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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Levantou-se o presidente do Conselho e, voltando-se para o secretário encarregado de redigir a ata da sessão, o próprio autor desta narrativa, encarregou-o de comunicar ao comandante que a comissão unânime reconhecia a possibilidade da marcha para a frente, sobre a fronteira inimiga, apressando-se em oferecer toda a sua boa vontade para a execução deste plano.

Em seguida, exclamou, como alguém que ao sacrifício se vota: —"Deixo viúva e seis órfãos. Terão como única herança um nome honrado".

Assim se encerrou este conselho sobre o qual se fixara a atenção de toda a oficialidade e cujo resultado; todos surpreendeu; a ninguém tanto, contudo, quanto ao comandante, por se ver arrastado pelo obstáculo que acreditara antever à sua pessoa e os riscos do primitivo projeto. O sentimento do decoro pessoal, nele poderoso desde o despertar, preservou-o, contudo, de outro testemunhos da impresso, além de alguns gestos, inopinados e involuntários. Esforçou-se desde então em bem realizar o que fatalmente se tornara impossível deixar de empreender.

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(1) Não se encontra com a vila de Miranda, sita a 210 quilômetros N. O. de Nioac.

CAPÍTULO V

Reconhecimento. Rebate falso. Regresso de cativos escapos ao inimigo. O guia Lopes e o filho. Avante!

Recebeu imediatamente o 21.° batalhão ordem de escoltar os engenheiros, numa exploração das localidades vizinhas da colônia; e, com efeito, a 25, o tenente-coronel Juvêncio, com os dois subordinados, avançou até o ponto chamado Retiro que, havia pouco, fora evacuado por um destacamento paraguaio de uma centena de homens. Feito o reconhecimento regressou na mesma tarde a nossa comissão ao acampamento. Haviam tido os infantes que nos acompanhavam que percorrer mais de 52 quilômetros transportando capotes e armas, além de sessenta cartuchos na patrona. Pudemos freqüentemente constatar que as mais longas marchas não conseguem abater a energia do soldado brasileiro.

Decorreram os dias subseqüentes, na inação; e neste solene repouso do pensamento, que é apenas prudência em vésperas de arriscadas empresas.

Tanto ninguém deve perturbar-se com a apreensão de desgraças, que talvez não ocorram, como se não entregar à exagerada confiança no futuro, que à possível catástrofe ainda venha trazer o rigor do imprevisto.

Abril começara, o mês fadado às nossas provações. O serviço de comboio longe estava de se achar garantido e no entanto como que a abundância reinava no acampamento. Carretas em contínua afluência ali traziam toda a espécie de fazendas e demais objetos de luxo que aqueles páramos desertos jamais haviam certamente visto. Assim, as mulheres dos soldados, atraídas por este movimento comercial desciam de Nioac em grupos cada vez mais numerosos. Também para tal afluxo de gente contribuía a reputação de salubridade da Colônia de Miranda.

Era para aquele ponto, com efeito, que, muito antes da invasão estrangeira, de toda a vizinhança mandavam convalescentes e valetudinários. Ali são cristalinas as águas do rio que as infiltrações salobras dos pântanos de jusante ainda não contaminaram. Nada deixava a desejar o estado sanitário das tropas. Haviam, pois, recomeçado os exercícios diários de todos os batalhões e nossas músicas, rompendo afinal o longo silêncio, alegravam os espíritos. A dos voluntários de Minas, sobretudo, cuidadosamente recrutada, executava sinfonias cuja novidade, para os ecos locais, ajuntava novo encanto ao prazer da audição.

Recebeu logo o 17.° batalhão ordem de ir, além do ponto atingido pelo 21.°, realizar um reconhecimento, sob a direção do guia Lopes e em companhia de um grupo de índios Terias e Guaicurus, que desde algum tempo se apresentara ao Coronel. A 10 de abril, realizou-se a partida, bandeiras desfraldadas e música à testa, espetáculo sempre imponente em vésperas de combate. Graças ao comandante apresentava-se o corpo em pé de disciplina, que em qualquer ponto o tornaria notado.

Reservava-nos o dia seguinte emoções muito diversas e quase contraditórias:

a esperança de encontrar o inimigo, que se não realizaria, e o imprevisto das mais comoventes cenas familiares.

Anunciou-nos uma mulher, vinda de Nioac, o encontro, à margem de um rio próximo, de um grupo de cavaleiros, falando o espanhol. Depois de lhe fazerem algumas perguntas, haviam-na deixado passar tranqüilamente.

Deu-se logo o alarma em toda a frente e à retaguarda, mas tivemos logo a agradável surpresa do regresso do nosso destacamento trazendo dez cavaleiros. Eram brasileiros, eram irmãos! Pertenciam a famílias estimadas e bem conhecidas de fazendeiros das vizinhanças de Nioac: Barbosas, Ferreiras, Lopes, e haviam conseguido escapar ao inimigo inexorável. Com a rapidez do raio circula a notícia de sua aparição por todo o acampamento, e até em Nioac. Para os ver acodem homens e mulheres, possuídos como que de embriaguez; e a maioria até a chorar. Patrícios nossos! Rodeados, carregados, acham-se de repente em presença do comandante que os interroga.

Contam que, levados prisioneiros para o território paraguaio, eles e as famílias, haviam, ao se retirar o inimigo, sido dispersos por diversas localidades, principalmente em Vila Horcheta, a sete léguas de Concepción

(continua...)

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