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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Essa confissão o senhor não a fará; seria uma ofensa grave à minha dignidade. Meu marido não carece de seu testemunho para conservar-me na mesma elevada estima, inacessível aos assaltos da maledicência. No dia em que eu precisasse justificar-me, estaria divorciada, pois se teria extinguido a confiança, que é o primeiro vínculo do amor, e a verdadeira graça do casamento. Esteja tranqüilo pois; seu segredo não lançou a menos sombra em minha felicidade. 

A moça disse essas palavras com uma emoção que persuadiu a Abreu, e desvaneceulhe os receios. 

De seu lado Seixas tinha refletido. Em véspera de uma resolução definitiva que devia operar mudança profunda em seu destino, pareceu-lhe fraqueza esse ridículo desabafo, semelhante aos agastamentos do ciúme banal, que ele acreditava não sentir. Fazendo portanto um esforço, aproximou-se do Abreu com a maneira cortês por que o costumava tratar, e confirmou assim a explicação dada por Aurélia ao incidente da manhã. Essa noite era de partida. 

A reunião não foi numerosa, mas correu animada. Fernando esteve muito alegre; nunca se ocupou tão ostensivamente da mulher como nessa noite; não a deixava; as mais delicadas flores, as mais galantes finezas, que se disseram naquela escolhida sociedade, foram dele a Aurélia. 

Aurélia pelo contrário mostrou-se preocupada. 

Essa amenidade do marido depois da cena do jardim a inquietava a seu pesar. Por mais esforços que fizesse não podia arredar seu espírito das palavras proferidas por Seixas naquela tarde, acerca de um rompimento, que devia solver a suposta colisão. 

Qual intenção era a sua? Nesse problema fatigou o espírito durante a noite. 

No dia seguinte Seixas almoçou às oito horas conforme o ordinário e partiu para a repartição. A essa hora Aurélia ainda estava recolhida; mas seu quarto de dormir, que ficava no pavimento superior, deitava janelas para o jardim; da última delas via-se perfeitamente a parte da sala de jantar onde estava a mesa. 

A moça tinha uma devoção de todas as manhãs; quando ouvia o rumor dos passos de Seixas na escada, saltava da cama, e envolta na sua colcha de damasco para não perder tempo a vestir o roupão, corria à janela. Ali escondida por entre as cortinas ficava um instante a olhar o marido algum tempo; como para dar-lhe o bom dia. Se estava muito fatigada da véspera, se o sono lutava com ela, voltava ao ninho ainda quente, e dormia novo sono. 

Nessa manhã porém apesar de ter-se recolhido tarde e sentir necessidade de repouso, demorou-se contemplando o semblante de Seixas com um sentimento de tristeza, que não podia desterrar de si. Um pressentimento vago advertia-lhe que não deixasse partir seu marido sob a impressão dos sarcasmos implacáveis, que lhe tinha lançado na véspera. 

Mas triunfou a altivez do seu amor, ainda magoada pelas recordações pungentes que havia acordado em sua alma a vista do mimo de Adelaide. 

Seixas saiu, e ela, para disfarçar a impaciência, logo depois do almoço meteu-se no carro com D. Firmina e foi gastar o tempo na Rua do Ouvidor, por casa das modistas e das amigas. Procurava nas novidades parisienses, nas tentações do luxo, um atrativo que lhe cativasse o pensamento e o arrancasse a suas inquietações. 

Conseguiu atordoar-se até quatro horas em que chegou à casa. 

Seixas não estava, o que era extraordinário. Não havia exemplo de Ter excedido dessa hora. Aurélia disfarçou para não mostrar seu desassossego a D. Firmina e aos criados. Recolheu-se a seus aposentos para mudar o vestido; mas encostou-se ao portal da janela, com os olhos no caminho. 

Às cinco horas veio a mucama a chamá-la: 

- A senhora não vem jantar? Está na mesa. 

- Quem mandou deitar? 

- São cinco horas. 

- E o senhor? 

- Disse ao José para prevenir a senhora que talvez não voltasse hoje, senão muito tarde. 

- Quando falou o senhor com José? 

- Esta manhã na cidade. 

- E não disse a razão por que se demorava? 

- Não sei, eu vou chamá-lo. 

O José interrogado nada adiantou, de modo que Aurélia permaneceu na mesma inquietação; mas para não dá-la a perceber a D. Firmina, atribuiu a ausência do marido à conferência que ele devia ter com o ministro acerca de trabalhos importantes da repartição. 

Quando sentavam-se à mesa, abriu-se a porta e entrou Seixas. 

A surpresa deu tempo a Aurélia para dominar o primeiro impulso de sua alegria que logo arrefeceu ante a fisionomia de Seixas. Ele trazia na expressão rígida e grave do rosto, o cunho de uma resolução inflexível. 

Entretanto não apartou-se da natural polidez. Desculpou-se delicadamente com a mulher pela demora: 

- Precisava concluir um negócio urgente, que lhe comunicarei. 

- E concluiu? 

- Felizmente. 

- Perguntei, para saber se devia esperá-lo amanhã. 

- Agora creio que não há de esperar mais por mim, tornou Seixas com um sorriso fugaz. 

Aurélia viu o sorriso, e sentiu a modulação especial da voz. 

Terminado o jantar, quando seguiam ambos pelos meandros recortados na grama, Seixas disse à mulher: 

- Desejo falar-lhe em particular. 

- Vamos sentar-nos então, disse Aurélia indicando o sítio onde habitualmente passavam as tardes. 

- Aqui no jardim, não; prefiro um lugar mais reservado, onde não venham interromper-nos. 

- No meu toucador? 

- Serve. 

- Ou no seu gabinete? 

- No seu toucador; é melhor. 

(continua...)

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