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#Romances#Literatura Brasileira

Ubirajara

Por José de Alencar (1874)

— Ubirajara é o grande chefe da nação araguaia; à sua voz cala-se a palavra dos anciões; a seu gesto curva-se a fronte dos guerreiros; à sua vontade obedecem as tabas. Mas no amor de Jandira, ninguém manda, nem Tupã. Jandira é noiva de Ubirajara, e se ele não quiser aceitá-la, o guanumbi a levará para os campos alegres onde repousam as virgens que morreram.

— Pojucã não carece do amor de Jandira. Nas tabas dos tocantins, a mais bela das virgens se regozijaria de pertencer ao mais valente dos chefes e de habitar sua rede. Nas tabas dos araguaias, onde nascem guerreiros como Ubirajara, não faltarão virgens formosas, que desejem a glória de ser mãe de um filho de Pojucã.

— Jandira seria a primeira, se não conhecesse Jaguarê, o mais belo dos jovens caçadores, que é hoje Ubirajara, o senhor da lança e chefe dos chefes. Pojucã merece uma esposa que nunca tenha ouvido o canto de outro guerreiro, para dar-lhe um filho digno dele.

— Os ritos de tua nação não punem a noiva que rejeita o prisioneiro?

— Jandira sabe que sujeita-se à morte; mas a morte é menos cruel do que o abandono.

— Então foge, virgem dos araguaias; e esconde-te à cólera dos anciões.

Talvez mais tarde Ubirajara se arrependa e te perdoe.

— Jandira parte. Ela te deseja uma esposa terna e a morte gloriosa.

A filha de Majé penetrou na floresta e afastou-se rapidamente da taba.

Quando já estava muito longe, sentou à sombra de um manacá coberto de flores e cantou.

— Eu fui Jandira, a linda abelha, que fabricava os favos de cera para enchêlos de mel saboroso.

"Agora arrancaram-me as minhas asas com que eu voava pela campina colhendo o pó das flores e secou a doçura de meu sorriso.

"O canto que saía de meu seio era como o da patativa ao pôr-do-sol, quando se recolhe em seu ninho de paina macia.

"Agora eu queria ter no coração uma serpente para morder aquela que roubou-me o amor de meu guerreiro.

"Guardei a minha formosura para orgulho do esposo, e inveja dos outros guerreiros.

"Agora eu trocaria a flor do meu rosto por um aspecto terrível que infundisse pavor.

"Meus seios mais lindos que os botões do cardo, por um peito feroz, e as mãos ligeiras que tecem os fios do algodão pelas garras do jaguar.

"Eu fui Jandira, o manacá viçoso que se vestia de flores azuis e brancas.

"Agora sou como a juçara que perdeu a folha, e só tem espinhos para ferir aqueles que se chegam."

Os anciões já estavam reunidos na oca do conselho, quando Ubirajara entrou. Falou Camacã

— Ubirajara, senhor da lança, chefe dos chefes, os pais da grande nação araguaia escutam a tua voz.

O grande chefe três vezes bateu no chão com a ponta do arco e disse:

— Pojucã, o chefe tocantim, pede a morte do combate; ele a merece, porque é um grande guerreiro e um varão ilustre. Ubirajara concedeu-lhe essa honra, como seu vencedor.

— Ubirajara é um inimigo generoso, respondeu Camacã.

Todos os anciões inclinaram gravemente a cabeça encanecida para exprimirem sua aprovação às palavras de Camacã.

Prosseguiu Ubirajara

— É tempo de escolher para o prisioneiro uma esposa digna de acompanhar em seus últimos dias ao herói inimigo, e de ser mãe do marabá, o filho da guerra.

Todos os abarés desejavam para si a glória de oferecer uma filha ao prisioneiro.

— Ubirajara destinou-lhe Jandira, filha de Majé. Ela o merece por sua formosura e pelo sangue do grande guerreiro que gira em suas veias.

— Ubirajara é um grande chefe, disse Camacã.

Os anciões aprovaram outra vez com a cabeça; Majé acrescentou

— O sangue do velho Majé não desmentirá em Jandira a fama da nação araguaia.

— Não! disse Ubirajara, e todos os anciões repetiram Não!

O grande chefe tornou com a voz pausada.

— Celebrai a cerimônia da entrega da esposa ao prisioneiro. Ubirajara parte; só estará de volta na próxima lua para assistir ao suplicio de Pojucã. Se na ausência de Ubirajara cair na taba a flecha, anúncia da guerra, conduzi o trocano ao sitio onde se abraçam os grandes rios e soltai a voz da nação araguaia. Nesse dia Ubirajara será convosco.

Os prudentes anciões, com a cabeça inclinada para melhor ouvir, recebiam as palavras do grande chefe e as guardavam na memória.

Quando Ubirajara calou-se, Camacã repetiu, ainda mais pausado, as recomendações do filho

— É esta a vontade de Ubirajara?

— Tu o disseste.

— Os anciões guardaram a palavra do chefe dos chefes? perguntou ainda Camacã.

— Ela entrou no espírito dos abarés, como a raiz no seio da terra; observou Majé.

— Bem dito; repetiram todos.

Ubirajara saiu do carbeto; após ele os anciões se retiraram lentamente.


A HOSPITALIDADE


Na entrada do vale ergue-se a grande taba dos tocantins. É a hora em que as sombras abraçam os troncos das árvores e o sol descansa em meio da carreira.

A floresta emudece e todos os viventes se abrigam da calma que abrasa.

Ubirajara deixa o escuro da mata e caminha para a grande taba dos tocantins.

Quando chegou à distância do tiro de uma flecha despedida pelo mais robusto guerreiro, tocou a inúbia.

O guerreiro de vigia respondeu; e o chefe araguaia, quebrando a seta, alçou a mão direita para mostrar a senha da paz.

Então avançou para a taba; na entrada da caiçara que cercava o campo dos tocantins, atirou ao chão a seta partida.

Os guerreiros que tinham acudido ao som da inúbia, deixaram passar o estrangeiro sem inquirir donde vinha, nem o que trouxera.

Era este o costume herdado de seus maiores; que o hóspede mandava na taba aonde Tupã o conduzia.

(continua...)

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