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#Comédias#Literatura Brasileira

Os Ciúmes de um Pedestre ou o Terrível Capitão do Mato

Por Martins Pena (1846)

ANACLETA – Não grite tanto, que ele pode vir...

PAULINO – Ele! Oh, agora é que minha morte é certa... E que morte? E por quem? Arreda, mulher, arreda! Eu agora preferia estar com tua alma... Sim, com tua alma, porque ainda não vi nenhum marido ter ciúmes da alma de sua mulher...

ANACLETA – Senhor!

PAUL1NO – Oh, estou capaz de te matar para ficar só com tua alma!

ANACLETA – Meu Deus!

PAULINO – Tudo está acabado, tudo! Amanhã estarei morto! Ó Sol que me alumiais, amanhã verás o meu enterro subindo pela Ladeira de Santo Antônio... Não escapo, não posso escapar... Aqui encontrado, só com ela, morrerei às suas mãos. Oh!

ANACLETA – Fujamos, fujamos!

PAULINO – Fugir contigo! Oh, de ti fugiria eu, se a porta estivesse aberta. Fugir com uma mulher! Oh, leve o diabo todas as mulheres e quem acredita nelas e...

ANACLETA, muito assustada – Ele aí vem! (Dirige-se para a direita e sai.)

PAULINO, assustado – Aí vem! (Dirige-se para a esquerda e entra no quarto e fecha a porta.)

CENA XVII

Entra o PEDESTRE, muito assustado.

PEDESTRE – Estou perdido! O melhor é fugir enquanto é tempo... É preciso levar alguma coisa. (Dirige-se para a mesa e, abrindo a gaveta, tira uma caixinha de fósforo e acende a vela.) Ao dobrar a segunda esquina, esbarramos mesmo com uma patrulha... O negrinho meteu logo pernas com o saco às costas, e eu também. Pega, pega! gritava a patrulha, e eu do mesmo modo gritava: Pega, pega! para não desconfiarem de mim. Mas no primeiro canto furtei-lhe a volta e vim mais que depressa para casa... Ah, mas não posso escapar! O negrinho será preso com o corpo às costas; falará... Aqui virão, e o outro corpo... Está dito, nasci para morrer enforcado por causa das mulheres, que tantos trabalhos me têm dado. Vou ajuntar o pouco dinheiro que tenho e ponho-me ao fresco... Quem quiser que a enterre... Oh, diabo, deixei a porta aberta! (Dirige-se para fechar a porta do fundo.)

CENA XVIII

O PEDESTRE, ao chegar à porta, recua por nela aparecer ROBERTO.

ROBERTO, da porta – Dá licença?

PEDESTRE, recuando – Ah! (À parte:) Estou perdido!

ROBERTO, entrando – Desculpe-me, se a estas horas...

PEDESTRE, à parte – Toda a hora é boa para se prender e enforcar um homem...

ROBERTO – Só muito poderoso motivo me obrigaria a incomodá-lo a horas tão indevidas...

PEDESTRE – Ai, que o homem não é o que eu pensei... Não me vem prender... Sem dúvida quer que eu lhe procure algum escravo fugido. (Alto:) Que ordena vossa senhoria?

ROBERTO – Senhor, há apenas doze horas que desembarquei chegando da Índia...

PEDESTRE – Ah, e ele já fugiu... Sem dúvida, ao desembarcar...

ROBERTO – Ele quem?

PEDESTRE – O seu escravo.

ROBERTO – Não é de um meu escravo que lhe venho falar.

PEDESTRE – Ah! (À parte:) Que diabo será? (Alto:) Então far-me-á o favor de dizer depressa o que quer. Bem vê que a estas horas... (Aqui Anacleta espreita pelo buraco da porta para [a] cena e nesse jogo continua.)

ROBERTO – Direi o que quero, e peço me desculpe. Há dezoito anos que um motivo, que é inútil agora dizer, obrigou-me a deixar o Rio de Janeiro, minha pátria. Parti para costa da África; mas antes, cruel e imperiosa necessidade obrigou-me a lançar na roda dos enjeitados minha querida filhinha. Com o coração partido de dor deixei esta terra, chorando a amante que o túmulo me roubara e a filha que deixava entregue a alheia caridade. Dezoito anos de exílio... Ah, mas à custa de privações e trabalhos conquistei uma fortuna de príncipe. (O Pedestre tira o boné que conservava na cabeça.) Uma fortuna colossal para oferecer à minha filha, que abandonada passara a sua mocidade... Esta manhã entrava eu pela barra; três navios preciosamente carregados seguiam-me... E estes três navios pertencem-me.

PEDESTRE – Três navios!

ROBERTO – Ao saltar em terra, apressado dirigi-me para a Santa Casa da Misericórdia, a fim de saber se minha filha ainda vivia. Como ia ansioso e trêmulo! Aí chegando, perguntei por essa inocente menina que havia dezoito anos dava-me forças para tanto sofrer e coragem para trabalhar... Dei os necessários sinais – uma cruz de ouro esmaltada, orlada de azul...

PEDESTRE, espantado – Uma cruz de ouro!

ANACLETA, da porta, à parte – Uma cruz de ouro!

ROBERTO – Foi-me respondido que essa menina, não tendo sido reclamada, o Recolhimento a dotara e casara. Perguntei com quem; disseram-me que com um homem que ao depois se fizera pedestre.

ANACLETA, da porta, à parte – Meu Deus!

PEDESTRE, assombrado, ao mesmo tempo – É ela! Oh! (Aqui Paulino principia a espiar pelo buraco da porta à esquerda; com cautela, porém, para não ser visto.)

ROBERTO – Com um pedestre! exclamei eu. Não importa. Se esse homem a tem feito feliz, se na pobreza a que seu estado o condena tem suavizado a sua sorte com os dotes de alma, se na vida doméstica a tem feito esquecer o abandono de sua mocidade, esse homem será meu genro. Amanhã terá um palácio magnífico, numerosos criados, ricas equipagens...

PEDESTRE, à parte – Oh, e eu a matei!

ROBERTO – ... ouro em que se possa fartar, ouro em abundância para satisfazer seus menores caprichos.

PEDESTRE, à parte – E eu a matei!

(continua...)

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