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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Os matutos não casam por mera conveniência. Suas uniões, ordinariamente precoces, não deixam por isso, em regra, de ter o principal fundamento na estima reciproca daqueles que as contraem. Grandes desgraças têm procedido das junções prematuras, mas no mato não constituem a regra geral. Ao reverso, tais junções são principio de moralidade no lar e no povoado matuto, porque, despertando cedo no homem os afetos conjugais e paternais, enfreiam e moderam, antes das erupções naturais dos primeiros anos, as paixões juvenis, que, quando de todo soltas, têm arrojos inconvenientes e efeitos desastrosos.

A paixão que Marcelina inspirará a Francisco, se tinha serenado, como sucede a cabo de certo tempo a todos os sentimentos, ainda aos mais veementes e exaltados, não arrefecera, antes se apurara com as mil retribuições do coração da cabocla, nunca brandamente estremecido ou amorosamente agitado senão pelo matuto.

Mas a infelicidade é fatalmente na essência humana. Ainda no meio das mais intemeratas serenidades, a idéia de poder ser de um momento para outro desgraçado punge o homem e o faz reputar as venturas por ilusões, cujo principal efeito é aguar-lhe os gostos no melhor deles e entristece-lo, quando não na face – espelho da alma, na consciência – centro de muitas suspeitas que nascem e morrem ignoradas do mundo, como os musgos interiores das cavernas inacessíveis.

Marcelina podia ter a esse tempo de vinte e dois a vinte e cinco anos. O tipo caboclo estava nela representado com opulência e genuinidade. Tez abaçanada, cabelos corridos e pretos, olhos rasos e grandes, cara cheia e redonda, estatura abaixo da média, formas corretas, mãos e pés pequenos – eis o conjunto harmônico e admirável em que a raça a mostrava revestida.

Quando Marcelina batia sua roupa no banco que ficava debaixo da meia-agua de palha levantada por Francisco para resguardar do sol o poço algumas braças da casa de morada, os matutos, que passavam pelo caminho e a não conheciam, cravavam nela olhares cúpidos, e alguns ás vezes de lá lhe atiravam xêtas que ele fingia não ouvir, ou a que, se lhe parecia, dava em resposta um muxoxo ou um olhar de mofa e desprezo, pelos quais ficavam sabendo que a matuta não era do pano que eles supunham.

Muitos deles só retiravam os olhos de sobre ela quando tinham de dar a volta da estrada ou entrar na mata. A tazão era porque a saia, que Marcelina por essas ocasiões trazia a tiracolo pela enfiadura, lhe punha á mostra o principio da perna – monumento de estaturia que deixava adivinhar, mas não descobria, os vendados tesouros da perfeição de que a dotará, por especial capricho, a natureza, mãe tão pródiga para ela como mesquinha para tantas outras.

IV

Uma manhã Francisco, acordando, deu por falta da mulher.

Era muito cedo ainda para o serviço da casa, e fora estava chovendo. O mato, de seu natural sombrio e ermo, desprazia antes do que convidava naquele momento a quem não fosse obrigado a busca-lo por grande negocio.

No começo da trilha que ia ter á lagoa de presente mudada em terreno de lavoura, mas neste tempo com bastante água e oculta pelos matos que se levantavam, contornando-a em forma de semicírculo, no lugar onde acabavam as terras plantadas de abacaxis por Francisco, viu ele atirados a uma banda sobre as ervas os socos grosseiros que sua mulher usava em casa.

Pareceu-lhe claro que ela os tinha deixado ali para ter mais ligeiro e pronto o passo ao lugar aonde se dirigia. Antes disso já tinha chamado por ela do lado da estrada; mas só teve em resposta o eco de suas próprias palavras.

Tendo agora a prova de que ela tomará direção oposta, cruel suspeita atravessou-lhe, sem o menor fundamento, o espirito, senão o coração, que sobressaltado transbordava inquietações e duvidas.

Sem olhar para seu estado de convalescença, Francisco, que viera da casa até ali abrigado da chuva pelas folhagens das laranjeiras e dos cajueiros novos do sitio, não hesitou mais um só momento e meteu-se pela trilha, que se lhe mostrava, agora mais do que nunca, em forma de serpente, pela planície afora. Não era grande a distancia que separava a lagoa da parte roçada; por isso, dai a pouco se achou ele por traz da renque de arvores que circulava a lagoa e pôde ter esta debaixo dos olhos, sem deixar a quem quer que fosse possibilidade para vê-lo.

Neste ponto parou Francisco, e poz-se a examinar com a vista de um lado para outro todo o espaço livre até aonde podia chegar a sua inspeção.

Ninguém estava ali. Sobre a lagoa a chuva fina caia em forma de fumo ou de névoa espessa. Os sapos coaxavam pela beira d’água, e os jaçanãs soltavam de dentro das moitas aquáticas suas risadinhas de som vibrante e agudo; tudo o mais era imobilidade e silencio.

Não tendo mais para onde ir, Francisco em cuja imaginação exaltada pela fraqueza física e pelos súbitos temores, se desenhavam cenas desesperadoras, não pôde acabar consigo que não chamasse novamente pela mulher.

A voz desprendeu-se-lhe irresistivelmente da garganta, e o som das palavras – Marcelina? Marcelina? Repercutiu pela vasta solidão.

Imediatamente a seus olhos se mostrou uma visão cruel.

Acima dos juncos, que formavam vastos partidos dentro da lagoa, apareceu-lhe uma cabeça coberta com um chapéu de palha. Um homem estava ali e Marcelina não podia achar-se longe. Talvez já estivesse de volta.

(continua...)

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