Por José de Alencar (1875)
— Com a justiça infalível do sr. capitão-mór conto eu, que a sua fama corre todo êste sertão, e não há quem não a conheça e louve e respeite, pois nunca faltou ao pobre e desvalido; e assim não abandonará esta mísera viúva, que vivia afortunada e na abastança, mas agora aquí está a seus pés, desgraçada, sem marido, sem abrigo, na maior penúria, e tudo por quê? Só porque na sua casa venerava-se acima de tudo o nome do capitão-mór Gonçalo Pires Campelo.
— Que diz, mulher? exclamou o dono da Oiticica com um estremeção que fez estalar a poltrona.
— É a verdade, sr. capitão-mór. Vossa senhoria talvez não se lembre de meu marido, o Tomaz Nogueira?
— O Tomaz Nogueira? repetiu o capitão-mór, interrogando a memória.
— Da Barbalha, acrescentou a viúva.
O fazendeiro consultou com o olhar a D. Genoveva, ao capelão e ao ajudante, que eram os três arquivos ou canhenhos dos fastos de sua vida; mas nenhum recordava-se do nome pronunciado pela viúva.
— Meu marido conheceu o sr. capitão-mór Campelo no Icó, de vista, que de fama já o conhecia desde pequeno; e tal era a veneração que tinha por vossa senhoria que muitas vezes me dizia: «Olha, Águeda, se não fosse minha mãe estar já tão velhinha e não querer por coisa alguma sair da Barbalha, com certeza mudava-me para o Quixeramobim só para ter o gôsto de servir ao capitão-mór Campelo. Aquilo é que é homem! El-rei escreve a êle todos os anos com muitas partes para agradá-lo, porque tem mêdo que o capitão-mór não tome para si todo o sertão, com esta capitania do Ceará e mais a de Pernambuco. Que isto é só êle querer. El-rei bem sabe». E era uma vontade tão grande, que estava sempre a repetir.
— Tenho uma lembrança de seu marido, mulher, disse o capitão-mór. Parece-me que o vi no Icó, numa festa.
— É isso mesmo!
O Campelo não se recordava de tal Nogueira; mas entendeu que não podia ser alheio a um homem, que tinha por sua pessoa aquele profundo acatamento.
— Que aconteceu então a seu marido?
— Apareceu na Barbalha êste ano um tal Proença que foi toda a nossa desgraça.
— Um conhecido por Vareja? perguntou Campelo.
— O próprio. Êsse homem não sei por que tinha raiva do sr. capitão-mór, e então foi meu marido quem pagou; porque um dia apresentou-se em nossa casa com três cabras, e intimou ao sr.
Nogueira, que pusesse a bôca em vossa senhoria, e o chamasse já e já de… Não me atrevo a dizer.
— Há de atrever-se, mulher, que lhe ordenamos nós. Chamasse de quê?
A viúva fez um esfôrço:
— De sapo cururú.
O capitão-mór que já a custo sofreava a cólera, saltou como uma explosão:
— Agrela, mande já sem demora encilhar os cavalos, que eu não durmo enquanto não ensinar o cabra! Vá aprontar a minha maca, D. Genoveva. Não ouve, senhora?
Enquanto a mulher e o ajudante saíam a cumprir suas ordens, o capitão-mór cruzava o terreiro a largos passos, sôfrego de montar a-cavalo. Amainando a refega da ira, caminhou para a viúva que ficara imóvel no mesmo lugar:
— E seu marido que fez, mulher?
— Nogueira? Não tinha que saber. Disse e repetiu que o sr. capitão-mór era o primeiro homem do mundo e a Providência desta terra, pelo que o havia de louvar sempre. Foi então que o malvado gritou:
— «Pois eu faço tanto caso dele como de um surrão velho, e toma lá a prova».
Matou meu marido, deitou fogo na casa…
Os soluços e lamentações da viúva eram abafados pela voz do capitão-mór que retumbava:
— Meu bacamarte, D. Genoveva! Onde estão êstes cavalos? Pegou no sono, Agrela? Anda com estas botas, negro do inferno?
Êsse Vareja era um sujeito de Russas. Tendo uma vez dito que o Campelo não era capitãomór às direitas, porisso que o Quixeramobim ainda não subira a vila; e sabendo disso o potentado, mandou-o chamar, com o que tal mêdo tomou, que desapareceu, e não houve mais novas dele.
Por aquí se avaliará da gana que devia ter o capitão-mór, de agarrá-lo para pagar-se do novo e do velho.
D. Genoveva, a-pesar-de habituada a estas sortidas, afligira-se com aquela partida tão precipitada. A ausência do Campelo naquela ocasião a assustava: nem ela sabia por qual motivo. Entretanto não se animando a opor-se diretamente à resolução do marido, incumbiu a D. Flor dessa difícil missão.
A donzela exercia no ânimo do pai decidida influência, e isso provinha do dom que ela tinha de identificar-se com a sua vontade, de modo que cedendo-lhe, pensava o capitão-mór que cedia a si mesmo.
D. Flor não usou de nenhuma das razões em que a mãe insistira; não empregou argumento de família. Abundou no sentimento do pai; mas confessou-lhe que admirava-se de sua partida.
— Por quê?
— É dar muita importância a um vilão. Basta que mande buscá-lo por uma escolta. Que não dirão quando souberem que o capitão-mór Campelo abalou-se de sua fazenda para prender um bandoleiro?
— Pois mandarei o Agrela.
— Isto sim.
Nesta conformidade, deu o capitão-mór suas ordens; e o ajudante preparou-se para sair naquela mesma hora com uma escolta de cincoente homens.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.