Por Bernardo Guimarães (1872)
Passaram-se assim doze anos, em que a vida correu para Eugênio, senão descuidosa e prazenteira como na fazenda paterna, ao menos serena e sem dissabores. Cada vez mais estimado dos padres e benquisto de seus companheiros, à medida que seu coração se ia acalmando, sua inteligência se desobumbrava, e fazendo rápidos progressos compensava largamente o tempo perdido com a dificuldade dos primeiros esforços.
É verdade que a imagem de Margarida nunca lhe saía do coração mas já não o incomodava tanto, nem lhe agitava espírito como outrora.
Ela lhe aparecia como a figura de um anjo, desenhando-se ao longe e sorrindo-lhe tristemente por entre as brumas melancólicas do horizonte pavoroso. A lembrança de Margarida era já em sua alma essa saudade meiga e maviosa, que nos espreme o coração, e dele faz borbotar lágrimas de fel e de sangue.
Passados dois anos, porém, um incidente veio perturbar a uniformidade suave e serena, se bem que um pouco melancólica, da vida de Eugênio. Um dia, a íntima confiança que merecia de seus mestres e diretores, ia-se abalando profundamente.
Eugênio já tinha entrado para a terceira classe de latim, e começando a traduzir o livro dos Tristes de Ovídio e as Éclogas de Virgílio sentiu-se tomado de um vivo gosto pela poesia. Para isso o predispunham sua terna sensibilidade e ardente imaginação. Só esperava a mão que viesse correr aos olhos de sua inteligência inesperta o véu que encobre esses desconhecidos e encantados horizontes, essas paisagens fantásticas e deslumbrantes, tão cheias de magia, de luz e de harmonia em que os espíritos elevados encontram tão grato abrigo contra a insipidez e as asperezas da vida real.
Virgílio, de um lado, e Ovídio, do outro, deram-lhe as mãos e o introduziram no templo da harmonia.
Era mais um precioso achado para aquela imaginação esta viva e brilhante, para aquele coração tão rico de afetos. Mais uma corda virgem acabava de ser vibrada naquela feliz e delicada organização. À devoção e ao amor vinha juntar-se mais um novo encanto na vida do adolescente; mais um eco acordava melodioso no seio dessa alma tão cheia de harmonias íntimas e misteriosas.
Religião, amor, poesia, eis os elementos, que bastavam para encher aquela existência e torná-la a mais feliz do mundo. Eram como três anjos de asas de azul e ouro, que esvoaçavam de contínuo em torno dessa alma infantil e cândida, e a arrebatavam aos céus em gozos inefáveis.
Eugênio, pois, ao ler os primeiros versos de Virgílio, sentiu na fronte o bafejo do anjo da poesia que lhe dava, à alma como um sentido mais, abrindo nela uma nova fonte de suaves e inefáveis emoções. As Éclogas do imortal Mantuano o encantavam. As cenas do amor bucólico o arrebatavam, retraçando-lhe na fantasia em cadentes e melodiosos versos os singelos e aprazíveis painéis da vida campesina, em que tantas vezes ele figurava como ator, e fazendo-lhe lembrar com a mais viva saudade o ditoso tempo em que, junto com Margarida errante pelos vargedos e colinas da fazenda paterna, lidava com o pequeno rebanho de Umbelina. A não ser padre santo — que era até então a sua mais forte aspiração -, a vida que mais lhe sorria à imaginação era a de pastor, contanto que fosse em companhia de Margarida.
Não contente com admirar e sentir as belezas desses grandes poetas, Eugênio, que tinha em si um grande fundo de sentimento e calor poético, ensaiavase às vezes procurando traduzir em estrofes as emoções de seu coração, e as imagens que lhe pululavam no espírito. E quem senão Margarida, aquela beleza em botão poderia inspirar os cantos daquela musa ainda no berço?...
Mas, um dia, Eugênio esteve a ponto de perder todo o bom conceito e estima, que até então tinha merecido de seus preceptores.
Eugênio se ocupava às vezes em escrever algumas coisas, que não eram os seus temas de latim, e escondia cuidadosamente esses manuscritos, em que cismava longamente. Como os meninos estudavam e dormiam em um vasto salão aberto, esta circunstância não pôde escapar aos olhos escrutadores e perspicazes do regente. Picado de curiosidade, este entendeu que devia saber o que continham aqueles papéis. Portanto, na hora do recreio, incumbindo a outro o cuidado de levar os meninos a passeio, deixou-se ficar no salão, e foi dar busca aos papéis de Eugênio, esperando não encontrar entre eles afora as listas de significados e os temas de latim, senão algum esboço de sermão ou talvez algum ensaio de hinos religiosos, com cuja leitura já de antemão se regalava sua ávida curiosidade.
De fato, encontrou alguns esboços informes nesse gênero, mas qual não foi a sua surpresa, quando entre esses papéis encontrou também uma longa carta escrita no tom mais sentimental e uma porção de versinhos amorosos dirigidos a uma rapariga de nome Margarida!? Que terrível auto de corpo de delito! Que sentença esmagadora, que anátema tremendo pairava então sobre a cabeça de Eugênio, que a essa hora sentado como de costume no paredão da esplanada do quintal, tranqüilo e descuidoso cismava saudades da sua Margarida!...
CAPÍTULO VI
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.