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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Elias era também excelente músico: tocava diversos instrumentos, tinha um boa voz, e toas as noites divertia os serões da família cantando modinhas e cançonetas, acompanhando-se com uma viola, único instrumento que havia em casa. Portanto, além de gentil cavaleiro, Elias era também insigne trovador. Tudo isto reunido a alguma instrução e a uma conversação agradável, tornava a sua companhia sempre amável e desejada. Assim, quando acontecia ausentar-se por alguns dias em algumas comissões, de que às vezes o Major o encarregava, sua falta era muito sentida no seio daquela pequena e respeitável família.

Lúcia e sua irmã mostravam muita vontade de aprender um pouco de música. tendo um tão bom mestre em casa, o pai não pôde deixar de condescender com os desejos de suas filhas, e encarregou a Elias de, nas horas vagas, dar-lhes algumas lições.

Todos os dias, pois, em horas indeterminadas, via-se Elias, na espaçosa varanda, assentado em um comprido e antigo banco de cedro entre as duas meninas, debaixo das vistas do Major, bem entendido, ocupado em ensinar-lhes os rudimentos de música e a dar-lhes lições de solfejo. A perspectiva que tinham em frente era magnífica: a vista se perdia por vastas e risonhas Campinas e remotos horizontes, banhados pela luz de um sol esplêndido. E por entre a algazarra dos melros, pintassilgos e patativas, que chilravam em torno da casa, e os gorjeios cadenciados do sabiá que cantava ao longe, ouviam-se os ensaios tímidos daquelas duas vozes infantis. Era de sobejo para encantar e exaltar a imaginação impressionável do mancebo, que nessas horas de doce ocupação esquecia-se de si, de sua pobreza, do seu futuro, para se entregar ao enlevo do mais puro e do mais ideal dos amores. As duas alunas também, por sua parte, e principalmente Lúcia, tinham aquelas horas pelas mais bem empregadas da sua vida. Mas Elias já tinha lido a “Júlia” de João Jacques Rousseau, e no meio de suas doces emoções às vezes estremecia ao lembrar-se da sorte dos dois amantes no romance do imortal filósofo de Genebra.

O contato íntimo daqueles dois corações, que pareciam criados um para o outro, acabou de abrasa-los em uma paixão enérgica e profunda, dessas que não se extinguem senão com a vida. No seio da solidão as paixões tomam maior vulto e se enraízam mais na alma, do que no meio do bulício e das distrações do mundo. A alma solitária é como a fonte do deserto, resguardada dos ventos, que no regaço límpido e imóvel guarda fielmente a imagem do arvoredo que a sombreia.

Lúcia e Elias amavam-se; todavia nem uma só palavra de amor lhes havia ainda escapado dos lábios; os olhares e os sorrisos diziam tudo; eles sabiam muito bem que se amavam, e era quanto bastava para sua felicidade. Como dois cisnes, deixavam-se levar descuidosamente pela torrente plácida e voluptuosa das emoções presentes, sem se lembrarem que mais além podiam ser arrastados e despedaçados por furiosas cachoeiras, ou engolidos em trevos sorvedouros.

Elias suspirava por uma ocasião de poder estar a sós com Lúcia, e de declarar-lhe de viva voz o seu amor; mas essa ocasião por si mesma não podia oferecer-se. Todos os dias tomava a firme resolução de pedir furtivamente à moça uma entrevista, cujo lugar e hora já tinha premeditado. Mas, quando era ocasião de falar-lhe, um invencível acanhamento como que lhe paralisava a língua; receava profanar com aquele pedido a pureza Angélica daquela criatura.

Um dia enfim revestiu-se de ânimo a superar os seus escrúpulos.

- Ah! Se eu um dia pudesse falar sem testemunhas, e revelar-lhe tudo quanto sinto! - disse ele baixinho a Lúcia numa ocasião em que o pai se ausentara por um momento.

-mas. . . isso. . . não pode ser, -murmurou Lúcia com voz breve e decisiva, mas cobrindo-se de tal vermelhidão, que se teria traído completamente, se ali houvesse olhos perspicazes e perscrutadores.

-talvez possa – continuou Elias sorrindo. -sei que a senhora passa ás vezes horas inteiras sozinha na fonte do quintal. Ficará muito assustada, se eu um dia lá aparecer?

-sem dúvida! . . . não; não vá; senão, nunca mais lá voltarei.

- Nada receie; eu a respeitarei tanto ou mais do que se estivéssemos aqui, em presença de seu pai.

- Não vá, não. . . tenho medo. Agora nunca mais irei lá sozinha.

- Perdão, minha senhora! Não lhe teria feito este pedido, se soubesse que me tinha tanta aversão.

- Aversão! . . .

Os tamancos do Major, ressoando no soalho, anunciavam a sua volta, e impuseram silêncio aos dois amantes.

(continua...)

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