Por Martins Pena (1845)
Negreiro.) NEGREIRO, à parte – Oh, diabo! Ei-lo comigo! (Alberto querendo esconder-sena janela, dá com Negreiro e recua espantado.) ALBERTO – Um homem! Um homem escondido em minha casa!
NEGREIRO, saindo da janela – Senhor!
ALBERTO – Quem és tu? Responde! (Agarra-o.)
NEGREIRO – Eu? Pois não me conhece, sr. Alberto? Sou Negreiro, seu amigo... Não me conhece?
ALBERTO – Negreiro... sim... Mas meu amigo, e escondido em casa de minha mulher!
NEGREIRO – Sim senhor, sim senhor, por ser seu amigo é que estava escondido em casa de sua mulher.
ALBERTO, agarrando Negreiro pelo pescoço – Infame!
NEGREIRO – Não me afogue! Olhe que eu grito!
ALBERTO – Dize, por que te escondias?
NEGREIRO – Já lhe disse que por ser seu verdadeiro amigo... Não aperte que não posso, e então também dou como um cego, em suma.
ALBERTO, deixando-o – Desculpa-te se podes, ou treme...
NEGREIRO – Agora sim... Vá ouvindo. (À parte:) Assim safo-me da arriosca e vingo-me, em suma, do inglesinho. (Para Alberto:) Sua mulher é uma traidora!
ALBERTO – Traidora?
NEGREIRO – Traidora, sim, pois não tendo certeza de sua morte, tratava já de casar-se.
ALBERTO – Ela casar-se? Tu mentes! (Agarra-o com força.)
NEGREIRO – Olhe que perco a paciência... Que diabo! Por ser seu amigo e vigiar sua mulher agarra-me deste modo? Tenha propósito, ou eu... Cuida que é mentira? Pois esconda-se um instante comigo e verá. (Alberto esconde o rosto nas mãos e fica pensativo. Negreiro, à parte:) Não está má a ressurreição! Que surpresa para a mulher! Ah, inglesinho, agora me pagarás!
ALBERTO, tomando-o pelo braço – Vinde... Tremei porém, se sois um caluniador. Vinde! (Escondem-se ambos na janela e observam durante toda a seguinte cena.)
NEGREIRO, da janela – A tempo nos escondemos, que alguém se aproxima!
CENA XXI Entra FELÍCIO e MARIQUINHA.
FELÍCIO – É preciso que te resolvas o quanto antes.
ALBERTO, da janela – Minha filha!
MARIQUINHA – Mas...
FELÍCIO – Que irresolução é a tua? A desavença entre os dois fará que a tia apresse o teu casamento – com qual deles não sei. O certo é que de um estamos livres; resta-nos outro. Só com coragem e resolução nos podemos tirar deste passo. O que disse o Negreiro à tua mãe não sei, porém, o que quer que seja, a tem perturbado muito, e meu plano vai-se desarranjando.
MARIQUINHA – Oh, é verdade, a mamãe tem ralhado tanto comigo depois desse momento, e me tem dito mil vezes que eu serei a causa da sua morte...
FELÍCIO – Se tivesses coragem de dizer a tua mãe que nunca te casarás com o Gainer ou com o Negreiro...
NEGREIRO, da janela – Obrigado!
MARIQUINHA – Jamais o ousarei!
FELÍCIO – Pois bem, se o não ousas dizer, fujamos.
MARIQUINHA – Oh, não, não!
CLEMÊNCIA, dentro – Mariquinha?
MARIQUINHA – Adeus! Nunca pensei que você me fizesse semelhante proposição!
FELÍCIO, segurando-a pela mão – Perdoa, perdoa ao meu amor! Estás mal comigo? Pois bem, já não falarei em fugida, em planos, em entregas; apareça só a força e coragem. Aquele que sobre ti lançar vistas de amor ou de cobiça comigo se haverá.
Que me importa a vida sem ti? E um homem que despreza a vida...
MARIQUINHA, suplicante – Felício!
CLEMÊNCIA, dentro – Mariquinha?
MARIQUINHA – Senhora? Eu te rogo, não me faças mais desgraçada!
CLEMÊNCIA, dentro – Mariquinha, não ouves?
MARIQUINHA, – Já vou, minha mãe. Não é verdade que estavas brincando?
FELÍCIO – Sim, sim, estava; vai descansada.
MARIQUINHA – Eu creio em tua palavra. (Sai apressada.)
CENA XXII
FELÍCIO, só – Crê na minha palavra, porque eu disse que serás minha. Com aquele dos dois que te ficar pertencendo irei ter, e será teu esposo aquele que a morte poupar. São dez horas, os amigos me esperam. Amanhã se decidirá minha sorte. (Toma o chapéu que está sobre a mesa e sai.)
CENA XXIII
ALBERTO e NEGREIRO, sempre na janela.
ALBERTO – Oh, minha ausência, minha ausência!
NEGREIRO – A mim não me matarás! Safa, em suma.
ALBERTO – A que cenas vim eu assistir em minha casa!
NEGREIRO – E que direi eu? Que tal o menino?
ALBERTO – Clemência, Clemência, assim conservavas tu a honra da nossa família? Mas o senhor pretendia casar-se com minha filha?
NEGREIRO – Sim senhor, e creio que não sou um mau partido; porém já desisto, em suma, e... Caluda, caluda!
CENA XXIV
Entra CLEMÊNCIA muito bem vestida.
ALBERTO, na janela – Minha mulher Clemência!
NEGREIRO, na janela – Fique quieto.
CLEMÊNCIA, assentando-se – Ai, já tarda... Este vestido me vai bem... Estou com meus receios... Tenho a cabeça ardendo de alguns cabelos brancos que arranquei... Não sei o que sinto; tenho assim umas lembranças de meu defunto... É verdade que já estava velho.
NEGREIRO, na janela – Olhe, chama-o de defunto e velho!
CLEMÊNCIA – Sobem as escadas! (Levanta-se.)
NEGREIRO – Que petisco para o marido! E casai-vos!
CLEMÊNCIA – É ele!
CENA XXV
Entra GAINER.
GAINER, entrando – Dá licença? Sua criado... Muito obrigada.
NEGREIRO, na janela – Não há de quê.
CLEMÊNCIA, confusa – O senhor... eu supunha... porém... eu... Não quer se assentar? (Assentam-se.)
GAINER – Eu recebe uma carta para vir trata de uma negócia.
CLEMÊNCIA – Fiada em sua bondade...
GAINER – Oh, meu bondade... obrigada.
CLEMÊNCIA – O sr. Mister bem sabe que... (À parte:) Não sei o que lhe diga.
GAINER – O que é que eu sabe?
(continua...)
PENA, Martins. Os dois ou o Inglês Maquinista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 . Acesso em: 29 jan. 2026.