Por Martins Pena (1845)
LUÍS – Quer que eu fale? Ah, ah, ah!
CLARA – E esta?
CLEMENTINA – Eu ouvi a voz da Maria.
CENA XIX
Entra Maria adiante de Manuel, gemendo. Manuel conserva-se vestido de mulher.
RITINHA – Aí vem ela.
CLARA – A gemer. Que foi?
MANUEL, que traz um pau na mão – Anda! (Maria vem gemendo, assenta-se no banco debaixo da janela.)
CLARA – Ai,
o Manuel vestido de mulher! Que mascarada é esta?
CLEMENTINA – Como está feio!
CLARA – Mas que é isto? Por que gemes?
MARIA – Ai, ai, ai! Minhas costas...
MANUEL – É uma vergonha!
CLARA, para Manuel – O que fez ela?
MARIA, gemendo – Minha costela... minha cabeça...
MANUEL – O que fez? Um desaforo! Mas eu lhe ensinei com este pau.
CLARA – Deste-lhe com o pau?
CLEMENTINA – Pobre Maria!
MARIA – Ai, ai, ai! Minhas pernas...
CLARA, para Manuel – Mas por quê?
MANUEL – Estava a desencaminhar-se com o Sr. Luís.
CLARA – Com meu sobrinho?
CLEMENTINA, ao mesmo tempo – Com o primo?
RITINHA, ao mesmo tempo – Com ele?
JÚLIO, ao mesmo tempo – É bom saber!
LUÍS – Não há tal, tia. Este diabo está bêbado! Não vê como está vestido?
MANUEL – Olhe, senhora, que não estou bêbado. Eu bem vi, com estes olhos que a terra há-de comer, o senhor dar abraços na Maria.
CLARA – Ai, que indecência!
CLEMENTINA – Que vergonha! Namorando uma ilhoa!
RITINHA – Que humilhação!
JÚLIO – De que se admiram, minhas senhoras? É esse o costume do Sr. Luís. Tudo lhe faz conta – a velha, a moça, a bonita, a feia, a branca, a cabocla...
CLEMENTINA – Que horror!
RITINHA, ao mesmo tempo – Que horror! (Alguns convidados riem-se.)
LUÍS – Psiu! Alto lá, Sr. Júlio, cá ninguém o chamou!
JÚLIO – E o melhor é, minhas senhoras, que ele nutre grandes esperanças de casar-se com uma das senhoras desta roda.
TODAS AS SENHORAS – Comigo não!
LUÍS, chegando-se para Júlio – Já estás cantando vitória?
JÚLIO, para as senhoras – Vejam o que faz a presunção!
LUÍS – Ainda é cedo, meu menino! Pensa que eu cedo com essa facilidade? (Aqui João sai do quarto do ilhéu, pé ante pé, para não ser visto, e encaminha-se para o fundo.)
JÚLIO – Cederás, que te digo eu!
LUÍS – Deverás? (Zombando. Volta para trás e vê João, que se retira para o fundo.) Ó tio João? Tio João? Venha cá! (Vai buscá-lo e trá-lo para frente.)
CLARA – Ai, onde estava este homem metido?
CLEMENTINA – O que quererá ele fazer?
JÚLIO – O que pretenderá?
LUÍS – Tio?
CLARA, interrompendo e puxando João pelo braço – Aonde estavas?
LUÍS, puxando-o pelo braço – Espere, tio, deixe que eu...
CLARA, mesmo jogo – Quero que me diga o que fez estas duas horas.
LUÍS, mesmo jogo – Logo perguntará por isso, que agora tenho eu que lhe falar.
CLARA, mesmo jogo – Nada; primeiro há-de me dizer onde esteve escondido. Isto se faz? Eu a procurá-lo...
LUÍS, mesmo jogo – Dê-me atenção!
CLARA, mesmo jogo – Responda!
LUÍS, mesmo jogo – Deixe-o!
CLARA, mesmo jogo – Deixa-o tu também!
LUÍS, metendo-se entre Clara e João – Ora tia, que impertinência é essa? Tem tempo de fazer-lhe perguntas e ralhar como quiser. (Enquanto Luís fala com Clara, Júlio segura João pelo braço.)
JÚLIO – Lembre-se da sua promessa!
LUÍS, puxando João pelo braço e falando-lhe à parte – Eu bem vi aonde estava... No quarto da ilhoa.
JÚLIO, mesmo jogo – Espero que não falte; quando não, digo tudo à Senhora D. Clara.
LUÍS, mesmo jogo – Se não consentir no que eu lhe quero pedir, descubro tudo à tia.
CLARA – O que quer isto dizer?
JÚLIO, mesmo jogo, mas falando alto – Dá-me a sua filha por esposa?
LUÍS, mesmo jogo – Concede-me a mão da prima?
JÚLIO, mesmo jogo, à parte – Olhe que eu falo...
LUÍS, mesmo jogo – Se ma não der, conto tudo...
JÚLIO, mesmo jogo, alto – Então?
LUÍS, mesmo jogo – O que resolve?
JÚLIO e LUÍS, mesmo jogo – Sim ou não?
JOÃO – Casem-se ambos, e deixem-me!
CLEMENTINA, RITINHA, JÚLIO, LUÍS – Ambos?
CLARA, puxando por João – Que história são essas?
MANUEL, mesmo jogo – Pague-me o que deve!
LUÍS, mesmo jogo – Dê-me a prima!
JÚLIO, mesmo jogo – Assim falta à sua palavra?
MANUEL, mesmo jogo – O meu dinheiro?
JÚLIO, mesmo jogo – Falarei!
LUÍS, mesmo jogo – O que decide? (Todos quatro rodeiam João, que assenta-se no chão e mergulha a cabeça, tapando-a com os braços.)
CLARA – Não o deixo enquanto não me disser aonde esteve, o que fez. Se isto são modos!
JÚLIO, ao mesmo tempo – Vossa Senhoria prometeu-me. Se não quer que eu fale, cumpra a sua palavra.
MANUEL, ao mesmo tempo – Quero-me ir embora! Nem um instante mais aqui! Paga-me o que me deve.
LUÍS – Basta! Deixem-no! Levante-se, tio; aqui está a minha mão. (João levanta-se.) Tranqüilize-se. (À parte, para João:) Faça o que lhe eu mandar, que o salvarei. (Para Júlio:) Bem vê que eu ainda podia lutar, mas sou generoso; não quero. (Para João:) Tio, dê-lhe a mão da prima, (ao ouvido:) que nos calaremos. (João, sem dizer palavra, vai apressado para Clementina, lava-a para junto de Júlio, a quem a entrega, e os abençoa.)
JÚLIO – Ó felicidade!
LUÍS
– Disto estou livre. (Para João:) Pague
ao Sr. Manuel o que lhe deve. (João mete
a mão na algibeira do colete, tira um maço de bilhetes e entrega a Manuel.)
(continua...)
PENA, Martins. O Namorador ou a Noite de São João. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1992 . Acesso em: 29 jan. 2026.