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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Mas os vinte mil cruzeiros, eu já os não possuía naquela ocasião, nem tinha onde havê-los. Em tais circunstâncias restavam duas alternativas; trair a obrigação estipulada, tornar-me um caloteiro; ou respeitar a fé do contrato e cumprir minha palavra. Apesar de conceito que lhe mereço, faça-me a justiça de acreditar que a primeira dessas alternativas, eu não a formulei senão para a repelir. O homem que se vende, pode depreciar-se; mas dispõe do que lhe pertence. Aquele que depois de vendido subtrai-se ao dono, rouba o alheio. Dessa infâmia isentei-me eu, aceitando o fato consumado que já não podia conjurar, e submetendo-me lealmente, com o maior escrúpulo, à vontade que eu reconhecera como lei, e à qual me alienara. Invoco sua consciência por mais severa que se mostre a meu respeito, estou certo que não me negará uma virtude: a fidelidade à minha palavra. 

- Não, senhor; cumpriu-a como um cavalheiro. 

- É o que desejei ouvir de sua boca antes de informá-la do motivo desta conferência. A quantia que me faltava há onze meses, na noite de seu casamento, eu a possuo finalmente. Tenho-a comigo; trago-a aqui nesta carteira, e com ela venho negociar o meu resgate. 

Estas palavras romperam dos lábios de Seixas com uma impetuosidade, que ele dificilmente pode conter. Como se elas lhe desoprimissem o peito de um peso grande, respirou vivamente, apertando com movimento sôfrego a carteira que tirara do bolso. 

Se não tivesse tão preocupado com a sua própria comoção, notaria de certo a percussão íntima que sofrera Aurélia, cujo talhe reclinado sobre o descanso da cadeira brandiu como a lâmina de uma mola de aço. 

No sobressalto que a agitou, levara à boca a folha de madre-pérola; os lindos dentes rangeram. 

Ao abrir a carteira, Seixas suspendeu o gesto. 

- Antes de concluir a negociação, devo revelar-lhe a origem deste dinheiro, para desvanecer qualquer suspeita de o ter eu obtido por seu crédito e como seu marido. Não, senhora, adquiri-o por mim exclusivamente; e para maior tranqüilidade de minha consciência provém de data anterior ao nosso casamento. Cerca de seis mil cruzeiros representam o produto de meus ordenados e das jóias e trastes, que apurei logo depois do cativeiro, pensando já na minha redenção. Ainda tinha muito que esperar e talvez me faltaria resignação para ir ao cabo, se Deus não abreviasse este martírio, fazendo um milagre em meu favor. Era sócio de um privilégio concedido há quatro anos, e do qual já nem me lembrava. Anteontem, à mesma hora que a senhora me submetia à mais dura de todas as provas, o céu me enviava um socorro imprevisto para quebrar enfim este jugo vergonhoso. Recebi a notícia da venda do privilégio, que me trouxe um lucro de mais de quinze mil cruzeiros. Aqui estão as provas. 

Aurélia recebeu da mão de Seixas vários papéis e correu os olhos por eles. Constavam de uma declaração do Barbosa relativa ao privilégio, e contas de vendas de jóias e outros objetos. 

- Agora nossa conta, continuou Seixas desdobrando uma folha de papel. A senhora pagou-me cem mil cruzeiros; oitenta mil em um cheque do Banco do Brasil que lhe restituo intacto; e vinte mil em dinheiro, recebido há 330 dias. Ao juro de 6% essa quantia lhe rendeu Cr$ 1.084,71. Tenho pois de entregar-lhe Cr$ 21.084,71, além do cheque. Não é isto? 

Aurélia examinou a conta corrente; tomou uma pena e fez com facilidade o cálculo dos juros. 

- Está exato. 

Então Seixas abriu a carteira e tirou com o cheque vinte e um maços de notas, de mil cruzeiros cada um, além dos quebrados que depositou em cima da mesa:

- Tenha a bondade de contar. 

A moça com a fleuma de um negociante, abriu os maços um após o outro e contou as cédulas pausadamente. Quando acabou essa operação, voltou-se para Seixas e perguntoulhe como se falasse ao procurador incumbido de receber o dividendo de suas apólices.

- Está certo. Quer que lhe passe um recibo? 

- Não há necessidade. Basta que me restitua o papel da venda. 

- É verdade. Não me lembrava. 

Aurélia hesitou um instante. Parecia recordar-se do lugar onde havia guardado o papel; mas o verdadeiro motivo era outro. Consultava-se, receosa de revelar sua comoção, caso se levantasse. 

- Faça-me o favor de abrir aquela gaveta, a Segunda. Dentro há de estar um maço de papéis atado com uma fita azul... justamente!... Não conhece esta fita? Foi a primeira coisa que recebi de sua mão, com um ramo de violetas. Ah! Perdão; estamos negociando. Aqui tem seu título. 

A moça tirara do maço um papel e o deu a Seixas, que fechou-o na carteira. 

- Enfim partiu-se o vínculo que nos prendia. Reassumi a minha liberdade, e a posse de mim mesmo. Não sou mais seu marido. A senhora compreende a solenidade deste momento? 

- É o da nossa separação, confirmou Aurélia. 

- Talvez ainda nos encontremos neste mundo, mas como dois desconhecidos. 

- Creio que nunca mais, disse Aurélia com o tom de uma profunda convicção. 

- Em todo o caso, como esta é a última vez que lhe dirijo a palavra, quero dar-lhe agora uma explicação, que não me era lícita há onze meses na noite do nosso casamento. Então eu faria a figura de um coitado que arma à compaixão de uma senhora que pisava aos pés a minha probidade, não acreditaria uma palavra do que então lhe dissesse.

- A explicação é supérflua. 

(continua...)

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