Por Bernardo Guimarães (1872)
– Qual dívida, sr. Ribeiro! por favor não se inquiete com isso. Não fiz mais do que a minha obrigação, o que em meu lugar qualquer outro teria feito...
– Mas em seu lugar, – disse Paulina olhando de esguelha e maliciosamente para Roberto – estavam alguns outros e não o fizeram.
Roberto enfiou, mordeu os beiços e corou até às orelhas.
– Porque não puderam – respondeu Eduardo. – Mas se teimam em querer dar-me um sinal de gratidão, basta-me o couro da bicha. Hei de trazê-lo sempre comigo com orgulho como um troféu, a menos que a senhora, – acrescentou voltando-se para Paulina, – não o queira para si a fim de pousar triunfante os seus mimosos pés sobre os restos do medonho animal, que tão grande susto lhe causou.
– Com bem pouco se contenta, disse o fazendeiro.
– Com isso e com a sua amizade, sr. Ribeiro, eu me julgo muito bem pago, e com a íntima satisfação que me fica n’alma por ter sido útil em um dia de minha vida à sra. d. Paulina.
Estas lisonjeiras palavras ditas com toda a graça e afabilidade, mas em tom de cortesia, não agradaram muito a Paulina, a qual quisera que o moço exigisse em paga mais alguma coisa, pois estava pronta a dar-lhe ou antes já lhe tinha dado todo o seu amor. Decerto ela não queria que o moço lhe fizesse ali de chofre uma declaração de amor, mas notou com mágoa íntima, que o mancebo proferiu aquelas corteses palavras quase sem emoção alguma e sem ao menos olhar para ela, o que causou-lhe uma horrível impressão de despeito e desalento. Retirou-se para o canto mais escuro do aposento para esconder a sua perturbação e uma lágrima teimosa, que lhe queria vir aos olhos.
– Ora bolas! – exclamou estouvadamente o primo Roberto, já escandalizado com a prima, e cioso da importância e deferência de que Eduardo era objeto. Não vejo de que estão fazendo tamanho escarcéu, pois o que é lá matar uma onça?... eu cá tenho matado mais de uma, e nem por isso ando a me gabar.
– Não digas tal Roberto! – atalhou o velho, – matar uma onça não é lá grande coisa; também eu as tenho matado e muitas. Mas afrontar o perigo, que o sr. Eduardo arrostou para salvar duas criaturas, é uma ação valorosa e nobre, de que nem todos são capazes.
– Também se ele não a matasse, eu teria dado cabo dela, como tenho dado de muitas outras, tão certo como nós estarmos agora aqui. Que me custava?... a minha espingarda não nega fogo, e, minha mão, louvado seja Deus, não treme ainda, e quando atiro em um bicho destes, não atiro nas costelas, e em todo o caso a prima sempre aqui estaria tão viva e tão sadia como agora aqui se acha.
– Pois bem, senhores – retrucou Eduardo já agoniado com as toleimas do primo e com um sorriso sardônico – façamos de conta, que foi o sr. Roberto, quem matou a onça; isso pouco me importa, e não quero que diga outra vez que estou me gabando. O que me importa é poder restabelecer-me destas feridas para poder tratar dos meus negócios. Peço que se esqueçam do pequeno serviço, que tive a fortuna de fazer-lhes, e tratem somente do meu curativo.
– Esquecer! oh! isso nunca! nunca esqueceremos. Mas, silêncio, sr. Eduardo; não lhe convém falar muito e muito menos alterar-se. Tranqüilize-se, que não pouparemos cuidados e desvelos para o seu completo restabelecimento. Paulina, Roberto, vamo-nos daqui, deixemos o sr. Eduardo descansar; ele precisa mais de repouso de que de qualquer outra coisa.
Capítulo III
O primo Que pedaço de bruto não é o tal senhor primo Roberto! ficou pensando consigo Eduardo, apenas os três se retiraram. – Pelo que vejo tem paixão pela prima, e quer me parecer que o paspalhão começa a coçar a canela por minha causa. Forte bobo! e entrar nos cascos de um tal palerma ser o amante de uma menina tão meigazinha, tão delicada!... Entretanto, se eu não tivesse o coração tão cheio de amor, tão ocupado com a imagem da minha Lucinda, teria de amar por força esta menina. Tão meiga, tão formosa, disputada a uma fera quase à custa da minha vida!... ah! parece que o céu a tinha destinado para mim!... é estranho encontrar-se nestes sertões uma criaturinha tão mimosa, tão perfeita. Ah! senhor Roberto! senhor Roberto! dê parabéns à sua fortuna de eu já ter empenhado o meu coração e a minha palavra, quando não impreterivelmente o tirava do lance, e então é que lhe havia de amargar a boca!
– Então prima, o que lhe parece o maluco daquele matador de onças? ia Roberto dizendo a sua prima, depois que saíram do quarto de Eduardo, e enquanto atravessavam um comprido corredor, que ia terminar numa varanda aberta dando para o vasto curral da fazenda. – Matar uma onça então é para qualquer?... o pateta cuidou que uma onça se mata assim como se mata um gambá; coitado! não foi má a esfrega que levou. Tão cedo não lhe voltará a vontade de andar pelos matos às escaramuças com as onças.
– Quem sabe, primo Roberto, ainda pode escaramuçar muitas, e matá-las como matou a de ontem, e talvez com mais felicidade. É um valente e destemido moço aquele!...
Este elogio foi uma seta, que partiu da boca de Paulina para o coração de Roberto.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.