Por José de Alencar (1878)
Nesse momento, porém, seu espírito recebeu uma expressão mais definida. Lembrou-se de que era aquela a habitação desse Carlos, de quem na véspera lhe falara com tanta amizade e calor o Henrique Teixeira.
Todas as particularidades de sua conversação com o médico lhe acudiram à mente. Esquecendo o dueto, repassou de memória as palavras que ouvira acerca do viúvo e então, como já não estava dominada do sestro de motejar e meter a ridículo tudo quanto era sentimental, compenetrou-se mais das observações do doutor e dos fatos por ele referidos.
Quando absorta nestes pensamentos olhava o edifício meio oculto pelos bambus e avermelhado pelo arrebol, viu Hermano que passava entre as árvores, e aproximava-se do banco favorito.
A moça, disfarçando a sua curiosidade, recolheu o airoso busto na penumbra da coluna, para observar o solitário passeador, que se sentara a pequena distância do muro da chácara, em lugar onde ela o via perfeitamente por entre a folhagem.
Impressionada pela narração de Teixeira, examinou a fisionomia, e notou que ela não tinha nesse momento a expressão de recolhimento e abstração própria do homem que está só. O seu olhar não era de contemplação; animava-o o raio do espírito em comunicação com outro espírito: não era o olhar que vê, mas o olhar que fala, que transmite a impressão em vez de recebê-la.
Uma vez Hermano ergueu-se; foi até a platibanda, colheu uma flor, um lírio, e tornando a seu lugar, conservou-o na mão com o gesto expressivo de quem o mostrasse a outrem sentado à sua direita.
Então operou-se em Amália um fenômeno psicológico, estranho para ela que vivia unicamente no presente, porém em si mui natural e freqüente. Assim como na tela de um transparente as figuras assomam de repente quando as colocam a contraluz, da mesma forma na memória da moça desenharam-se cenas da infância esquecidas por tantos anos.
Pareceu-lhe que via como outrora os dois noivos sentados no mesmo banco à sombra dos bambus. Uma tarde, Hermano tinha colhido a mais linda flor do lírio e a apresentara à mulher dizendo-lhe:
— É a tua imagem.
— Então guarda-a, respondeu a mulher; e inclinando-se sobre a flor, bafejou-a com o hálito. Dei-lhe um pouco de minha alma.
A travessa menina debruçada sobre o muro ouvira esse rápido diálogo, de cujas palavras agora se recordava como se as estivesse escutando. Hermano tinha guardado a flor, que ele aspirava com delícia, sorrindo à mulher.
Lá estava ele ainda, com a flor, o gesto e o sorriso que ela vira cinco anos antes; só faltava a noiva. Então Amália revolveu debalde a memória na esperança de achar aquela imagem que se esvanecera; tentou recompor com os traços fugitivos de suas recordações aquela meiga figura, mas não o conseguiu.
No vislumbre de suas reminiscências aparecia um vulto formoso e elegante; mas ela não podia distinguir-lhe as feições; e isso a contrariava. Sentia um desejo de rever aquela moça, de conhecê-la agora que era moça também. Talvez viessem a ser amigas; com certeza o seriam; e que prazer não lhe daria a sua intimidade!
Estas vagas aspirações, Amália não as cogitou; despontavam em seu espírito de envolta com as recordações do passado, e apagavam-se logo.
Amália tinha muitas vezes lido em romances uns lirismos de amor semelhantes àquele bafejo da flor; e sabia que nos bailes e na vida real eles eram freqüentemente copiados e até exagerados pelos noivos.
Todo esse formulário poético do namoro, ela o achava sumamente ridículo; e sempre que o apanhava em flagrante, o havia aplaudido com uma risada gostosa, como um lance de comédia.
Entretanto agora que o terno sentimento de Hermano pela mulher devia parecer-lhe ainda mais extravagante, pela circunstância de não ser já senão uma mímica, bem longe de excitar-lhe o riso, ao contrário a tinha comovido.
Assim devia ser. O gesto de Hermano, por mais excêntrico e singular que fosse, aparecia-lhe através da morte, cuja sombra o envolvia. Não era uma fineza banal de namorados, nem uma afetação vã. Havia naquele diálogo mudo a comunicação de duas almas cujo elo o túmulo não tinha partido.
Quando o viúvo afastou-se na direção da casa, Amália sorriu-se; mas de si, de uma idéia de menina.
Lembrou-se do desejo que tivera outrora de achar um noivo como aquele, que a adorasse, como ele adorava a mulher, e lhe desse muitas jóias, muitas fitas, muitas galanterias.
Tinham corrido os anos. Ela ficara moça e era bonita; alguns diziam muito bonita, e ela concordava com estes. Seria mais bonita do que a outra, que ela invejava? Não sabia; e tinha uma certa curiosidade de verificar esta circunstância.
Não lhe faltavam noivos; ela poderia ter escolhido um entre muitos tão elegantes como esse, e talvez mais sedutores. Entretanto os desdenhara a todos; e não sentia o menor entusiasmo pelo casamento.
De que provinha isto?
Nessa noite Amália foi com a família ao teatro. Enquanto se vestia, e durante o espetáculo, seu espírito algumas vezes se desprendia das impressões do momento para insistir naquela interrogação.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.