Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Ouça-me; desejo que em um dia remoto, quando refletir sobre este acontecimento, me restitua uma parte da sua estima; nada mais. A sociedade no seio da qual me eduquei, fez de mim um homem à sua feição; o luxo dourava-me os vícios, e eu não via através da fascinação o materialismo a que eles me arrastavam. Habituei-me a considerar a riqueza como a primeira força viva da existência, e os exemplos ensinavam-me que o casamento era meio tão legítimo de adquiri-la, como a herança e qualquer honesta especulação. Entretanto assim, a senhora me teria achado inacessível à tentação, se logo depois que seu tutor procurou-me, não surgisse uma situação que aterrou-me. Não somente vi-me ameaçado da pobreza, e o que mais me afligia, da pobreza endividado, como achei-me o causador, embora involuntário, da infelicidade de minha irmã cujas economias eu havia consumido, e que ia perder um casamento por falta de enxoval. Ao mesmo tempo minha mãe, privada dos módicos recursos que meu pai lhe deixara, e de que eu tinha disposto imprevidentemente pensando que os poderia refazer mais tarde!... Tudo isto abateu-me. Não me defendo; eu devia resistir e lutar; nada justifica a abdicação da dignidade. Hoje saberia afrontar a adversidade, e ser homem; naquele tempo não era mais do que um ator de sala; sucumbi. Mas a senhora regenerou-me e o instrumento foi esse dinheiro. Eu lhe agradeço. 

Aurélia ouviu imóvel. Seixas concluiu: 

- Eis o que pretendia dizer-lhe antes de separarmo-nos para sempre. 

- Também eu desejo que não leve de mim uma suspeita injusta. Como sua mulher, não me defenderia; desde porém que já não somos nada um para o outro, tenho o direito de reclamar o respeito devido a uma senhora. 

Aurélia referiu sucintamente o que Eduardo Abreu fizera quando falecera D. Emília, e a resolução que ela tomara de salvá-lo do suicídio. 

- Eis a razão, por que chamei esse moço a minha casa. Seu segredo não me pertencia; e entre mim e o senhor não existia a comunidade que faz de duas almas uma. 

Aurélia reuniu o cheque e os maços de dinheiro que estavam sobre a mesa. 

- Este dinheiro é abençoado. Diz o senhor que ele o regenerou, e acaba de o restituir muito a propósito para realizar um pensamento de caridade e servir a outra regeneração. 

A moça abriu uma gaveta da escrivaninha e guardou nela os valores; depois do que bateu o tímpano; a mucama apareceu. 

- Permita-me, disse Aurélia e voltou-se para dar em voz baixa uma ordem à escrava. 

Esta acendeu o gás nas arandelas da câmara nupcial e retirou-se, enquanto Aurélia dizia ao marido, mostrando o aposento iluminado: 

- Não quero que erre o caminho. 

- Agora não há perigo. 

- Agora? repetiu a moça com um olhar que perturbou Seixas. 

Houve uma pausa. 

- Talvez a senhora para evitar a curiosidade pública, deseje um pretexto? 

- Para que? 

- A viagem à Europa seria o melhor. O paquete deve partir nestes quinze dias. Uma prescrição médica tudo explicará, a separação e a urgência. Mais tarde quando venham a saber, já não causará surpresa. 

Aurélia deixou perceber ligeira comoção. Entretanto foi com a voz firme que respondeu: 

- Desde que uma coisa se tem de fazer, o melhor é que se faça logo e sem evasivas. Fernando ergue-se de pronto: 

- Neste caso receba minhas despedidas. 

- Aurélia de seu lado erguera-se também para cortejar o marido.

- Adeus, senhora. Acredite... 

- Sem cumprimentos! atalhou a moça. Que poderíamos dizer um ao outro que já não fosse pensado por ambos?

- Tem razão. 

Seixas recuou um passo até o meio do aposento, e fez uma profunda cortesia, à qual Aurélia respondeu. Depois atravessou lentamente a câmara nupcial agora iluminada. 

Quando erguia o reposteiro ouviu a voz da mulher. 

- Um instante! disse Aurélia. 

- Chamou-me? 

- O passado está extinto. Este onze meses, não fomos nós que os vivemos, mas aqueles que se acabam de separar, e para sempre. Não sou mais sua mulher; o senhor já não é mais meu marido. Somos dois estranhos. Não é verdade? 

Seixas confirmou com a cabeça. 

- Pois bem, agora ajoelho-me eu a teus pés, Fernando, e suplico-te que aceites meu 

amor que nunca deixou de ser teu, ainda quando mais cruelmente ofendia-te. 

A moça travara das mão de Seixas e o levara arrebatadamente ao mesmo lugar onde cerca de um ano antes ela infligira ao mancebo ajoelhado a seus pés, a cruel afronta. 

- Aquela que te humilhou, aqui a tens abatida, no mesmo lugar onde ultrajou-te, nas iras de sua paixão. Aqui a tens implorando teu perdão e feliz porque te adora, como o senhor de sua alma. 

Seixas ergueu nos braços a formosa mulher, que ajoelhara a seus pés; os lábios de ambos se uniam já em férvido beijo, quando um pensamento funesto perpassou no espírito do marido. Ele afastou de si com um gesto grave a linda cabeça de Aurélia, iluminada por uma aurora de amor, e fitou nela o olhar repassado de profunda tristeza. 

- Não, Aurélia! Tua riqueza separou-nos para sempre. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...9091929394Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →