Por Franklin Távora (1876)
Governava então Pernambuco José César de Meneses que não se demorou a expedir para diferentes pontos recursos médicos e alimentícios, a fim de combater a epidemia, e acudir à pobreza no seio da qual, ao mesmo tempo que a fome, conseqüência natural da seca, ia ela buscar, como sempre sucede, o maior número de suas vítimas.
Não se fez esperar com seu quinhão de auxílio o poder espiritual, então amigo desinteressado e leal do poder civil, não só em Pernambuco, mas também em todas as capitanias do Brasil. E por que não havia de suceder assim, se sob as abóbadas do Vaticano ainda volteava, representado na pureza e sabedoria de sua doutrina, o grandioso espírito de Ganganelli; se aos jesuítas, expatriados, repelidos do seio de todos os Estados civilizados, faltava a organização que havia antes imposto ao mundo esta companhia como a mais poderosa das até a esse tempo conhecidas, e que veio depois restituir-lhes, não a totalidade, mas uma grande parte do perdido predomínio; se no palácio da Soledade se sentava d. Tomás da Encarnação Costa e Lima que tornou distinto o decênio de seu ministério por sua circunspeção, por sua brandura, por suas virtudes, as quais nos corações dos diocesanos lhe erigiram altares mais naturais e mais sólidos que os dos próprios templos ?
Um bispo, que compreende sua missão, é uma das maiores fortunas dos povos que pastoreio; porque um tal bispo, para proceder assim, tem necessidade de saber e de exercitar a caridade; porque um tal bispo não admite em seu coração a mais mínima sombra de ódio, e só possibilita a entrada nele à humildade, à modéstia, aos mais delicados afetos paternais; porque de todos estes predicados só se podem originar grandes e edificantes benefícios para os crentes, e particularmente para os pobres.
D. Tomás dirigiu-se a este ideal, único em que devem ter os olhos aqueles que se acobertam com as vestiduras episcopais antes para representarem, como lhes cumpre, o ofício da piedade e do amor celestial, que a magistratura das mundanas ambições. Ah, esta magistratura é muito mais difícil de contrastar e muito mais cruel quando mói em nome de Deus as consciências, do que quando, galoada ao sabor de ficções caducas, encorrenta a liberdade em nome da ordem e da razão pública, as quais são um dia as primeiras que proclamam estarem inocentes. Deus porém, com ser tão poderoso e grande, não pode falar, e é por isso que muitas e reprovadas paixões se dizem ecos de sua voz.
Acredito que D. Tomás foi bom, piedoso e justo por efeito de sua própria natureza; há porém quem diga que deve ele seu adiantamento no caminho da perfeição católica, de que nos deixou formosíssima estampa, ao estudo dos exemplos que lhe legaram seus predecessores e ao empenho com que buscou imitá-los.
O que fica fora de toda dúvida é que D. Tomás achou a cadeira episcopal de Olinda verdadeiramente ilustrada por conspícuas e beneméritas virtudes que não foram até hoje igualadas. Assim, D. Francisco de Lima morreu tão pobre que unicamente se lhe encontraram de seu quarenta réis em dinheiro. Ele havia despendido todas as rendas da mitra na sustentação das trinta missões de índios que reunira e visitara no seio de inóspitos sertões, sendo-lhe preciso, para cumprimento deste apostólico dever, transpor mais de duzentas léguas na avançada idade de setenta anos. D. José Fialho não deixou nunca de exercitar as funções pastorais com honra sua e proveito público. Por ocasião de uma epidemia que grassou na província, este respeitável antístite freqüentou o púlpito, visitou os enfermos, acudiu aos necessitados, e deu ordem nas boticas para que, por conta dele, se aviassem remédios para os doentes que os médicos e cirurgiões declarassem serem pobres. Exercitou a caridade com tanto fervor que sua família veio a experimentar em casa falta do necessário. D. Luís de Santa Teresa deu começo ao palácio da Soledade, e concorreu para a fundação dos recolhimentos de Olinda, Iguaraçu, Afogados e Paraíba, gastando nas respectivas obras o produto de suas rendas: missionou desde Porto Calvo até ao Rio Grande do Norte. Finalmente D. Francisco Xavier Aranha concluiu o sobredito palácio, realizou diferentes melhoramentos na igreja da Sé e em várias outras igrejas, visitou grande parte da diocese, e foi muito zeloso nos deveres de seu sagrado ministério. Depois de D. Tomás dignificaram ainda aquela cadeira D. Diogo de Jesus Jardim, o esmoler, D. Azevedo Coutinho, o sábio, D. Marques Perdigão, o piedoso, o pacificador dos cabanos.
Estamos pois em 1776. E no momento em que o fogo da peste mais abrasara a província.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.