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#Comédias#Literatura Brasileira

O Judas em sábado de aleluia

Por Martins Pena (1844)

Pimenta (assustado) — Isto não vai bem. (Para Antônio:) Não sai daqui antes de eu lhe entregar uns papéis. Espere! (Faz semblante de querer ir buscar os bilhetes;

Antônio o retém)

Antônio, para Pimenta — Olhe que se perde!

Capitão — E então? Ainda não me deixaram dizer ao que vinha. (Ouve-se repique de sinos, foguetes, algazarra, ruídos diversos como acontece quando aparece a Aleluia) O que é isto?

Pimenta — Estamos descobertos!

Antônio (gritando) — É a Aleluia que apareceu. (Entram na sala, de tropel, Maricota,

Chiquinha, os quatro meninos e os dous moleques)

Meninos — Apareceu a Aleluia! Vamos ao judas!... (Faustino, vendo os meninos junto de si, deita a correr pela sala. Espanto geral. Os meninos gritam e fogem de Faustino, o qual dá duas voltas ao redor da sala, levando adiante de si todos os que estão em cena, os quais atropelam-se correndo e gritam aterrorizados. Chiquinha

fica em pé junto à porta por onde entrou. Faustino, na segunda volta, sai para a rua, e os mais, desembaraçados dele, ficam como assombrados. Os meninos e moleques, chorando, escondem-se debaixo da mesa e cadeiras; o Capitão, na primeira volta que dá fugindo de Faustino, sobe para cima da cômoda; Antônio Domingos agarra-se a Pimenta, e rolam juntos pelo chão, quando Faustino sai: e

Maricota cai desmaiada na cadeira onde cosia)

Pimenta (rolando pelo chão, agarrado com Antônio) — É o demônio!...

Antônio — Vade-retro, Satanás! (Estreitam-se nos braços um do outro e escondem a cara)

Chiquinha (chega-se para Maricota) — Mana, que tens? Não fala; está desmaiada!

Mana? Meu Deus! Sr. Capitão, faça o favor de dar-me um copo com água.

Capitão (de cima da cômoda) — Não posso lá ir!

Chiquinha, à parte — Poltrão! (Para Pimenta:) Meu pai, acuda-me! (Chega-se para ele e o chama, tocando-lhe no ombro)

Pimenta (gritando) — Ai, ai, ai! (Antônio, ouvindo Pimenta gritar, grita também)

Chiquinha — E esta! Não está galante? O pior é estar a mana desmaiada! Sou eu, meu pai, sou Chiquinha; não se assuste. (Pimenta e Antônio levantam-se cautelosos)

Antônio — Não o vejo!

Chiquinha (para o Capitão) — Desça; que vergonha! Não tenha medo. (O Capitão principia a descer) Ande, meu pai, acudamos a mana. (Ouve-se dentro o grito de

Leva! leva! como costumam os moleques, quando arrastam os judas pelas ruas)

Pimenta — Aí vem ele!... (Ficam todos imóveis na posição em que os surpreendeu o grito, isto é, Pimenta e Antônio ainda não de todo levantados; o Capitão com uma perna no chão e a outra na borda de uma das gavetas da cômoda, que está meio aberta; Chiquinha esfregando as mãos de Maricota para reanimá-la, e os meninos nos lugares que ocupavam. Conservam-se todos silenciosos, até que se ouve o grito exterior) — Morra! — em distância)

Chiquinha (enquanto os mais estão silenciosos) — Meu Deus, que gente tão medrosa! E ela neste estado! O que hei-de fazer? Meu pai? Sr. Capitão? Não se movem! Já tem as mãos frias... (Aparece repentinamente á porta Faustino, ainda com os mesmos trajos; salta no meio da sala e vai cair sentado na cadeira que está junto à mesa. Uma turba de garotos e moleques armados de paus entram após ele, gritando: Pega no judas, pega no judas! — Pimenta e Antônio erguem-se rapidamente e atiram-se para a extremidade esquerda do teatro, junto aos candeeiros da rampa; o Capitão sobe de novo para cima da cômoda: Maricota, vendo Faustino na cadeira, separado dela somente pela mesa, dá um grito e foge para a extremidade direita do teatro; e os meninos saem aos gritos de debaixo da mesa, e espalham-se pela sala. Os garotos param no fundo junto à porta e, vendose em uma casa particular, cessam de gritar)

Faustino (caindo sentado) — Ai, que corrida! Já não posso! Oh, parece-me que por cá ainda dura o medo. O meu não foi menor vendo esta canalha. Safa, canalha! (Os garotos riem-se e fazem assuada) Ah, o caso é esse? (Levanta-se) Sr. Pimenta? (Pimenta, ouvindo Faustino chamá-lo, encolhe-se e treme) Treme? Ponha-me esta corja no olho da rua... Não ouve?

Pimenta (titubeando) — Eu, senhor?

Faustino — Ah, não obedece? Vamos, que lhe mando — da parte da polícia...

(Disfarçando a voz como da vez primeira)

Antônio — Da parte da polícia!... (Para Pimenta:) Vá, vá!

Faustino — Avie-se! (Pimenta caminha receoso para o grupo que está no fundo, e com bons modos o faz sair. Faustino, enquanto Pimenta faz evacuar a sala, continua a falar. Para Maricota:) Não olhe assim para mim com os olhos tão arregalados, que lhe podem saltar fora da cara. De que serão esses olhos? (Para o Capitão:) Olá, valente capitão! Está de poleiro? Desça. Está com medo do papão? Hu! hu! Bote fora a espada, que lhe está atrapalhando as pernas. É um belo boneco de louça! (Tira o chapéu e os bigodes, e os atira no chão) Agora ainda terão medo? Não me conhecem?

Todos (exceto Chiquinha) — Faustino!

Faustino — Ah, já! Cobraram a fala! Temos que conversar. (Põe uma das cadeiras no meio da sala e senta-se. O Capitão, Pimenta e Antônio dirigem-se para ele enfurecidos; o primeiro coloca-se à sua direita, o segundo à esquerda e o terceiro atrás, falando todos três ao mesmo tempo. Faustino tapa os ouvidos com as mãos)

(continua...)

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