Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Não nos queixemos da nossa edilidade: ela já fez o que pôde, e que infelizmente se reduziu, pouco mais ou menos, a cousa nenhuma. Lembra-me, porém, que para começo de trabalhos do novo cais se construiu uma trincheira de tábuas, seguras por pregos que tinham as pontas para o mar e as cabeças para terra, e o mar, aproveitando-se daquela bem ordenada pregadura, em um dia em que fez mareta, atirou com as tábuas à praia, de maneira que ensinou à câmara municipal que até os mesmos pregos devem saber onde põem os pés e onde têm as cabeças. Não tenho ainda certeza de que esta lição aproveitasse.
O governo tomou a seu cargo a obra do novo cais, e há esperanças de que mais diligente se há de mostrar; no entanto, as dimensões da praça excedem já muito às que tinha no fim do século passado e por não poucos anos conservou.
Falei das proporções. Agora tratarei dos nomes.
A praia em que se termina esta praça teve primitivamente o nome de – praia da Senhora do Ó – e hei de em breve dizê-lo porquê; mas o nome mais antigo dos que tem tido esta praça é lugar do Ferreiro da Polé; a origem de semelhante denominação perde-se na noite dos tempos. Quer me parecer que não podia ser simpática.
No fim do século décimo-sexto, ou no princípio do seguinte, chamou-se praça do Carmo, porque era dominada pelo convento levantado pelos carmelitas.
De 1743 em diante, recebeu o nome de terreiro do Paço, em razão de se haver construído nela a casa dos governadores, e os carmelitas não brigaram com o conde de Bobadela por essa mudança de deno minação, porque, enfim, palavras não adubam sopas, e frades não fazem questões de pouco mais ou menos.
Por último, largo do Paço ficou sendo chamada. Não aposto, porém, que conserve por muito tempo o mesmo nome, a menos que o Estado se resolva a levantar outro palácio no mesmo lugar, pois o que existe, desde alguns anos recebeu do cupim formal intimação para procurar um substituto.
E antes dessas instantes intimações do cupim, já ao dever e ao patriotismo cumpria ter lembrada a necessidade urgente de uma tal substituição.
Este palácio que estamos vendo nem tem no seu aspecto exterior bastante majestade, nem em suas disposições e ornatos interiores suficiente magnificência para mostrar-se digno do chefe do Estado e digno da nação. Há na cidade casas de particulares que incontestavelmente ostentam mais riqueza e oferecem mais cômodo do que ele.
Nas monarquias, o esplendor da majestade reflete sobre toda a nação, e a casa do monarca, o palácio do chefe do Estado, que atrai todas as vistas, que abre suas salas aos representantes das nações estrangeiras e a todos os cidadãos, deve ser grandioso como a idéia que representa.
Não me digam que o Brasil não tem dinheiro para levantar um palácio. Oh! se tem. O patronato acha sempre recursos financeiros para fazer presentes à custa da pátria amada, e só o dever e o patriotismo terão sempre de esbarrar diante do monstro chamado déficit.
O corpo legislativo não pode continuar a descuidar-se desta evidente necessidade. Além de tudo, o palácio está arruinado e a nação deve oferecer ao seu primeiro cidadão um edifício que, pelo menos, se adivinhe logo o que é, quando se olhar para ele.
Comecei falando mal do palácio, antes de descrevê-lo e de contar a sua história.
Vou emendar o meu erro.
Para um palácio, este envelheceu depressa, pois que apenas conta cento e dezoito anos de idade, tendo sido, portanto, construído quase dois séculos depois da fundação da cidade do Rio de Janeiro.
Não vos admireis de que o governo de Portugal deixasse cor rer tanto tempo antes de fazer edificar uma casa para os governadores desta capitania; porque também o Brasil é nação independente desde 1822, e ainda não mandou construir um palácio para o imperador.
Até ao fim do século XVII, os governadores da capitania do Rio de Janeiro não tiveram casa própria para sua residência, à exceção, sem dúvida, do primeiro, que foi Salvador Correia de Sá, que seguramente havia de levantar, como os seus companheiros colonizadores, o seu competente rancho no morro do Castelo. Os que depois se foram seguindo moraram onde puderam ou melhor lhes pareceu.
Em 1698, ordenou el-rei de Portugal que para residência dos governadores do Rio de Janeiro se comprasse a casa da Rua Direita, que depois ficou sendo chamada dos Contos, e que ainda hoje é assim por alguns dos nossos velhos denominada, porque para ela se passou a provedoria, e debaixo do seu teto se recolhiam os cabedais da coroa, importantes em avultados contos de réis.
Atualmente está o Correio Nacional estabelecido nessa casa, que bem merece conservar o nome dos Contos, pois que a respeito dela podem-se referir contos largos, e por sinal que até foi incendiada, quando em 1710 os franceses atacaram a cidade.
Oportunamente conversaremos sobre este caso.
Chegou, enfim, a época do palácio que estamos estudando. Lê-se sobre o seu pórtico principal a inscrição que recorda o ano em que foi construído, e o nome daquele a quem o devemos:
“Reinando El-Rei D. João V, nosso Senhor, sendo governador
destas capitanias e da de Minas Gerais, Gomes Freire de Andrade, do seu
conselho, Sargento-Mor de Batalha dos seus Exércitos. Ano de 1743.”
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.