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#Comédias#Literatura Brasileira

As Casadas Solteiras

Por Martins Pena (1845)

Henriqueta — Que vocês resolverão a Jeremias a acompanhar-me, se eu o não puder conseguir.

Ambas — Conta conosco.

Henriqueta — Muito bem. Agora vão arranjar a roupa necessária. (Ouve-se dentro

Jeremias cantar.) E depressa, que eu ouço a voz do meu tratante...

Virgínia — Em um momento estamos prontas. (Saem as duas.)

CENA IX

Henriqueta e depois Jeremias.

Henriqueta (só) — Vens muito alegre... Mal sabes tu o que te espera. Canta, canta, que logo chiarás! (Apaga a vela.) Ah, meu tratante!

Jeremias (entrando) — Que diabo! É noite fechada e ainda não acenderam as velas! (Chamando:) Tomás, Tomás, traze luz! Não há nada como estar o homem solteiro, ou, se é casado, viver bem longe da mulher. (Enquanto fala, Henriqueta vem-se aproximando dele pouco a pouco.) Vivo como um lindo amor! Ora, já não posso aturar a minha cara-metade... O que me vale é estar ela há mais de duzentas léguas de mim. (Henriqueta, que a este tempo está junto dele, agarra-lhe pela gola da casaca, Jeremias assustando-se:) Quem é? (Henriqueta dá-lhe uma bofetada e o deixa. Jeremias, gritando:) Ai, tragam luzes! São Ladrões! (Aqui entra o criado com luzes.)

Henriqueta — É outra girândola, patife!

Jeremias — Minha mulher!

Henriqueta — Pensavas que te não havia de encontrar?

Jeremias — Mulher do diabo!

Henriqueta — Agora não te perderei de vista um só instante.

Jeremias (para o criado) — Vai-te embora. (O criado sai.)

Henriqueta — Ah, não queres testemunhas?

Jeremias — Não, porque quero te matar!

Henriqueta — Ah, ah, ah! Disso me rio eu.

Jeremias (furioso) — Ah, tens vontade de rir? Melhor; a morte será alegre. (Tomando-a pelo braço.) Tu és uma peste, e a peste se cura; és um demônio, e os demônios se exorcizam; és uma víbora, e as víboras se matam!

Henriqueta — E aos desavergonhados se ensinam! (Levanta a mão para dar-lhe uma bofetada, e ele, deixando-a, recua.) Ah, foges?

Jeremias — Fujo sim, porque da peste, dos demônios, e das víboras se foge... Não quero mais te ver! (Fecha os olhos.)

Henriqueta — Hás de ver-me e ouvir-me!

Jeremias — Não quero mais te ouvir! (Tapa os ouvidos com a mão.)

Henriqueta (tomando-o pelo braço) — Pois há de me sentir.

Jeremias (saltando) — Arreda!

Henriqueta — Agora não me arredarei mais do pé de ti, até o dia do Juízo...

Jeremias — Pois agora também faço eu protesto solene a todas as nações, declaração formalíssima à face do universo inteiro, que hei de fugir de ti como o diabo foge da cruz; que hei de evitar-te como o devedor ao credor; que hei de odiarte como as oposições odeiam as maiorias.

Henriqueta — E eu declaro que te hei de seguir como a sombra segue o corpo...

Jeremias (exclamando) — Meu Deus, quem me livrará deste diabo encarnado?

Criado (entrando) — Uma carta da Corte para o Sr. Jeremias.

Jeremias — Dá cá. (O criado entraga e sai. Jeremias para Henriqueta:) Não ter eu a fortuna, peste, que esta carta fosse a de convite para teu enterro...

Henriqueta — Não terá esse gostinho. Pode ler, não faça cerimônia.

Jeremias — Não preciso da sua permissão. (Abre a carta e a lê em silêncio.) Estou perdido! (Deixa cair a carta no chão.) Desgraçado de mim! (Vai cair sentado na cadeira.)

Henriqueta — O que é?

Jeremias — Que infelicidade, ai!

Henriqueta — Jeremias!

Jeremias — Arruinado! Perdido!

Henriqueta (corre e apanha a carta e a lê) — “Sr. Jeremias, muito sinto dar-lhe tão desagradável notícia. O negociante a quem o senhor emprestou o resto de sua fortuna acaba de falir. Os credores não puderam haver nem dois por cento do rateio. Tenha resignação...” — Que desgraça! Pobre Jeremias! (Chegando-se para ele:) Tende coragem.

Jeremias (chorando) — Ter coragem! É bem fácil de dizer-se... Pbre miserável... Ah! (Levantando-se:) Henriqueta, tu que sempre me amaste, não me abandones agora...

Mas não, tu me abandonarás; eu estou pobre...

Henriqueta — Injusto que tu és. Acaso amava eu o teu dinheiro, ou a ti?

Jeremias — Minha boa Henriqueta, minha querida mulher, agora que tudo perdi, só tu és o meu tesouro; só tu serás a consolação do pobre Jeremias.

Henriqueta — Abençoada seja a desgraça que me faz recobrar o teu amor! Trabalharemos para viver, e a vida junto de ti será para mim um paraíso...

Jeremias — Oh, nunca mais te deixarei! Partamos para o Rio de Janeiro, partamos, que talvez ainda seja tempo de remediar o mal.

Henriqueta — Partamos hoje mesmo.

Jeremias — Sim, sim, hoje mesmo, agora mesmo...

Henriqueta — Espera.

Jeremias — O quê?

Henriqueta — Virgínia e Clarice irão conosco.

Jeremias — Virgínia e Clarice? E seus maridos?

Henriqueta — Ficam.

Jeremias — E elas?

Henriqueta — Fogem.

Jeremias — Acaso tiraram eles a sorte grande?

Henriqueta - Lisonjeiro!

Jeremias - Venha quem quiser comigo, fuja quem quiser, que eu o que quero é verme no Rio de Janeiro.

Henriqueta - Vem cá. (Saindo.) Feliz de mim! (Saem pela direita.)



CENA X

Entram pela esquerda John e Bolingbrok.

Bolingbrok (entrando) — Very good porter, John.

John — Sim. É um pouco forte.

Bolingbrok — Oh, forte não! Eu ainda pode bebe mais. (Senta-se e chama:)

Tomás? Tomás? (O criado entra.) Traz uma ponche. (O criado sai.)

(continua...)

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