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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Sossegue. Aquí está em segurança! respondeu o mancebo. 

— O velho já ameaçou-me! 

— Atreveu-se? disse o sertanejo com um grito de ameaça. 

— Ah! eu lhe suplico, Arnaldo! tornou a moça, lançando-lhe os braços aos ombros. Não lhe faça mal, seria perder-me! 

E Águeda reclinou a cabeça ao seio do sertanejo. Houve um instante de silêncio em que ela ouviu as pulsações violentas dêsse coração indômito, que parecia estalar antes do que render-se. 

A moça ergueu a fronte e mostrou o formoso rosto banhado de lágrimas e sorrisos. 

— Não se lembra de mim, Arnaldo?… Nem sequer me viu, embora tivesse os olhos postos em mim, disse com um suspiro. 

— Onde? perguntou o mancebo surpreso. 

— No Icó. Quando esteve lá há dois anos. Eu o vi, Arnaldo, e desde êsse momento sentí que não era mais senhora de mim. Infeliz sina a das mulheres! Os homens ainda quando não são queridos, têm o consôlo de seguir aquela a quem amam. Nós, porém, se roubam-nos o coração, não podemos ir após êle. Casaram-me à fôrça! 

A emoção embargou a voz de Águeda, que depois de breve pausa continuou: 

— A sorte me trouxe à Oiticica, onde havia de encontrá-lo, Arnaldo, para amparar-me contra o meu perseguidor. 

— Não receie, que a defenderei. 

— Ao seu lado nada receio, Arnaldo. Desde muito que eu lhe pertenço. Quer uma prova? 

Exija! 

Águeda ficou suspensa, fascinando com o olhar ao mancebo, que a fitava alucinado. 

— Fale!… murmurou ao ouvido de Arnaldo, unindo o seu ao rosto dele. Que prova quer? 

Um beijo?… 

E descaíu languidamente a cabeça de modo que a bôca apinhada, roçando pela face do mancebo, veio embeber-se em seus lábios. 

Ao contacto dêsse beijo ardente Arnaldo estremecera, como se visse erguer-se diante dele uma serpente, a cuspir-lhe no rosto sua baba impura. Recuou soltando um rugido surdo, e as mãos ambas impelidas por um instintivo movimento de horror, foram cerrar-se no colo da moça. 

Por algum tempo o mancebo permaneceu na mesma posição, com o corpo imóvel, os braços hirtos como os braços da fôrca, os olhos fechados, sentindo nas mãos as retrações convulsivas da mísera mulher as quais êle tomava pelo colear da serpente. As vascas da agonia indicavam-lhe que o réptil ainda vivia, e êle esperava. 

Êsse pesadelo o dominou de tal modo que fugiu-lhe a lembrança do lugar onde se achava e dos fatos que se haviam passado momentos antes. 

Afinal abriu as pálpebras; e viu espavorido que tinha nas mãos a infeliz mulher, com os olhos esbugalhados e a língua saída pela bôca escâncara. Rangerm-lhe os dentes de frio, e das mãos trêmulas escapou o corpo que rolou pelo chão. 

De um pulo ganhou o mancebo a janela e desapareceu. 

No dia seguinte, ao chegar de sua jornada, Jó encontrou o sertanejo espojado no chão da caverna, falou-lhe, mas êle fitou os olhos e não respondeu. Era a alucinação que durava ainda. A mesma cena da noite debuxava-se em sua alma com formas estupendas e monstruosas. 

O velho conhecia estas procelas d’alma; e sabia que, à semelhança das outras que conturbam os elementos, elas só passam quando o céu descarrega os vapores de que estão pejadas as nuvens. 

Jó deixou, portanto, Arnaldo ao seu delírio e submergiu-se no passado, onde vivia mais do que no presente, êle que já não tinha futuro. 

Decorreram as horas. Era já sobretarde, quando sentiu-se na caverna uma ligeira vibração. Jó e Arnaldo ergueram a cabeça de chofre, e olharam-se. Ambos por um simultâneo movimento deitaram-se no chão e escutaram. 

— Cavalos! disse Jó. 

— Montados,a crescentou Arnaldo. 

— Trinta. 

— Eu contei trinta e um. 

— Teu ouvido é melhor. 

— Uma escolta a galope!… 

Proferindo estas palavras, Arnaldo saíu da caverna seguido pelo velho. 

Sua primeira idéia foi que Marcos Fragoso voltava para atacar a Oiticica; mas o número dos cavaleiros que se aproximavam o dissuadiu dessa idéia. 

 

XVI – O fojo 

 

Às sete horas da manhã, D. Flor notando a aus~encia de Águeda, que tinha por costume acordar com a primeira claridade do dia, encaminhou-se para o aposento da viúva. 

O quarto ainda estava escuro. A donzela supôs que Águeda tivesse passado mal a noite e não quis incomodá-la. Mas à hora do almôço não a vendo aparecer, nem abrir-se a porta do aposento, assustou-se e foi ter com a mãe. 

D. Genoveva acudiu logo; ao repetido bater, ouviu-se um ligeiro rumor, e pouco depois a voz da viúva, que arrastou-se até à porta e a abriu. 

Quando as mãos de Arnaldo afrouxaram deixando rolar pelo chão o corpo da cigana, ainda esta respirava, embora pouco faltasse para exalar o último alento. 

Por algum tempo ficou prostrada e sem acôrdo, como um cadáver; mas aos poucos o ar penetrou nos pulmões, restabeleceu-se a respiração; e ela caíu no torpor de que a veio tirar a dona da casa, assustada com um sono tão prolongado. 

(continua...)

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