. 

Águeda, porém, abraçara-se com ela: 

— Daquí não sai! 

— Não me toque, senhora, disse a moça revoltada. 

— Oh! Pode zangar-se, que eu não faço caso de suas fidalguias. Está em meu poder, e daquí ninguém a tira. Ouve? São cavaleiros a galopar; não tardam aí. À frente deles há de vir o Fragoso, seu namorado! 

— Não sairei daquí, mulher, juro; mas não me ponha as mãos e não me insulte. 

Falou Flor com tal império e soberania, que a cigana calou-se, e recolhendo os braços deixou livre a donzela, mas tomou-lhe o passo, pronta a segurá-la, se quisesse fugir. 

Flor sentou-se resignada, tendo por maior desgôsto o de lutar com essa mulher, do que o do perigo que a ameaçava. Nesse momento seu espírito nobre e cândido enleava-se em suposições acêrca dos acontecimentos extraordinários que a vinham surpreender. 

Rosinha alerta e escutando ansiosa o tropel dos cavaleiros, como se os apressasse com seu anelo, voltou-se inquieta para o lado da casa, onde troou nesse momento a voz possante do capitãomór Campelo, bradando: 

— Meu bacamarte, D. Genoveva! O Jacaré!… 

Então a cigana temendo que o fazendeiro acudisse a tempo de livrar a filha das garras do Fragoso, correu sôbre a donzela, travou-lhe do pulso, e quis arrastá-la ao encontro do trôço de cavaleiros. 

A donzela recalcou a indignação que sublevava-lhe a alma nobre, e opôs à fôrça uma resistência passiva. Rosinha era mais robusta do que ela, mas nesse dia, prostrada como estava, não podia levá-la por violência. 

Metendo a mão no corpete, sacou a cigana um punhalzinho da lâmina fina, como a aspa de um espartilho, e o brandiu sôbre a cabeça da donzela: 

— Se não me acompanha, mato-a! 

D. Flor respondeu-lhe com um soberbo gesto de desprêzo, e ficou a olhar desdenhosamente para a arma que a ameaçava. A cigana hesitou um instante; depois lembrou-se que ferindo a donzela, mais facilmente a arrastaria para o mato. 

Quando o punhal descia sôbre a espádua de Flor, abriu-se a folhagem e surgiu Arnaldo. Tão medonho era seu aspecto que a cigana ao vê-lo crescer para ela, fugiu espavorida, levando enleada no braço a capa da donzela. 

O sertanejo com a faca desembainhada arrojou-se a ela, mas a voz de D. Flor o deteve: 

— Não a mate, Arnaldo! Agarre-a para que meu pai a castigue. 

(continua...)

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