Por Franklin Távora (1879)
Quando voltava do serviço diário, tinha bom apetite, e depois da última refeição o corpo, que requeria repouso, achava na cama novas forças, trazidas pelo sono para recomeçar no dia seguinte a tarefa interrompida na véspera. mas esta fase de apetite, que se satisfazia com os alimentos, e de fadiga que desaparecia com o sono reparador, tinha de ser profundamente alterada; o coração devia dar sinais do termo de seu repouso e da aproximação do seu despertar; a imaginação devia exigir visões e sonhos diferentes dos que inspirava o espetáculo dos campos, dos rios, das matas.
Paulo sentira nos últimos tempos acender-se no intrínseco do seu peito fogo desconhecido, que, por ser tal, não deixava de o abrasar. Sentiu anelos teimosos, prazer e tristeza, crença e dúvida, que não sabia explicar e mal conhecia, porque a essência de sua vida assentava na inocência, que o campo alenta. Um mestre particular ensinara-lhe as primeiras letras. Não se tendo achado em contato com a meninice trêfega, ou com a juventude viciosa de certos colégios, quase todas as pequenas corrupções que se devem a tais centos, e que são, muitas vezes, a origem de grandes corrupções sociais, lhe eram inteiramente desconhecidas. O seu espírito podia considerar-se estreme, o seu coração podia reputar-se de um modelo digno de ser estudado e seguido.
Quando de volta do trabalho, Paulo achou uma tarde em casa a menina de fisionomia triste, olhar meigo mas, melancólico, adivinhou por lúcida previsão, que a sorte lhe trouxera, enfim, aquela delicada forma do espírito, da bondade, da dedicação, do amor que ele, apenas, conhecia como deliciosas abstrações ou vagas fantasias.
Virgínia era tão fraca de compleição que, à primeira vista, todos sentiam apreensões pela sua existência.
Olhando-se para aquele corpo franzino, delicado, posto que não desgracioso, antes cheio e modesta elegância, pensava-se que não há formas que não resistem senão por muito pouco tempo ao trabalho das intempéries e dos climas. Tinha-se pena de pegar em sua mão, porque parecia que com qualquer movimento menos brando poderiam sentir-se os dedos finos, a palminha delicada, o bracinho delgado da encantadora menina.
À Maurícia atribui-se este conceito a respeito da filha:
— Virgínia parece ter nascido de um respiro, e estar destinada a morrer de um sopro!
Uma vez, conversando com D. Carolina, mulher de Albuquerque, sobre a fraca organização da menina, dissera Maurícia:
— Quando da minha janela vejo Virgínia passeando ao sol posto, pelo cercado, e trazendo soltos sobre o roupãozinho branco os cabelos louros, só se me afigura ter diante dos olhos uma nuvenzinha que caiu das alturas sobre a terra.
A natureza caprichosa na distribuição dos seus favores dera a Virgínia, como se fizera para resgatar a fragilidade do corpo, o mais vigoroso espírito que já se viu em tão verdes anos.
Em casa, quando a viam vencer ao piano algumas das grandes dificuldades que as óperas oferecem, diziam:
— Não nega que é filha de quem é!
Não andava longe da verdade a gente do engenho, quando se exprimia a respeito de Virgínia, nesse desataviado modo porque o povo traduz os seus conceitos. A verdade, porém, a verdade completa, era que a menina trouxera do berço, com o talento, outros muitos tesouros, a saber, juízo, porque, cada uma destas virtudes é uma grandeza, capaz por si só de caracterizar, não dizemos tudo, de encher uma existência.
Quando Maurícia chegou ao engenho, Virgínia, com ser muito nova, tinha já quase completa sua educação. As qualidades insignes que brilhavam em sua mãe, por uma como reprodução mágica, se tinham continuado nela porventura mais vivas e adoráveis.
Paulo ficou extasiado diante daquela criaturinha que escrevia e falava corretamente o francês, tocava graciosamente piano, entendia de geografia e desenho, cosia, bordava; Virgínia pagou igual tributo de admiração: achou em Paulo tamanha candura, tanta conveniência nas ações, tanta compostura no dizer, no olhar, no falar, no sorrir, que não pode deixar de comunicar a Maurícia sua impressão; e o fez nestes termos:
— Que bonitos modos tem o filho do Sr. Albuquerque, mamãe!
Estas duas admirações tão irmãs, tão naturais, tão espontâneas, de duas organizações virgens, de diferente sexo, só podiam trazer um resultado — a enamoração mútua, o que queria indicar um sentimento comum — o amor. Mas este amor nasceu sem fogo, sem veemência, sem estridor; nasceu límpido e brando, como nasce no deserto, por sob a folhagem, cristalina fonte, cujas águas o sol não queima e a tempestade não revolve. Foi um relâmpago que fulgiu ao longe; todos viram o seu clarão, mas ele não deslumbrou ninguém, e não foi seguido de medonho estrondo.
Testemunhemos uma das manifestações desse amor.
Uma tarde, Albuquerque, de passagem para o cercado, ouviu o rumor das vozes dos dois jovens em colóquio no oitão da casa. Estavam sentados sobre uma viga de sucupira, que ali esperava, ao tempo, o verão para ir substituir uma trave podre da coberta.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.