Por José de Alencar (1853)
N'aquelle dia foi Ayres preza de estranha allucinação, quando rezava de joelhos, ante o nicho da Senhora. Na sagrada imagem da Virgem Santissima, não via elle sinão o formoso vulto de Maria da Gloria, em cuja contemplação se enlevava sua alma.
Por vezes tentou recobrar-se d'essa alheiação dos sentidos e não o conseguiu. Foi-lhe impossivel arrancar d'alma a doce visão que a cingia como um regaço de amor. Não era a Mãi de Deus, a Rainha Celestial que elle adorava n'esse momento, mas a loura virgem que tinha um altar em seu coração.
Achava-se impio n'essa idolatria, e abrigava-se em sua devoção por Nossa Senhora da Gloria;
mas ahi estava seu maior pecado, que era n'essa mesma fé tão pura, que seu espirito se desvairava, transformando em amor terrestre o culto divino.
Cerca de um mez Ayres de Lucena esteve no mar, já combatendo os corsarios e levando-os sempre de vencida, já dando caça aos que tinham escapado e castigando o atrevimento de ameaçarem a colonia portugueza.
Durante esse tempo, sempre que ao entrar em combate, a equipagem da escuna invocava o patrocinio de sua madrinha, Nossa Senhora da Gloria, era o commandante preza da mesma allucinação que já sentira, e erguia-se da oração com um remorso, que lhe pungia o coração presago de algum infortunio.
Presentia o castigo de sua impiedade, e se
O VOTO
Ao cabo do seu cruzeiro, tornára Ayres ao Rio de Janeiro onde entrou á noite calada, quando já toda a cidade dormia.
Havia tempos que soára no mosteiro o toque de completas; já todos os fogos estavam apagados, e não se ouvia outro rumor a não ser o ruido das ondas na praia, ou o canto dos gallos, despertados pela claridade da lua ao nascer.
Cortando a flôr das ondas alisadas, que se alljofravam como os brilhantes reçumos da espuma irisada pelos raios da lua, veiu a escuna dar fundo em frente ao largo da Polé.
No momento em que ao fisgar d'ancora arfava o lindo navio, como um corcel brioso soffreado pela mão do ginete, quebrou o silencio da noite um dobre funebre.
Era o sino da igreja de Nossa Senhora do O que tangia o toque da agonia. Teve Ayres, como toda a equipagem, um aperto de coração ao ouvir o lugubre annuncio. Não faltou entre os marujos quem tomasse por mau agouro a circumstancia de ter a escuna fundeado no momento em que começára o dobre.
Logo apoz abicava á ribeira o batel conduzindo Ayres de Lucena, que saltou em terra ainda com o mesmo sossobro, e a alma cheia de inquietação.
Era tarde da noite para ver Duarte de Moraes; mas não quiz Ayres recolher sem passar-lhe pela porta, e avistar-se com a casa onde habitava a dama de seus pensamentos.
Alvoroçaram-se os sustos de sua alma já aíflicta, encontrando aberta áquella hora adiantada a porta da casa, e as frestas das janellas esclarecidas pelas resteas de luz interior.
De dentro sahia um rumor soturno como de lamentos, entremeiados com reza.
Quendo deu por si, achava-se Ayres, conduzido pelo som do pranto, em uma camara illuminada por quatro cirios collocados nos cantos de um leito mortuario. Sobre os lençóes e mais
livida que elles, via-se a estatua inanimada, mas sempre formosa, de Maria da Gloria.
A nivea cambraia que lhe cobria o seio mimoso, afflava com um movimenlo quasi imperceptivel, mostrando que ainda não se extinguira de.todo n'esse corpo gentil o halito vital.
Ao ver Ayres, Ursula, o marido e as mulheres que rodeavam o leito, ergueram para elle as mãos com um gesto de desespero e redobraram o pranto. .
Não os percebia porém corsario; seu olhar baço e morno se fitára no vulto da moça e parecia entornar sobre ella toda sua alma, como uma luz que bruxoleia.
Um momento, as palpebras da menima se ergueram a custo, e( os olhos azues, coalhados em um pasmo glacial, volvendo para o nicho de jacarandá suspenso na parede, cravaram-se na imagem de Nossa Senhora da Gloria, mas cerraram-se logo.
Estremeceu Ayres, e ficou um instante como alheio a si, e ao que passava em torno.
Lembrava-se do pecado de render impia adoração a Maria na imagem de Nossa Senhora da Gloria, e via na enfermidade que lhe arrebatava a menina, um castigo de sua culpa.
Pendeu-lhe a cabeça acabrunhada, com si vergasse ao pezo da colera celeste ; mas de chofre a ergueu com a resolução de animo que o arrojava ao combate, e por sua vez pondo os olhos na imagem de Nossa Senhora da Gloria, calhiu de joelhos com as mãos erguidas.
— Pequei, Mãi Santissima, murmurou do fundo d'alma; mas vossa misericordia, é infinita. Salvai-a ; por penitencia de meu pecado andarei um anno inteiro no mar para não a ver; e quanto trouxer ha de ser para as alfaias de vossa capella.
Não eram proferidas estas palavras, quando estremeceu com um sobresalto nervoso o corpo de Maria da Gloria. Entreabriu ella as palpebras e exhalou dos labios fundo o longo suspiro.
Todos os olhos se fitaram anciosos no formoso semblante, que iase córando com uma tenue aura de vida.
— Torna a si! exclamaram as vozes, a umtempo.
Ergueu Ayres a fronte, duvidando do que ouvia. Os meigos
olhos da menina ainda embotatados pelas sombras da morte que os tinham roçado,
fitaram-se n'elle ; e um sorriso angelico enflorou a rosa d'esses labios que
pareciam sellados para sempre.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.